O fim está no próximo quilômetro
O risco das estradas
Na
minha rotina como professor, durante minha jornada, também nas estradas, sempre
testemunho o desfecho de muitas imprudências, falta de habilidade e bom senso
na direção, ao longo dos meus 21 anos de viagens diárias — totalizando 140 km
de ida e volta. Não nego que também já cometi muitas manobras arriscadas em minha
rotina, a mais de 100 km/h desde as 5h30 da manhã, como muitas outras pessoas
neste mesmo itinerário. Sempre agradeço pelos livramentos e pela Provisão
Divina em momentos de dificuldades.
Muitas
vezes, o risco não se dá somente por imprudência direta, mas por uma falha
mecânica inesperada; desde um pneu furado até falhas em freios, motor e panes
elétricas fazem parte do cardápio. Embora muitos de nós não o admitamos, também
enfrentamos dias em que não estamos bem de saúde. Quando isto se soma às
neblinas ou chuvas intensas, ao ofuscamento da visão pelo sol ou por faróis
altos de motoristas mal-educados, sabemos que basta um segundo de distração
para que nosso fim prematuro aconteça.
Mas,
talvez, o pior dos erros que podemos cometer é a direção automática, quando a
confiança excede o cuidado e a atenção. Por isto, a imprudência não tem idade,
pois é uma combinação de espaço e tempo e de fatores imprevisíveis que jamais
poderemos adivinhar. Assim como no ditado popular: “a sabedoria vem com a
idade, não pela virtude”, aprendemos, na marra, a manter a atenção e a cautela
por meio de uma direção defensiva.
Mas,
neste contexto, podemos nos perguntar: além das estradas, não corremos outros
riscos diários? Não estamos nos arriscando todos os dias pela nossa
autoexposição ao mundo? Os caminhos de nossas jornadas individuais estão
totalmente protegidos e seguros? Nossa sobrevivência no mundo competitivo é uma
estrada pavimentada e lisa? Sabemos o mal que nos aguarda na próxima curva? Por
que temos tanta pressa?
A ilusão da eficiência massificada
Uma
das imagens que mais me espanta é ver grandes caminhões carregando contêineres.
A lógica racionalista do grande sistema montado se trai quando trocamos por
rodovias uma linha férrea que conduziria centenas de contêineres com suas
locomotivas modernas. Que eficiência é esta que produz uma corrida insana de
caminhoneiros apressados, tolhidos por cronogramas apertados e metas desumanas
de entrega? É coerente manter este sistema lento, ao custo de vidas nas
estradas?
As
mortes nas estradas somadas totalizam mais que muitas guerras ao longo dos
anos, e isto envolve todo tipo de veículo, em que a lei da física é clara:
quanto menor, mais rápido; e quanto mais pesado, mais forte é a pancada. Uma
combinação letal em que a pressa dá o tom dos desastres nos embates entre quem
quer chegar primeiro a seu destino.
De
novo precisamos parar a descrição dos fatos com uma pergunta: então quem não
corre não come? Esta é uma racionalidade para o progresso ou para a
subordinação à eficiência bestial? Precisamos cumprir prazos para sermos pagos
com a morte prematura? Ainda somos culpados por nossos atrasos? Somos educados
para defender a vida ou só o ganho financeiro?
Quantas
vezes já fomos cercados por toneladas de carga ao nosso lado, à nossa frente,
ou engavetados nas estradas pelos reis do asfalto? Quantos pais de famílias
nunca voltaram para casa por causa de uma disputa nas estradas? E para quê
mesmo? Será que a bagagem e as histórias dos melhores estradeiros, no sentido
de preservação da vida e da boa convivência, não servem para mais nada?
De quem é a culpa
A
maior pergunta deste ensaio não busca elucidar a culpa de quem está imerso na
logística e na engenharia de tráfego. A resposta a ser encontrada é — usando a
famosa fábula dos porcos assados, em que para assar porcos se escolhe queimar
uma floresta inteira em vez de se usar uma churrasqueira —, por que a
experiência, a vivência e a sabedoria das estradas nunca prevaleceram?
O
desafio está além dos cálculos básicos de velocidade e tempo de viagem, de
rotas alternativas que continuam a significar uma malha congestionada por falta
de outras vias plenamente viáveis como soluções para o caos. É esta a raiz de
nossa dependência da manutenção de florestas que assam porcos, em vez de
produzirmos churrasqueiras. Não seria este o propósito da tecnologia? Servir ao
ser humano, e não o contrário? Usar a inteligência para o bem comum e para a
construção de uma sociedade menos assassina ou suicida. Aquele professor que
nunca sabe se voltará para casa ao enfrentar a selvageria do trânsito diário é
um, entre tantos curadores e curadoras do conhecimento humano, que não vale um
centésimo do valor de uma grande e moderna máquina diesel sobre rodas, para
esta “sociedade moderna” da automatização do homem a favor das máquinas.
Quando
aprenderemos a usar a tecnologia a nosso favor, para preservar a vida, para
economizar o nosso tempo e para nos livrarmos das imbecilidades de um sistema
que ganha com porcos assados, com o pior emprego das tecnologias? Quem de nós
não sabe que queimar florestas é manter um modelo errático de desenvolvimento
que só alimenta a ganância de poucos, ao custo de vidas humanas?
Há valor na vida neste mundo
Conheci
um minúsculo país deste mundo em que uma única criança de seis anos, ao
levantar a mão ao atravessar a faixa de pedestres, para imediatamente qualquer
movimento do trânsito. É a coisa mais linda e admirável de se ver em uma
cultura que coloca o futuro de um país em primeiro lugar. As máquinas que
esperem, muito embora a eficiência seja um lema neste lugar tão distante.
A
diferença está na forma de se pensar a sociedade e seu funcionamento diante da
mesma pressão de sobrevivência e competitividade. Um jeito inteligente que só é
conquistado com muito estudo e acúmulo de conhecimento; afinal, além do cálculo
baseado na simples cinemática, existe a formação humana.
Conclusão
A
nossa pressa diária nas estradas é apenas o sintoma visível de uma engrenagem
que aceita "queimar florestas inteiras para assar porcos",
desperdiçando existências em nome de uma eficiência cega e gananciosa. Superar
essa barbárie exige muito mais do que novas rodovias ou cálculos de velocidade;
exige a escolha consciente de desacelerar, valorizar o conhecimento e priorizar
a vida. Enquanto a lógica financeira ditar o ritmo de nossa jornada ao custo de
mortes prematuras, continuaremos subordinados ao valor das máquinas. É tempo de
escolhermos a formação humana, a cautela e a segurança, permitindo-nos parar
para que o futuro possa passar.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1.
Qual é o significado existencial que o autor atribui à "direção
automática" nas estradas e na vida?
A
"direção automática" ocorre quando a confiança excessiva supera o
cuidado e a atenção vigilante. Para o autor, esse comportamento simboliza o
perigo de vivermos anestesiados, estendendo-se para além do asfalto: expomo-nos
diariamente a riscos em um mundo competitivo, avançando sem refletir sobre os
perigos na próxima curva ou sobre o real motivo de termos tanta pressa.
2.
Como o autor contrapõe o valor de um educador ("curador do
conhecimento") ao valor das máquinas no sistema atual?
O
autor expõe uma triste inversão de valores na "sociedade moderna" da
automatização: a vida e a integridade de um professor — que enfrenta
diariamente a selvageria do trânsito para compartilhar o saber — são
consideradas pelo sistema como valendo menos de "um centésimo do valor
de uma grande e moderna máquina diesel sobre rodas". É a subordinação
do ser humano ao valor do capital físico.
3. De
que maneira as metas corporativas e a logística de transporte agridem a
dignidade humana nas estradas?
A
dignidade é agredida quando o sistema impõe aos caminhoneiros "cronogramas
apertados e metas desumanas de entrega". Isso gera uma corrida insana
e perigosa, forçando trabalhadores a se subordinarem a uma "eficiência
bestial" sob o risco de pagarem por seus atrasos ou pelo cumprimento de
prazos com a própria morte prematura.
4. O
que a física das colisões representa, no ensaio, para além de um simples
cálculo de movimento?
Além
da cinemática clássica (onde o menor é mais rápido e o mais pesado bate com
mais força), a lei da física nas estradas reflete um embate social violento e
desigual. Ela expõe o conflito direto entre quem busca apressadamente o destino
ou o lucro, resultando em tragédias coletivas que, somadas, superam as
estatísticas de muitas guerras históricas.
5.
Qual é a crítica central do autor à escolha histórica do modelo de transporte
rodoviário em detrimento do ferroviário?
O
autor critica a falta de coerência racional do sistema, que prefere saturar as
rodovias com caminhões carregando contêineres em vez de adotar uma linha
férrea com locomotivas modernas capazes de transportar centenas de
contêineres de forma muito mais segura e eficiente. Ele questiona a manutenção
desse modelo lento e letal em nome de uma ilusão de progresso.
6.
Como as condições climáticas e adversidades físicas revelam a fragilidade
humana e a necessidade de transcendência na estrada?
Neblinas,
chuvas intensas, ofuscamento solar e até problemas de saúde pessoais revelam
que a vida humana está sempre por um fio, bastando um único segundo de
distração para um fim trágico. Diante de imprevistos mecânicos e climáticos, o
autor reconhece a limitação do controle humano, expressando profunda gratidão
pelos "livramentos e pela Provisão Divina" que nos amparam na
fragilidade.
7. Que
papel o autor atribui à sabedoria prática e à bagagem dos "melhores
estradeiros"?
O
autor lamenta que a experiência, a vivência e a sabedoria acumuladas nas
estradas pelos motoristas veteranos pareçam desprezadas pela sociedade atual.
Esses saberes, focados na "preservação da vida e da boa
convivência", deveriam servir como guias para um trânsito mais humano,
mas acabam sufocados pelo ritmo frenético das entregas.
8.
Qual é o verdadeiro propósito da tecnologia segundo a filosofia humanista
expressa no texto?
O
propósito da tecnologia deve ser, fundamentalmente, "servir ao ser
humano, e não o contrário". A inteligência técnica deve ser
direcionada para o bem comum, poupando vidas, economizando tempo e construindo
uma sociedade menos violenta e autodestrutiva, em vez de ser usada para manter
um modelo errático que alimenta a ganância de poucos.
9. O
que diferencia o "minúsculo país" citado pelo autor da realidade de
trânsito que ele vivencia diariamente?
A
diferença reside na forma de conceber o funcionamento social: enquanto o
cotidiano do autor é marcado pela disputa selvagem e pelo perigo constante,
esse outro país possui uma cultura onde as máquinas esperam e o trânsito para
totalmente para uma criança de seis anos. Há ali uma verdadeira "formação
humana" obtida através do estudo e do conhecimento, que coloca a vida
e o futuro do país acima da pressa mecânica.
10.
Qual é a provocação ética que o ensaio faz em relação à nossa própria culpa no
sistema de pressa?
O
autor nos instiga a refletir se somos realmente culpados por nossos atrasos e
se fomos educados apenas para defender o ganho financeiro em detrimento da
vida. Ele questiona se a sobrevivência no mundo competitivo justifica a nossa
submissão cega a um desenvolvimento errático que sacrifica nossa própria
essência.
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vídeo AQUI
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