Quando outra pessoa mais importa O resgate de nossa humanidade Certa vez, em uma viagem de lua de mel, fui a um restaurante experimentar um prato famoso e caro — uma lagosta —, que eu só fui conhecer depois de adulto, junto com minha esposa. Naquele dia, enquanto aguardávamos o prato chegar, aproximou-se de nós um menino muito pobre, com roupas em farrapos e todo sujo, pedindo-nos algo para comer. Sem pensar muito, pedimos ao garçom para levar um prato de alimento e servir o menino. Para nossa surpresa, fomos hostilizados pelos olhares dos atendentes e da gerência, que demonstraram total reprovação ao que havíamos feito. Mantivemos a criança na mesa até que ela terminasse e, logo depois, chegou o nosso pedido. Mas hoje, relembrando o fato mais de trinta anos depois — dentre os quais nunca mais comi lagosta —, veio uma pergunta: o que foi aquilo? A pior gafe de etiqueta foi atender a uma criança com fome? Isso foi tão reprovável assim? Ninguém que não faça algo diferente...
A proeza da lentidão orgânica A vida em ritmo lento Em um mundo em que a escala de produção se tornou prioridade, a automatização passou a ser o grande objetivo da tecnologia. A reprodução de operações repetitivas, com máxima precisão e margens ínfimas de erros, levou-nos à segurança no trabalho, à eficiência de processos complexos e a construções monumentais. Mas, depois de tudo, a beleza da conquista prolongada no tempo foi trocada por uma marca do nosso século: a quebra de recordes, onde tudo deve ser feito em prazos cada vez mais curtos — a corrida dos ratos. Lembro-me de que, quando jovem, na era analógica, torcia para que um vídeo legal aparecesse de novo na televisão, o que podia demorar uma semana inteira. Para quem tinha o videocassete, que podia gravar filmes e programas, era como ter o céu sem limites. Nessa época, tudo o que se via de interessante precisava ficar gravado na memória, inclusive detalhes que dependiam de um nível de atenção e capacidade de observ...