Memórias e Heranças
Ambição terrena
Em uma ocasião distante, vivendo no outro
lado do mundo, no Japão, tive o privilégio de estar ao lado do meu pai, que
hoje vive junto às estrelas. Conhecemos a neve, as cerejeiras, a rotina em um
País onde nossos ancestrais viveram. Inclusive, moramos em uma cidade com o
nosso próprio sobrenome de família. Nesta reflexão, não seria possível traduzir
tudo o que vivenciamos naqueles dias, pois tanto ele como eu precisamos usar,
de forma integrada, nossas percepções, nossos instintos de sobrevivência e nossa
capacidade adaptativa ao máximo. Para efeito de análise, aquela imigração
física representou um espelho da busca da alma por seu "berço natal"
espiritual.
Nosso principal objetivo era superar
dificuldades econômicas e conquistar recursos financeiros para nossa família.
Mas houve um dilema importante quanto ao tempo que ficaríamos lá para isto.
Primeiro porque a regra básica natural era guardar mais do que se ganhava, e
isso dependia do quanto ganhávamos; e quanto mais conseguíssemos economizar,
mais cedo voltaríamos para casa. Isso significava que viveríamos sob uma
rigorosa disciplina de contenção e de ausência de luxos e comodidades
supérfluas.
Esta foi uma parte de nosso compartilhamento
vivenciado com muita intensidade, sofrimentos, mortificações e em que, juntos,
nos autodescobrimos enquanto vestíamos a identidade de imigrantes. Este
fenômeno se repete no mundo atual, até hoje, envolvendo milhares de pessoas e
famílias. Neste contexto, o que era ambição? Como encarávamos nossa condição
precária espontânea? O que significava a opinião alheia naquela fase de nossas
vidas? Qual o significado da relação pai e filho? O que realmente sobrou depois
de tudo?
A superação interna
Nenhuma sociedade competitiva abre espaço
fácil para ninguém e, caso haja interesse mútuo, um sentido de troca de ganhos,
o que ocorre é uma negociação. Este é o mundo que prioriza o lucro e que, por
si, não interessa humanidades. Assim foi quando os imigrantes japoneses
chegaram ao Brasil e assim foi quando o movimento inverso aconteceu — em
condições diferentes, com certeza.
Porém, acima dos interesses de ambas as
partes, a transcendência da experiência foi um dos resultados não previstos,
sequer ambicionados, sequer estabelecidos nas negociações. Esta experiência
afetou a todas as pessoas que, direta e indiretamente, vivenciaram o processo,
seja do lado financeiro, puramente, ou seja do lado humano, em que
subjetividades foram intensamente marcadas em todos os corações.
As subjetividades mais caras, como o
sentimento de desamparo, de medo, de saudade extrema, de falta de humanidade,
de superação, de paciência, da força do destino ao vivo e a cores, na pele, do
corpo e na mente. Um prato cheio para o desenvolvimento pessoal em todos os
níveis, que não envolvia títulos acadêmicos, mas, simplesmente, o viver a vida,
um dia por vez, enquanto durasse.
A grande discriminação com pessoas que partem
de seus portos de origem e desembarcam em outro País para trabalhar são os
estigmas que bombardeiam a mente das pessoas, em que o dilema é o
reconhecimento da necessidade de sobrevivência e a manutenção da saúde mental,
em que o jogo do lucro não aniquilasse a alma, destroçando-a com o excesso de
trabalho. Algo que muitos não conseguiram, encurtando as próprias vidas longe
de seu berço natal.
Entretanto, era a única opção para superar a
ideia do mundo fácil, conquistado com tapinha nas costas de uma pessoa
influente, pois era uma proposta de autossuficiência pelas próprias mãos e pés.
Talvez esse tipo de escolha não sirva para todos, pois exige a aceitação de um
destino e um propósito relacionado a uma epistemologia do trabalho como
princípio educativo, de onde o valor do suor, do sangue e das lágrimas não faz
sentido em um mundo em que tudo já está pronto, ao clicar um botão, sem esforço
algum.
Contudo, esta falta de espaço para o esforço
não desperta a aflição existencial em precisar manter-se gente diante das
dificuldades e não perder a própria humanidade enquanto se enfrenta todo tipo
de contexto, em uma bolha estrangeira que, muitas vezes, é xenofóbica e
preconceituosa. Se há algo que se aprende nesta vida é que a discriminação é um
dos mais fortes componentes da atitude humana, que precisa ser conhecida para
criarmos os escudos necessários: a “casca dura” da personalidade que se mantém
intacta, mesmo diante dos piores ataques e manipulações ideológicas.
O outro lado da Moeda
Os frutos da semeadura do esforço, da
dedicação, do foco e do amor-próprio são os pensamentos mais poderosos de quem
percorreu, verdadeiramente, o caminho das pedras. A mudança mais importante no
jeito de ser é a convicção interior de que, em primeiríssimo lugar, o Criador
de todas as coisas não nos abandona nunca e sempre está ao nosso lado nos
momentos mais difíceis; e, em segundo, de que não conhecemos nossa própria
capacidade e talento. Neste sentido, o esforço não é um fim, mas um meio de
"despertar a aflição existencial" que nos mantém humanos.
O retorno é o momento mais desejado por quem
se joga para a vida no exterior. Contudo, uma das mais difíceis decisões. Em um
mundo em que ambição é querer ter segurança financeira, estabilidade de vida e
condição de vida digna são prioridades, e isto tem a ver com a posse de
recursos. Então, o que o regresso significa? Por que alguém retornaria a um
lugar onde tudo isto era impossível conquistar? Qual o motivo para voltar a um
lugar sem acolhimento, de desrespeito, de preconceitos? Retornar a uma bolha em
que princípios e valores foram substituídos pela pura ambição do lucro pelo
lucro, pelo egoísmo, pelo individualismo e pela corrupção?
Passamos a compreender que, pela experiência
da dificuldade, perdemos o medo de enfrentar o desconhecido; passamos a
acreditar que podemos realizar qualquer coisa, sem depender do vitimismo e da
autocomiseração. Aprendemos a reconhecer almas auxiliadoras que estão
espalhadas em qualquer lugar do mundo, à disposição para nos restaurar o ânimo,
mesmo por um único olhar de compreensão e empatia, onde a dor do preconceito
transmutou-se para uma lição sobre a interdependência humana. Perdemos a
prepotência de nos acharmos donos da vida e de todas as verdadeiras certezas e,
por último, entendemos que a vida é uma jornada de aprendizagem sobre
humanidade. No fim, nosso retorno foi uma prova de que a "ambição
material" foi superada pela "sanidade mental" e pela fé.
Tudo passa, menos o que a alma aprende
Depois de um tempo para processar toda esta
vivência, é possível enxergar que aquela realidade inicial da partida para o
mundo não passava de uma falta de autoconhecimento, falta de fé, falta de
vivência e, especialmente, falta de compreensão das relações humanas. A corrida
dos ratos, comum a todos nós, mais do que gostamos de admitir, é uma passagem
obrigatória para discernirmos os limites da ambição material e os nossos
limites de sanidade mental.
Compreender que tudo o que podemos adquirir
neste mundo é um empréstimo de Deus para seguirmos nossas jornadas, para
usarmos nossos talentos e, quem sabe, deixar um legado às futuras gerações, com
um propósito maior para a ambição humana. As lições retiradas daquela viagem ao
outro lado do mundo apenas serviram para que eu e meu pai terreno
confirmássemos algo que penso ser interessante deixar para a posteridade: é
que, talvez, a verdadeira ambição, ou o desejo do nosso Pai acima de todas as
coisas, é que nos encontremos no caminho que Ele traçou para o nosso destino.
Conclusão
Em última análise, a jornada descrita revela
que a verdadeira "ambição de um Pai" transcende a conquista material,
residindo na capacidade de despertar a aflição existencial que nos mantém
genuinamente humanos. Ao superarmos a "corrida dos ratos", passamos a
compreender que a vida não é um acúmulo de bens, mas uma jornada de
aprendizagem sobre a humanidade e a interdependência, onde cada desafio serve
para moldar o ser e fortalecer a alma. Assim, o maior legado que o ser humano
pode deixar é a consciência de que somos todos caminhantes em busca de um
propósito maior, encontrando nossa essência no caminho traçado pelo Criador.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
- Por
que a experiência no Japão é descrita como um "espelho" no
texto?
Porque a imigração física para a terra dos
ancestrais representou, simbolicamente, a busca da alma humana pelo seu próprio
"berço natal" espiritual.
- Qual
era o dilema central enfrentado durante a vivência no exterior?
O dilema envolvia o tempo necessário para
conquistar recursos financeiros versus a necessidade de viver sob uma rigorosa
disciplina de contenção e privação de luxos para acelerar o retorno.
- Como
o texto define a "epistemologia do trabalho"?
Define o trabalho como um princípio
educativo, onde o valor do esforço, do suor e das lágrimas serve para construir
a autossuficiência e superar a ilusão de um "mundo fácil".
- O
que o autor quer dizer com "despertar a aflição existencial"?
Significa que o esforço não deve ser um fim
em si mesmo (apenas para ganhar dinheiro), mas um meio de manter o indivíduo
alerta e consciente de sua própria humanidade diante das dificuldades.
- Qual
a importância de criar uma "casca dura" na personalidade?
A "casca dura" é necessária para
que o indivíduo se mantenha intacto e preserve sua dignidade diante de
contextos xenofóbicos, preconceituosos ou de manipulações ideológicas.
- Como
a dor da discriminação pode ser transformada, segundo o artigo?
A dor do preconceito transmuta-se em uma
lição sobre a interdependência humana ao aprendermos a reconhecer "almas
auxiliadoras" que restauram o ânimo através da empatia.
- Por
que o retorno ao país de origem é considerado uma prova de vitória?
Porque o regresso demonstra que a
"ambição material" foi superada pela preservação da sanidade mental e
pela fé, mesmo voltando para um ambiente que pode ser desfavorável.
- O
que o autor define como a "corrida dos ratos"?
É a busca incessante e automática por bens
materiais, uma fase que muitos atravessam para finalmente discernir os limites
da ambição e as fronteiras da própria saúde mental.
- Qual
a visão do artigo sobre a posse de bens materiais?
O texto defende que tudo o que adquirimos é,
na verdade, um "empréstimo de Deus" para que possamos usar nossos
talentos e deixar um legado às futuras gerações.
- Qual
é, afinal, a verdadeira "ambição" mencionada no título?
É o desejo do Criador de que seus filhos não
se percam no materialismo, mas encontrem o caminho e o destino que Ele traçou
para cada um.
Veja mais
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