A praticidade letal
A incoerência estressante
Desde
muito jovem, sempre tive uma certa repulsa natural a todo tipo de
autossabotagem a que pessoas inteligentes e capazes que conheci simplesmente se
entregavam. Esta autossabotagem servia para se esconderem de responsabilidades,
para não enfrentarem desafios ou mesmo para tirarem vantagem usando uma muleta
como desculpa para atraírem a compaixão para si — em situações em que não era a
falta de capacidade ou deficiência real, mas um jeito muito estranho de ganhar
pertencimento, favores e, mais tarde, comodidades e privilégios no mundo do
trabalho. Hoje temos a Inteligência Artificial, que funciona como uma nova
"muleta" tecnológica.
É
estranho, primeiro porque, agindo assim, quem nasce com um talento e o
reconhece em si mostra ingratidão à própria Fonte que lhe concedeu o talento —
o Criador de todas as coisas —; e segundo porque, ao invés de exercer seu
potencial, prefere adotar o lema: o mundo é dos espertos (malandros). Muitas
pessoas jamais compreenderam o quanto este tipo de crença transforma-se em um
hábito e gera pessoas do mais baixo nível como ser humano.
Sem
querer discutir certo ou errado, a questão para se refletir é que, atrelado a
esta crença que perdura até hoje, o pensamento utilitarista e prático
substituiu a capacidade reflexiva e, praticamente, eliminou a coragem de
pensarmos por nós mesmos. Não pensar em qualquer coisa, mas pensar na vida, sua
grandeza, sua beleza — uma oportunidade para nossa melhor expressão como ser
humano —, que hoje é reduzida à expressão do que possuímos, aparentamos ou
conquistamos para nós e nossas bolhas de convivência.
Será
que a evolução da humanidade sempre esteve destinada ao egoísmo? Era mesmo para
que o individualismo e o egoísmo prevalecessem? Será que a expressão da
individualidade autêntica das pessoas realmente desapareceu ou, simplesmente, a
grande maioria das pessoas adotou a estratégia do esperto desinteligente? Neste
contexto, explica-se por que existe discriminação, perseguição, preconceitos,
acusações gratuitas e injustiças sobre as pessoas que ousam demonstrar um pouco
de discernimento e criatividade. Porque incomoda, pois o normal para ser aceito,
pelos padrões da mediocridade, deve-se fazer o contrário.
Ataque à educação humanizadora
Neste
período histórico, o pensamento digital tem assumido proporções insensatas e
influenciado a todos nós; a colheita tem sido o extermínio do bom senso e da
coerência, onde o propósito da criatividade humana tem servido, unicamente, à
praticidade da vida. O ataque ao sistema educacional é um exemplo em que os
saberes — que levam ao autoconhecimento e à interpretação da realidade, como
ela é — foram sequestrados pelo paradigma do utilitarismo, para o qual a
elevação do pensamento humano não interessa.
O
pensamento prático e o fazer prático utilitarista faz oposição àquilo que mais
nos diferencia — o pensamento não linear. Quando somos pressionados a dar
respostas a tudo, a ter resultados para ontem, em meio a um caos de barulho e
pressa, deixamos de dar aquele tempo necessário que o nosso processo cognitivo natural
precisa, para se desenvolver com liberdade.
Neste
mundo, a função das nossas habilidades tem servido para criar obsolescências e
precariedades de vida. É isto que alimenta a corrida dos ratos, uma corrida de
cem metros infindável. Contudo, isto nunca escapará da lei da semeadura e da
colheita. Colhemos uma pandemia de ansiedade, de estresse e de esgotamento
mental, por conta do que estamos plantando hoje. O desrespeito proposital e a
desvalorização de nossa capacidade de reflexão também explicam o brutal ataque
aos sistemas educacionais de nosso tempo.
Seguir
um fluxo para a vida — e não somente para a sobrevivência —, é contrário ao
fluxo da perpetuação do status quo, o qual, convenientemente, faz vistas
grossas a todo e qualquer avanço que traga uma crítica ao pensamento
automatizado e à reprodução da falência do pensamento humano, que este ensaio
insinua, por exemplo, sobre os efeitos da inteligência artificial, tão badalada
pelo mundo afora.
A mente humana é líquida
A água
é um elemento natural incrível por sua capacidade de nutrir a vida, de
construir caminhos, de seguir as leis físicas e expressar sua força quando
submetida a qualquer tentativa de encarceramento. Se o espaço para a água é
pequeno, tende a transbordar; se a rocha é dura demais, usa o tempo para
desgastá-la, pois sua existência transcende os calendários humanos. Quanto a
isto, podemos nos tranquilizar, pois nesta reflexão não estamos julgando e
condenando a realidade nua e crua de nossa imperfeição como civilização
moderna, pois assim tem sido construída ao longo de nossa existência neste
planeta.
Mas o
transbordamento de nossas mentes é algo inevitável. Muitas pessoas neste mundo
estão em ponto de ruptura com este modus operandi da automação humana e
sua planejada submissão aos algoritmos de aceitação social. Estamos percebendo
o quão incoerente é este modelo de vida, que justifica tanta falta de bom
senso. Bom senso, aliás, que nasce conosco, na essência, e um dia deixamos de lado,
pois, como diz a frase: “é o que temos para hoje, então sejamos práticos”.
Pensar
é crime? Buscar soluções ao invés de recrudescer problemas é loucura? Acreditar
no potencial humano é bobagem? Negar a sabedoria da vida é um mal necessário?
Precisamos aumentar nossos problemas, além de nosso desamparo existencial
natural? É lícito tomar o tempo das pessoas com algo insustentável, desumano e
programado?
Não
temos uma receita para responder a estes questionamentos. Justamente porque
cada um é cada um. Aprendemos que o bom uso de nossos talentos depende se
queremos viver ou somente sobreviver. Cada direção tem um preço! Congelar
nossas mentes ou deixá-las fluir depende de nossas escolhas. Qual caminho a
seguir é uma decisão para refletirmos, especialmente quando temos a clareza de
que um dia não teremos mais tempo para decidir!
Conclusão
Portanto,
a verdadeira resistência ao utilitarismo e à sedução das muletas
tecnológicas reside na nossa capacidade de insubordinação mental. Ao
permitirmos que nossa essência flua livremente como a água, rompendo os
cercados do pensamento automatizado, escolhemos o caminho da vida em sua
plenitude e não apenas da sobrevivência. Valorizar o pensamento não linear
é o que nos permite honrar a grandeza humana e o talento que nos foi confiado,
garantindo que nossa jornada seja marcada pela autêntica autoralidade antes que
o tempo de decidir se esgote.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1. O
que o autor quer dizer ao classificar a Inteligência Artificial como uma
"nova muleta tecnológica"?
A IA é
vista como uma ferramenta que valida e amplia o comportamento de autossabotagem
de pessoas capazes que preferem fugir de responsabilidades e desafios para
atrair compaixão ou obter privilégios e comodidades no trabalho sem exercer seu
real potencial.
2.
Como o "pensamento utilitarista" impacta a coragem individual?
Este
modelo de pensamento substituiu a capacidade reflexiva, eliminando a coragem de
as pessoas pensarem por si mesmas sobre a grandeza da vida; em vez disso, a
existência é reduzida apenas ao que possuímos ou conquistamos para nossas
bolhas sociais.
3. Por
que a autenticidade e o discernimento são frequentemente alvo de perseguição?
Porque
a demonstração de discernimento e criatividade incomoda os padrões da
mediocridade. Para ser aceito nesses padrões, espera-se que o indivíduo faça o
contrário de pensar criticamente, o que explica a discriminação contra quem
ousa ser autêntico.
4. De
que maneira o sistema educacional foi "sequestrado"?
O
ataque à educação humanizadora ocorre porque os saberes voltados ao
autoconhecimento e à interpretação da realidade foram substituídos pelo
paradigma do utilitarismo, um sistema que não tem interesse na elevação do
pensamento humano.
5.
Qual é o papel do "pensamento não linear" nesta versão do texto?
O
pensamento não linear é definido como o elemento que mais nos diferencia
das máquinas e do sistema utilitarista. Ele exige um tempo de maturação que o
processo cognitivo natural precisa para se desenvolver com liberdade, indo
contra a pressão por resultados imediatos.
6. O
que o autor define como a "corrida dos ratos"?
É
descrita como uma "corrida de cem metros infindável" onde as
habilidades humanas são usadas apenas para criar obsolescências e precariedades
de vida, alimentando um ciclo que resulta em pandemias de ansiedade e
esgotamento mental.
7.
Qual é a crítica feita ao "pensamento automatizado"?
O
autor critica a reprodução da falência do pensamento humano, que é facilitada
pela IA e pela manutenção do status quo. Este sistema faz "vistas
grossas" para qualquer avanço que traga uma visão crítica sobre como
estamos apenas sobrevivendo em vez de vivendo.
8. O
que a metáfora da "mente humana líquida" representa?
Representa
a força e a resiliência da essência humana. Assim como a água transborda se
encarcerada ou desgasta a rocha com o tempo, a mente humana tende a romper com
modelos de automação e algoritmos que tentam limitar sua expressão.
9. Por
que o autor questiona a submissão aos "algoritmos de aceitação
social"?
Porque essa submissão é vista como um modelo
de vida incoerente que nos obriga a abandonar o bom senso nato em favor de uma
praticidade vazia, resumida na frase: “é o que temos para hoje, então sejamos
práticos”.
10.
Qual é a escolha definitiva apresentada ao final do ensaio?
A
decisão entre viver ou somente sobreviver. O autor alerta que o uso dos
nossos talentos e a decisão de deixar a mente fluir ou congelar dependem de
escolhas conscientes, que devem ser feitas antes que percamos a clareza ou o
tempo para decidir.
Para
visualizar essa reflexão de forma mais imersiva, convido você a assistir ao
vídeo AQUI
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insubordinação mental. Se você busca um refúgio de paz em meio à pressa
artificial do mundo moderno e deseja se aprofundar nessas provocações
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