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DEVAGAR E SEMPRE: a jornada da escrita não pode ser apressada

 

Devagar e sempre

O centésimo texto

 

Ritmo e cadência

Uma das pessoas que passou por minha vida sempre dizia: devagar e sempre! Embora fosse uma frase comum, que poderia transparecer desapego demais diante da vida corrida, da urgência do cotidiano e da sobrevivência, era muito mais profunda, de fato. Aquela pessoa já havia passado por muitas fases da vida para ter autoridade sobre o que falava e foi assim que construiu sua fortaleza mental e emocional, lembrada até hoje pelos que tiveram o privilégio de viver junto a ele.

O ritmo e a cadência que ele tinha diante da vida era algo especial e, com isto, ele sabia em qual momento devíamos ficar em silêncio ou guardar as opiniões e, principalmente, quando devíamos nos voltar ao foco para o essencial da vida. Quando ele se sentava à mesa para as refeições, em épocas em que todos se juntavam à mesa, ele fazia questão de elogiar os pratos servidos, que era uma forma de reconhecer o trabalho e a dedicação de quem havia preparado os alimentos. Para mim, havia duas coisas importantes neste simples ato, sendo a primeira o exemplo da gratidão e a segunda, uma retribuição de amor. Aquele elogio ao prato era uma forma de "programação humana" que nenhum código pode replicar.

É isto o que caracterizava aquela pessoa observadora, aquela que era capaz de neutralizar as preocupações da própria vida, para usufruir aqueles momentos de unidade com as pessoas à sua volta, com presença e vínculo afetivo, onde todos compartilhavam o pão de cada dia. Relembrar estes momentos, tão passageiros, de uma boa refeição, realmente conectados ao momento, expressava a importância daquela frase: devagar e sempre.

 

As cartas do passado

Essa pessoa também me ensinou sobre a paciência, a contenção da raiva, como lidar com o medo e com a insegurança. Quando vivi no exterior, recebia cartas todos os meses dele, me pedindo para tomar cuidado, com aquela caligrafia impecável, que é um conselho que que me habituei a falar para meus entes mais próximos, sempre que vão sair de casa. Ele nunca escreveu um livro, ou mesmo poemas, mas tinha uma sensibilidade em colocar o que havia em seu coração, com sinceridade e com empatia e, hoje avalio, depois dele ter sua luz apagada neste mundo, que suas cartas eram a mais pura sabedoria de um guerreiro experiente! Ele sabia o que eu estava vivenciando naquela época e, tal como um mestre e seu pupilo dos filmes, ele me dava o norte para a vida.

A forma como sua frase célere, devagar e sempre, se aplicava àquela situação por meio de suas orientações sobre a passagem do tempo, quando me dizia que aquilo tudo era uma fase da minha vida, que iríamos nos encontrar novamente e que seguiríamos muito tempo juntos depois. Ele simplesmente foi profético e, sim, tive este privilégio mais tarde. Mas, como ele sabia? Como podia ter tanta certeza? De onde ele retirava aquelas mensagens de consolo, de abraço à distância que me faziam derramar lágrimas sobre seus manuscritos?

Hoje, penso que tudo era uma significação das experiências que ele mesmo havia vivenciado, onde ele observou que tudo passa nesta vida, inclusive, os momentos de luta intensa, de combate, de tristeza e saudade. Da mesma forma, a vida também nos traria tempos de paz, de descanso e alegrias em um ciclo que se repetiria, independentemente de queremos ou não. Mas, tentando extrair lições de sabedoria desta pessoa tão carismática, mesmo à distância, acho que ele adquiriu a maestria do ensinar, pela coerência entre o que viveu e o que aprendeu para transmitir às pessoas à sua volta.

 

O centésimo texto

Embora uma publicação nas mídias dos dias de hoje exija uma certa perspectiva acadêmica e formalidade, não tem como falar de um ser humano sem qualquer tipo de afetividade nas palavras escritas. Esta reflexão constitui-se no centésimo artigo que escrevo, mas poderia escrever mil textos e jamais alcançaria toda o discernimento que aquela pessoa, tão especial, transmitiu para mim. Ao elaborar minhas reflexões, sempre tentei seguir aquela cadência, ao reproduzir cada um dos cem textos com paciência.

Nesta centésima reflexão, sinto que existe um tom comemorativo que me permite sair da formalidade usual para expressar gratidão pelos infinitos ensinamentos que aquele ser humano pôde transmitir em vida e, mesmo depois de partir, ainda continua produzindo saberes vitais para quem permaneceu neste mundo, os quais, servem de guia para nossas jornadas.

Me referi a uma única pessoa até aqui, o que me faz pensar o quão impossível é descrever a grandeza de um ser humano, o que me leva à concluir que estamos cercados por uma riqueza, se soubermos extrair a fortaleza mental de cada pessoa importante, que esteja vinculada às nossas vidas, conforme as configurações do destino de cada um de nós.

Ao invés de tentar colocar mil textos em rede, sabendo que não haverá como alcançar a descrição perfeita, a conclusão é a mesma que aprendi: devagar e sempre! Será sempre aos poucos que desvendaremos a sabedoria, pois ela não é escalável como um produto comercial e não pode ser artificializada. Infelizmente ou felizmente, os algoritmos criados para acelerar a produção cultural moderna não tem uma programação para captar a essência da vida.

A sabedoria está vinculada às nossas próprias vivências e, assim, precisamos vivenciar diferentes processos de amadurecimento para compreendê-la, aplicá-la e transmiti-la. E, ainda assim, correremos o real risco de falhar nesta transmissão pois, conforme aquilo que já foi exposto nesta reflexão, pois o exemplo real e concreto ainda será mais eficaz que as palavras.

 

Os frutos da sabedoria herdada

A gratidão vem junto com as memórias, com a saudade, com as aprendizagens. Os momentos vividos de alegria, de tristeza, de segurança e de medo, de sucesso e fracasso e de erros e acertos somam-se em uma grande trama do destino que não nos cabe adivinhar os percursos futuros.

Neste contexto, relembrar o passado não é uma fuga do presente, mas uma aprendizagem presente daquilo que a falta de vivência nos impediu de aprender. É como reler um livro depois de um bom tempo, onde captamos ensinamentos que não vimos na primeira leitura. Assim, a atemporalidade da maestria do viver não pode ser confinada em uma embalagem, ser produzida em escala e nem ser limitada a uma meta de produção, pois está ligada à própria existência, à própria vida de cada um de nós.

Outra importante reflexão é que esta maestria não pode ser transmitida por uma máquina, pois há componentes cognitivos estritamente humanos que compõem a aprendizagem dela, como por exemplo, uma simples reunião de pessoas em carne e osso, ao redor de uma mesa de jantar.

A sabedoria é um componente humano, pela qual se estrutura um caminho de aprendizagem que, nesta reflexão, depende da transmissão humana, pois liga teoria e prática, o que leva à conclusão lógica de que encontraremos isto ao nos envolvermos com pessoas mais vividas. Neste sentido, a ideia moderna de que as pessoas de idade são ultrapassadas e inúteis é o maior equívoco da civilização atual! Máquinas não deixam legado, apenas informações e teorias, ao contrário da sabedoria que é passada por uma única via, entre as gerações humanas.

 

Conclusão

Portanto, ao alcançar este centésimo texto, compreendo que a maior riqueza não está no volume da produção, mas na preservação desse vínculo humano que atravessa gerações. Honrar quem nos deu o "norte" para a vida é manter viva a chama de uma sabedoria que não se explica por algoritmos, apenas se vive. Sigo, portanto, com a certeza de que a maestria do existir continuará sendo descoberta da única forma possível: com paciência, presença e, fiel ao ensinamento que me guia, devagar e sempre.

 

PERGUNTAS E RESPOSTAS

1. Qual é o significado profundo da frase "devagar e sempre" no contexto da obra?

Embora pareça uma expressão comum, ela representa uma filosofia de vida baseada no ritmo e na cadência. Trata-se de uma postura profunda de quem construiu autoridade através da experiência, resultando em uma fortaleza mental e emocional capaz de enfrentar a urgência do cotidiano.

2. Como o mentor demonstrava gratidão e amor em atos simples do cotidiano?

O mentor fazia questão de elogiar os pratos servidos à mesa, reconhecendo o trabalho e a dedicação de quem preparou o alimento. O autor descreve esse gesto como uma forma de "programação humana" que nenhum código ou algoritmo pode replicar, pois une reconhecimento e retribuição de amor.

3. O que caracterizava a "presença" do mentor nos momentos de convívio?

Ele era uma pessoa observadora, capaz de neutralizar as próprias preocupações para focar no essencial: a unidade com as pessoas à sua volta. Essa conexão era manifestada através do vínculo efetivo e do compartilhamento pleno do momento presente.

4. Qual era o papel das "cartas do passado" na formação do autor?

As cartas eram a expressão da sabedoria de um guerreiro experiente, oferecendo um "norte para a vida". Elas ensinavam sobre paciência, contenção da raiva e como lidar com o medo, transmitindo sinceridade e empatia através de uma caligrafia impecável.

5. Como o mentor lidava com a impermanência da vida e dos sofrimentos?

Ele possuía uma visão "profética" de que tudo na vida são fases. Ele compreendia que a existência segue um ciclo de lutas, tristezas e saudades, mas que estes são inevitavelmente seguidos por tempos de paz, descanso e alegria.

6. Por que o autor afirma que a sabedoria não pode ser "escalável" ou artificializada?

A sabedoria está intrinsecamente ligada às vivências individuais e aos processos de amadurecimento. Diferente de um produto comercial ou de uma produção cultural acelerada por algoritmos, ela exige tempo e presença humana para ser compreendida e aplicada.

7. Qual é o principal limite dos algoritmos em relação à essência humana, segundo o texto?

Os algoritmos foram criados para acelerar a produção, mas não possuem programação para captar a essência da vida. Enquanto máquinas entregam informações e teorias, apenas os seres humanos são capazes de transmitir legados e saberes vitais.

8. Como o autor conecta o marco de seu centésimo texto ao seu mentor?

O autor revela que, ao elaborar suas reflexões ao longo de cem textos, tentou seguir a cadência e a paciência aprendidas com seu mentor. Ele reconhece que, apesar da formalidade exigida pelas mídias, é impossível escrever sobre a grandeza humana sem afetividade e discernimento.

9. Por que o autor considera um "equívoco civilizacional" ver os idosos como inúteis?

Porque a sabedoria depende da transmissão entre gerações humanas, ligando teoria e prática através do exemplo real. Pessoas mais vividas são os pilares dessa fortaleza mental que as máquinas, por serem desprovidas de componentes cognitivos e emocionais humanos, jamais poderão substituir.

10. Qual é a função de "relembrar o passado" para quem vive o presente?

Relembrar não é uma fuga, mas uma aprendizagem presente de lições que a falta de vivência anterior nos impediu de notar. É um processo comparado a reler um livro: a cada leitura (ou lembrança), captamos novos ensinamentos devido à nossa própria evolução existencial.


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Assista a um vídeo anime explicativo deste texto, dentre outros, clicando AQUI


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