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AMBIÇÃO DE UM PAI: aquilo que o Grande Criador espera de nós

Ilustração digital em estilo realista de um pai e seu filho pequeno de mãos dadas, de costas, caminhando por uma trilha iluminada e dourada em uma montanha coberta de neve e cerejeiras em flor no Japão, sob a luz de um pôr do sol radiante com um halo místico, tendo ao fundo um portal Tori, lanternas de pedra e a silhueta do Monte Fuji, representando o ensaio Ambição de um Pai do Professor Marcio Ueda.

Memórias e Heranças

 

Ambição terrena

Em uma ocasião distante, vivendo no outro lado do mundo, no Japão, tive o privilégio de estar ao lado do meu pai, que hoje vive junto às estrelas. Conhecemos a neve, as cerejeiras, a rotina em um País onde nossos ancestrais viveram. Inclusive, moramos em uma cidade com o nosso próprio sobrenome de família. Nesta reflexão, não seria possível traduzir tudo o que vivenciamos naqueles dias, pois tanto ele como eu precisamos usar, de forma integrada, nossas percepções, nossos instintos de sobrevivência e nossa capacidade adaptativa ao máximo. Para efeito de análise, aquela imigração física representou um espelho da busca da alma por seu "berço natal" espiritual.

Nosso principal objetivo era superar dificuldades econômicas e conquistar recursos financeiros para nossa família. Mas houve um dilema importante quanto ao tempo que ficaríamos lá para isto. Primeiro porque a regra básica natural era guardar mais do que se ganhava, e isso dependia do quanto ganhávamos; e quanto mais conseguíssemos economizar, mais cedo voltaríamos para casa. Isso significava que viveríamos sob uma rigorosa disciplina de contenção e de ausência de luxos e comodidades supérfluas.

Esta foi uma parte de nosso compartilhamento vivenciado com muita intensidade, sofrimentos, mortificações e em que, juntos, nos autodescobrimos enquanto vestíamos a identidade de imigrantes. Este fenômeno se repete no mundo atual, até hoje, envolvendo milhares de pessoas e famílias. Neste contexto, o que era ambição? Como encarávamos nossa condição precária espontânea? O que significava a opinião alheia naquela fase de nossas vidas? Qual o significado da relação pai e filho? O que realmente sobrou depois de tudo?

 

A superação interna

Nenhuma sociedade competitiva abre espaço fácil para ninguém e, caso haja interesse mútuo, um sentido de troca de ganhos, o que ocorre é uma negociação. Este é o mundo que prioriza o lucro e que, por si, não interessa humanidades. Assim foi quando os imigrantes japoneses chegaram ao Brasil e assim foi quando o movimento inverso aconteceu — em condições diferentes, com certeza.

Porém, acima dos interesses de ambas as partes, a transcendência da experiência foi um dos resultados não previstos, sequer ambicionados, sequer estabelecidos nas negociações. Esta experiência afetou a todas as pessoas que, direta e indiretamente, vivenciaram o processo, seja do lado financeiro, puramente, ou seja do lado humano, em que subjetividades foram intensamente marcadas em todos os corações.

As subjetividades mais caras, como o sentimento de desamparo, de medo, de saudade extrema, de falta de humanidade, de superação, de paciência, da força do destino ao vivo e a cores, na pele, do corpo e na mente. Um prato cheio para o desenvolvimento pessoal em todos os níveis, que não envolvia títulos acadêmicos, mas, simplesmente, o viver a vida, um dia por vez, enquanto durasse.

A grande discriminação com pessoas que partem de seus portos de origem e desembarcam em outro País para trabalhar são os estigmas que bombardeiam a mente das pessoas, em que o dilema é o reconhecimento da necessidade de sobrevivência e a manutenção da saúde mental, em que o jogo do lucro não aniquilasse a alma, destroçando-a com o excesso de trabalho. Algo que muitos não conseguiram, encurtando as próprias vidas longe de seu berço natal.

Entretanto, era a única opção para superar a ideia do mundo fácil, conquistado com tapinha nas costas de uma pessoa influente, pois era uma proposta de autossuficiência pelas próprias mãos e pés. Talvez esse tipo de escolha não sirva para todos, pois exige a aceitação de um destino e um propósito relacionado a uma epistemologia do trabalho como princípio educativo, de onde o valor do suor, do sangue e das lágrimas não faz sentido em um mundo em que tudo já está pronto, ao clicar um botão, sem esforço algum.

Contudo, esta falta de espaço para o esforço não desperta a aflição existencial em precisar manter-se gente diante das dificuldades e não perder a própria humanidade enquanto se enfrenta todo tipo de contexto, em uma bolha estrangeira que, muitas vezes, é xenofóbica e preconceituosa. Se há algo que se aprende nesta vida é que a discriminação é um dos mais fortes componentes da atitude humana, que precisa ser conhecida para criarmos os escudos necessários: a “casca dura” da personalidade que se mantém intacta, mesmo diante dos piores ataques e manipulações ideológicas.


O outro lado da Moeda

Os frutos da semeadura do esforço, da dedicação, do foco e do amor-próprio são os pensamentos mais poderosos de quem percorreu, verdadeiramente, o caminho das pedras. A mudança mais importante no jeito de ser é a convicção interior de que, em primeiríssimo lugar, o Criador de todas as coisas não nos abandona nunca e sempre está ao nosso lado nos momentos mais difíceis; e, em segundo, de que não conhecemos nossa própria capacidade e talento. Neste sentido, o esforço não é um fim, mas um meio de "despertar a aflição existencial" que nos mantém humanos.

O retorno é o momento mais desejado por quem se joga para a vida no exterior. Contudo, uma das mais difíceis decisões. Em um mundo em que ambição é querer ter segurança financeira, estabilidade de vida e condição de vida digna são prioridades, e isto tem a ver com a posse de recursos. Então, o que o regresso significa? Por que alguém retornaria a um lugar onde tudo isto era impossível conquistar? Qual o motivo para voltar a um lugar sem acolhimento, de desrespeito, de preconceitos? Retornar a uma bolha em que princípios e valores foram substituídos pela pura ambição do lucro pelo lucro, pelo egoísmo, pelo individualismo e pela corrupção?

Passamos a compreender que, pela experiência da dificuldade, perdemos o medo de enfrentar o desconhecido; passamos a acreditar que podemos realizar qualquer coisa, sem depender do vitimismo e da autocomiseração. Aprendemos a reconhecer almas auxiliadoras que estão espalhadas em qualquer lugar do mundo, à disposição para nos restaurar o ânimo, mesmo por um único olhar de compreensão e empatia, onde a dor do preconceito transmutou-se para uma lição sobre a interdependência humana. Perdemos a prepotência de nos acharmos donos da vida e de todas as verdadeiras certezas e, por último, entendemos que a vida é uma jornada de aprendizagem sobre humanidade. No fim, nosso retorno foi uma prova de que a "ambição material" foi superada pela "sanidade mental" e pela fé.

 

Tudo passa, menos o que a alma aprende

Depois de um tempo para processar toda esta vivência, é possível enxergar que aquela realidade inicial da partida para o mundo não passava de uma falta de autoconhecimento, falta de fé, falta de vivência e, especialmente, falta de compreensão das relações humanas. A corrida dos ratos, comum a todos nós, mais do que gostamos de admitir, é uma passagem obrigatória para discernirmos os limites da ambição material e os nossos limites de sanidade mental.

Compreender que tudo o que podemos adquirir neste mundo é um empréstimo de Deus para seguirmos nossas jornadas, para usarmos nossos talentos e, quem sabe, deixar um legado às futuras gerações, com um propósito maior para a ambição humana. As lições retiradas daquela viagem ao outro lado do mundo apenas serviram para que eu e meu pai terreno confirmássemos algo que penso ser interessante deixar para a posteridade: é que, talvez, a verdadeira ambição, ou o desejo do nosso Pai acima de todas as coisas, é que nos encontremos no caminho que Ele traçou para o nosso destino.

 

Conclusão

Em última análise, a jornada descrita revela que a verdadeira "ambição de um Pai" transcende a conquista material, residindo na capacidade de despertar a aflição existencial que nos mantém genuinamente humanos. Ao superarmos a "corrida dos ratos", passamos a compreender que a vida não é um acúmulo de bens, mas uma jornada de aprendizagem sobre a humanidade e a interdependência, onde cada desafio serve para moldar o ser e fortalecer a alma. Assim, o maior legado que o ser humano pode deixar é a consciência de que somos todos caminhantes em busca de um propósito maior, encontrando nossa essência no caminho traçado pelo Criador.

 

PERGUNTAS E RESPOSTAS

  1. Por que a experiência no Japão é descrita como um "espelho" no texto?

Porque a imigração física para a terra dos ancestrais representou, simbolicamente, a busca da alma humana pelo seu próprio "berço natal" espiritual.

  1. Qual era o dilema central enfrentado durante a vivência no exterior?

O dilema envolvia o tempo necessário para conquistar recursos financeiros versus a necessidade de viver sob uma rigorosa disciplina de contenção e privação de luxos para acelerar o retorno.

  1. Como o texto define a "epistemologia do trabalho"?

Define o trabalho como um princípio educativo, onde o valor do esforço, do suor e das lágrimas serve para construir a autossuficiência e superar a ilusão de um "mundo fácil".

  1. O que o autor quer dizer com "despertar a aflição existencial"?

Significa que o esforço não deve ser um fim em si mesmo (apenas para ganhar dinheiro), mas um meio de manter o indivíduo alerta e consciente de sua própria humanidade diante das dificuldades.

  1. Qual a importância de criar uma "casca dura" na personalidade?

A "casca dura" é necessária para que o indivíduo se mantenha intacto e preserve sua dignidade diante de contextos xenofóbicos, preconceituosos ou de manipulações ideológicas.

  1. Como a dor da discriminação pode ser transformada, segundo o artigo?

A dor do preconceito transmuta-se em uma lição sobre a interdependência humana ao aprendermos a reconhecer "almas auxiliadoras" que restauram o ânimo através da empatia.

  1. Por que o retorno ao país de origem é considerado uma prova de vitória?

Porque o regresso demonstra que a "ambição material" foi superada pela preservação da sanidade mental e pela fé, mesmo voltando para um ambiente que pode ser desfavorável.

  1. O que o autor define como a "corrida dos ratos"?

É a busca incessante e automática por bens materiais, uma fase que muitos atravessam para finalmente discernir os limites da ambição e as fronteiras da própria saúde mental.

  1. Qual a visão do artigo sobre a posse de bens materiais?

O texto defende que tudo o que adquirimos é, na verdade, um "empréstimo de Deus" para que possamos usar nossos talentos e deixar um legado às futuras gerações.

  1. Qual é, afinal, a verdadeira "ambição" mencionada no título?

É o desejo do Criador de que seus filhos não se percam no materialismo, mas encontrem o caminho e o destino que Ele traçou para cada um.

 

Veja mais

Para visualizar essa reflexão de forma mais imersiva, convido você a assistir ao vídeo AQUI

 

 

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