A vida não é um jogo de lucros
A velocidade da transcendência
Em minha jornada docente, costumo dizer aos
jovens que ninguém nasce sabendo e que precisamos nos libertar desta pressão
para dar respostas imediatas a tudo, ao invés de não admitirmos que não
sabemos. Não há nada mais brutal do que forçar um indivíduo a saber tudo.
Primeiro, porque isto é uma utopia; segundo, porque esta pressão é uma
insanidade imposta por um sistema de ilusões e de exploração do ser humano.
O desconhecimento não é algo para ser
criticado, mas o verdadeiro gatilho para motivar a vontade de aprender,
encontrar respostas e sair do mundo da ignorância; e não o contrário, motivo
para vergonha, estigmatizações e preconceitos. Para isso, estudamos e
vivenciamos experiências. Neste contexto, um mundo que menospreza a formação
humana e a troca pela formação utilitária é o responsável pelo encurtamento
precoce de vidas e de suas verdadeiras missões neste mundo, por meio de prazos
apertados e cronogramas planilhados, como se fôssemos máquinas.
Em tempos de valorização da velocidade, do
imediatismo e da pressa, não percebemos o quanto a questão do trabalho humano
tem seu valor e significado invertidos. Vive-se para trabalhar ou trabalha-se
para viver? Nosso objetivo é lucrar sempre ou superar obstáculos para nossa
sobrevivência e bem-estar plenos? Buscamos satisfazer necessidades de um
sistema voraz, ambicioso, cheio de vaidades e competição, ou extrair
aprendizagens transcendentais no tempo e no espaço?
Onde será que se encaixam as características
humanas da paciência, da aceitação, do contínuo sentimento de desamparo, da
nossa intuição e da criatividade? Seriam nossas preocupações atuais relevantes
daqui a 100 anos? Nossos projetos pessoais e profissionais se interligam por
causa de habilidades operacionais pontuais para um mercado ou para o exercício
de talentos e virtudes que nos conduzam ao autoconhecimento e ao desvelamento
de nossas missões e aprendizagens infinitas? Neste sentido, talvez ainda precisemos
de uma condição coletiva que abra os horizontes para a formação humana, e menos
utilitária, pelo trabalho.
O trabalho que desequilibra a realidade posta
Outra coisa que costumo trabalhar com
estudantes é que jamais devemos cuspir no prato que comemos. Isto porque é o
fruto de nosso trabalho que nos alimenta e que nos traz condições de
sobrevivência. Respeitar seu valor como algo maior do que um simples valor
monetário é reconhecer que advém de nossa energia vital, de nosso esforço
verdadeiro e de nossa capacidade de alterar resultados.
Portanto, ser ingrato pelo provisionamento
que nos é dado neste mundo (como cada oportunidade para saciar a fome,
proteger-nos das intempéries naturais e encontrar o suficiente para nossas
vidas) é um erro. Não é a quantidade de recursos obtidos que mais importa, mas
aquilo que nos supre suficientemente para exercermos nossa funcionalidade como
seres incluídos no mundo humano, com dignidade, de tal forma que mantenhamos
nossa integridade física e mental. É pelo trabalho que desenvolvemos virtudes
para contornar a imprevisibilidade que nos atinge a cada momento e nos torna
maleáveis diante de problemas e desafios.
A dignidade está no fato de sermos agentes
ativos neste processo, com autonomia para conduzirmos nossas escolhas em acordo
com os desafios e opções que a vida nos apresenta; mas, além disso, com o uso
consciente das leis naturais da causa e efeito e da compensação. Diante do
destino, nossas vidas estão atreladas ao que fazemos e como reagimos e, na
maior parte dos casos, temos mais motivos para agradecer do que para reclamar.
Aprendemos a lidar com os conflitos humanos,
como a desesperança e a esperança; convertemos fraquezas em forças;
compartilhamos sofrimentos e alegrias e, principalmente, prosseguimos em frente
rumo aos nossos destinos, com o melhor equilíbrio possível. O trabalho, em si,
não equilibra; mas, ao contrário, desequilibra receitas-padrão que não dão
certo para todo mundo.
O trabalho não como produto, mas como caminho
A exploração do ser humano por sua capacidade
de trabalhar, melhorar e automatizar ações para a realização de suas
intervenções junto aos elementos naturais é um processo ontológico que, hoje, tem
seu significado e valor travestido como um produto a ser vendido e não,
propriamente, como um caminho que todos nós precisamos trilhar. Neste sentido,
não nos identificamos mais com aquilo que produzimos, porque nosso trabalho não
reflete mais a relação entre executor e sua própria obra.
Neste ponto, ainda é a necessidade humana, em
todos os contextos, que gera as demandas do trabalho, e não o contrário. Ao
menos, esse é o princípio fundamental deste caminho: suprir nossas
necessidades. A questão da nossa transcendência existencial está no fato de que
usufruímos dos resultados do trabalho de gerações passadas. Esse legado contém,
em sua essência, a preocupação em garantir a cada nova geração condições de
vida plena, distanciando-se daquilo que valores e culturas passageiras demandam
como necessidades superficiais.
Esta reflexão nos leva ao encontro de uma
pergunta que não quer calar: nosso trabalho está voltado para as necessidades
humanas reais ou para satisfazer o acúmulo de posses e o jogo de poderes
envolvendo vantagens individuais? Será que uma vida plena condiz com este
simples objetivo? Será que este trabalho não inclui mais seu viés histórico e
social?
Por isso, a percepção do trabalho como um
fim, e não um meio, confunde toda a sociedade moderna em torno da produção pela
produção, dos números pelos números, do lucro pelo lucro, sem considerar os
efeitos que este alinhamento de mentalidade provoca. Essa visão empobrece a
existência e a nossa passagem por este mundo, em vez de enriquecer a
experiência e a vivência da semeadura da verdadeira qualidade de vida, do
presente para o futuro.
Sem apologias
Na intenção de discutir o fim educativo do
trabalho, talvez este ensaio pretenda traduzir aquela antiga frase: “o trabalho
dignifica o homem” (ou ser humano). Ele não visa o ponto de vista produtivista,
que alia o trabalho a uma ferramenta de exploração de interesses momentâneos.
Pelo contrário, vê a atividade como um caminho dado para nos realizarmos e nos
encontrarmos como seres existentes, cada qual com um fluxo próprio na vida e
com o poder de transformar a energia vital em realidade concreta. Esse é um ato
que nos permite transmutar elementos e fortalecer nossas mentes pela interação
com as leis naturais (causa e efeito), a partir da relação entre necessidade e
realização. O objetivo, portanto, não é aparentar, acumular ou competir, mas
existir plenamente, de forma a contribuir para a continuidade da formidável
experiência de viver a vida.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1. Qual é a principal crítica do autor em
relação à pressão pelo conhecimento imediato?
O autor afirma que forçar um indivíduo a
saber tudo é uma "utopia" e uma "insanidade" imposta por um
sistema de ilusões e exploração. Ele defende que precisamos nos libertar da
pressão por respostas imediatas e admitir o que não sabemos.
2. Como o desconhecimento deve ser encarado,
segundo o texto?
O desconhecimento não deve ser motivo de
vergonha ou preconceito, mas sim o "gatilho" para motivar a vontade
de aprender e buscar respostas, saindo do estado de ignorância por meio de
experiências e estudos.
3. Qual a diferença entre "formação
humana" e "formação utilitária"?
A formação utilitária trata os seres humanos
como máquinas, focando em prazos apertados e cronogramas que encurtam a
percepção da nossa verdadeira missão no mundo. Já a formação humana valoriza o
tempo necessário para o aprendizado e a realização da missão individual.
4. Por que o autor afirma que o trabalho é
mais do que um valor monetário?
Porque o fruto do trabalho advém da nossa energia
vital, do esforço verdadeiro e da nossa capacidade de alterar a realidade e
obter resultados concretos. Respeitar o trabalho é reconhecer esse investimento
pessoal de vida.
5. O que define a dignidade do trabalhador
nesse processo?
A dignidade reside em sermos agentes ativos,
possuindo autonomia para fazer escolhas diante dos desafios e utilizando
conscientemente as leis naturais de causa, efeito e compensação.
6. O que significa dizer que o trabalho é um
"processo ontológico"?
Significa que o trabalho é uma parte
intrínseca do ser (ontologia) e da sua interação com os elementos naturais. O
autor critica o fato de esse processo ter sido transformado em um
"produto" a ser vendido, o que faz com que o trabalhador não se
identifique mais com sua própria obra.
7. Qual é o papel das gerações passadas na
nossa relação com o trabalho?
Nós usufruímos do legado e dos resultados do
trabalho de quem veio antes de nós. Esse legado deve ter como essência a
garantia de condições de vida plena para as novas gerações, focando em
necessidades reais e não apenas em desejos superficiais e passageiros.
8. Quais são os riscos da visão de
"produção pela produção" e "lucro pelo lucro"?
Essa mentalidade confunde a sociedade,
fazendo com que o trabalho seja visto como um fim em si mesmo, e não como um
meio para a vida. Isso acaba por empobrecer a existência humana, em vez de
enriquecer a experiência e a qualidade de vida.
9. Como o autor reinterpreta a frase "o
trabalho dignifica o homem"?
Ele a retira do contexto produtivista e de
exploração, traduzindo-a como um caminho de realização. Para ele, o trabalho
permite transformar energia vital em realidade e fortalecer a mente pela
interação com as leis da natureza.
10. Qual é o objetivo final do trabalho,
segundo a visão humanista do Professor Marcio Ueda?
O objetivo não é aparentar, acumular bens ou
competir com os outros, mas sim existir plenamente e contribuir para a
continuidade da experiência de viver a vida de forma significativa.
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