Pergunte à IA
O infinito agora
Certa
vez, ao participar de uma banca avaliadora de estágio curricular, surgiu um
trabalho feito por encomenda. A apresentação não foi ruim, pois havia lógica,
sequência e até uma certa discussão sobre o objeto de estudo. O que o sujeito
não sabia era que sua capacidade cognitiva não seria avaliada apenas pela
memória, mas, sim, pela experiência vivenciada, pelos problemas encontrados,
pelas situações imprevistas que tornam qualquer interação com o meio ambiente
única para cada estação, para cada ano agrícola, para cada cultivar testada.
Uma
única pergunta, respondida por obrigação, sendo afirmativa ou negativa, por si
só, já denunciava a falta efetiva do sujeito na prática real, na lida diária e
nas nuances da atividade. Por isto, sempre encarei o estágio supervisionado
como uma das etapas mais importantes do processo formativo profissional, pois,
além de exigir a associação de conhecimentos aprendidos, o sujeito precisava ir
além – sentir o conhecimento no movimento teórico-prático e vice-versa. Há
questionamentos que não possuem respostas exatas, pois precisam de
contextualização, de particularidades e de uma interpretação pessoal do
sujeito. Disso extraímos a bagagem adquirida e também surgem novos
questionamentos do próprio profissional, com sua crítica e sua subjetividade
única.
Assim,
aquela época foi marcada por momentos de superação, de real interação
professor-aluno, de profunda autoavaliação e autoconhecimento de ambas as
partes, em cada momento único e repleto de variáveis que ultrapassavam os
critérios numéricos de avaliação.
Pergunte à IA
Isto
me lembra o quanto, hoje, é muito mais fácil tentar burlar uma banca avaliadora
com as novas ferramentas de IA (Inteligência Artificial) e, muito mais que as
antigas fraudes do 'copia e cola', podemos ter trabalhos magníficos e
apresentações impecáveis. Coloquemos isso para uma IA avaliar e, mecanicamente,
com um 'sim' ou um 'não', o trabalho será avaliado. Mas, neste ensaio, o ponto
central não é discutir sobre quem engana quem, mas a confusão que se faz entre
certificação gratuita e acúmulo de títulos vazios, e a verdadeira experiência
da aprendizagem acadêmica.
A
trajetória de alguém que estuda é uma vida de dedicação, de compromisso com o
próprio desenvolvimento, com a superação de limitações pessoais, com a
adaptação aos meios escolares, desde a infância até a fase adulta. Atualmente,
a alteração de valores geracionais — que mantiveram a constância, a paciência,
a diligência e o esforço despendido em meio a sacrifícios, a momentos de dor,
de fraqueza, de altos e baixos familiares e condições econômicas — sofre com a
avalanche de superficialidades e distrações, totalmente contrária ao real
direcionamento do pensamento elevado.
Que
texto produziremos hoje, em nossas histórias pessoais? Conseguimos imaginar
como uma IA responderia a esta pergunta? Como a IA responderia ao que vamos
querer comer amanhã, se não trabalharmos no hoje, no agora? Perguntemos se
seria ético alguém se sustentar às custas do trabalho alheio, sem qualquer
remorso, e teremos uma resposta que nada explicaria a indignação, a repulsa e o
sentimento de desrespeito que qualquer um de nós sente quando alguém tenta
levar vantagem em um ambiente coletivo.
Para
nós, seres humanos, é a consequência que importa: os desdobramentos de nossos
comportamentos — seja para sermos honestos ou não — e as marcas pessoais,
positivas ou negativas, que carregaremos de acordo com as leis naturais do
retorno e da compensação.
A IA nos acomoda no conhecido
Esta
brincadeira de conversar com uma IA e verificar suas respostas psicopatas, sem
qualquer compromisso com nossa condição existencial, é, tragicamente,
confortável para quem já perdeu contato interpessoal real com outros seres
humanos. A solidão, que deveria retroalimentar nosso autoconhecimento pela
reflexão, se tornou, de fato, isolamento das pessoas no meio de uma multidão.
Ficar
no passado, voltando à questão do presente infinito, nos impede de
interceptarmos novos elementos de nossa existência, novas interpretações, novas
opções e formas de escrever nossas histórias pessoais. Será que há saída para
isto ou estamos condenados a repetir o que já foi vivido — a sermos treinados
como macacos para repetir o velho, o que o sistema de automatização quer de
nós? O que precisamos saber ou aprender para fazer algo que nem uma IA pode
adivinhar?
Perceba
este texto, neste exato momento, e perceberá que cada palavra não segue uma
métrica estabelecida. Sua origem vem de um processo de interpretação pessoal
deste autor que vos fala — do fio condutor que surgiu quando ele voltava hoje,
depois de um dia de trabalho, de frente para um lindo horizonte de final de
tarde, que apresentava um tom laranja magnético, intenso, quente —, o qual
trouxe lembranças que delinearam esta narrativa sobre o quanto somos
imprevisíveis; o quanto podemos, com nossa vontade, intencionar deixar uma
mensagem de esperança, e não o contrário.
Divagação
pura? Ou seria liberdade criativa pura? Bem-estar em se sentir aberto e com
coragem para expor um pouco de si para aqueles com quem nos importamos? Para
quem pode estar precisando de uma conversa à toa, sem segundas intenções? Um
momento para descansar a mente, sorrir e sentir um pouco daquela luz laranja
penetrar a escuridão de nossas tristezas passageiras, dores ou sofrimentos.
Não queremos ser cópias
Percebo
que nossos jovens, hoje, não toleram ser despersonalizados, ser vistos como sem
graça, sem tempero aos exigentes olhos dos modismos, das '10 mais' formas de
serem bem aceitos e irretocáveis para suas bolhas específicas. O importante é:
se forem destoar de algo, que seja para se diferenciarem de outras bolhas e,
assim, a visibilidade está garantida.
A
questão é que, se não trilharmos nossos próprios caminhos, tudo o que já foi
produzido em excesso — pela máquina do produtivismo e do consumismo, no sistema
de acúmulo material sem fim —, poderemos, sim, viver de novo momentos de enorme
desamparo humano, só para relembrar o mundo do pós-guerra do século passado.
Ser
uma cópia do passado significa repetir padrões de pensamento, seguir lógicas e
padrões — inclusive padrões ultrapassados — sobre nossa inteligência. Se
reduzirmos nossa capacidade cognitiva confiando em uma IA — que nem 'pensar'
consegue sem ter uma mente humana por trás —, confiando no passado sem enxergar
o que acontece no agora (algo que, sabemos, influi no futuro, cuja maior
qualidade é a falta de respostas), como conseguiremos aprender a fazer o fogo
interno de nossa existência se manter diante de uma improvável, mas possível,
grande calamidade humana? Deixemos isto para a IA responder!
Conclusão
No fim
das contas, a inteligência artificial pode imitar a nossa lógica e compor
apresentações impecáveis, mas ela jamais sentirá o calor daquele horizonte
laranja de fim de tarde ou compreenderá a nossa capacidade humana de recomeçar
em meio às incertezas do agora. Manter o fogo de nossa existência ativo é um
ato de insubordinação contra o automatismo. É a nossa escolha de sermos
imprevisíveis, imperfeitos e, acima de tudo, profundamente humanos que nos
impede de virarmos meras cópias do passado. Puxar a cadeira, desacelerar e
escrever a própria história é o que nenhuma máquina poderá prever ou nos tirar.
10 Perguntas e Respostas Esclarecedoras
1. O
que motivou o autor a escrever este ensaio?
O
autor inspirou-se ao voltar para casa após um dia de trabalho, contemplando um
lindo horizonte de fim de tarde com um tom laranja magnético, intenso e quente.
Esse momento despertou reflexões sobre a imprevisibilidade humana e a
importância de transmitir mensagens de esperança.
2.
Qual foi o problema identificado pelo autor na banca avaliadora de estágio que
ele presenciou?
Ele
percebeu que o trabalho apresentado havia sido feito por encomenda. Embora a
apresentação tivesse lógica e sequência, faltava ao estudante a experiência
real vivida na lida diária, nos imprevistos e nas nuances práticas da
atividade.
3.
Como o autor define a verdadeira importância do estágio supervisionado?
Como
uma das etapas mais importantes do processo formativo. Para ele, o estágio
exige que o estudante sinta o conhecimento no movimento teórico-prático e lide
com questões que não têm respostas exatas, demandando contextualização e
interpretação pessoal.
4.
Qual é o risco de usar a inteligência artificial para "burlar"
avaliações acadêmicas?
O
grande risco é confundir a mera obtenção de uma certificação gratuita ou o
acúmulo de títulos vazios com a verdadeira experiência da aprendizagem
acadêmica e do desenvolvimento pessoal.
5.
Como a inteligência artificial avalia um trabalho, segundo o texto?
A IA
avalia de maneira puramente mecânica, limitando-se a respostas fechadas como um
"sim" ou um "não".
6. O
que o autor quer dizer quando afirma que "a IA nos acomoda no
conhecido"?
Significa
que interagir excessivamente com as ferramentas de IA nos mantém presos ao
passado e ao que já foi vivido. Isso nos impede de interceptar novos elementos
da existência e de experimentar novas formas de escrever nossas próprias
histórias.
7. De
que maneira a solidão foi transformada na era digital?
A
solidão, que originalmente deveria servir para retroalimentar nosso
autoconhecimento por meio da reflexão pessoal, acabou se tornando um isolamento
real das pessoas no meio de uma multidão.
8.
Como os jovens de hoje lidam com as pressões sociais e os modismos?
Os
jovens não toleram ser despersonalizados ou vistos como "sem graça"
perante os modismos e bolhas específicas. Por isso, buscam se diferenciar das
outras bolhas para garantir visibilidade.
9.
Qual é o perigo de sermos uma "cópia do passado" e reduzir nossa
capacidade cognitiva?
Ao
confiar excessivamente em uma máquina que não pensa por si só, deixamos de
enxergar o presente e de aprender a manter aceso o fogo interno de nossa
existência, ficando desarmados diante de possíveis crises ou calamidades
humanas.
10. O
que a inteligência artificial é incapaz de simular na experiência humana?
A IA é
incapaz de sentir sentimentos reais como a indignação, o remorso e a repulsa
diante de injustiças coletivas. Ela também não possui a nossa liberdade
criativa ou a capacidade de oferecer uma conversa acolhedora e sem segundas
intenções.
Para
visualizar essa reflexão de forma mais imersiva, convido você a assistir ao
vídeo AQUI
Se
esta conversa despretensiosa fez sentido para você e se você também busca um
refúgio contra a pressa artificial do mundo moderno, escrevi a 'Jornada da
Escrita' justamente para que continuemos de mãos dadas nessa caminhada. convido
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