A sensação de um destino
Acumular para perder
Por mais paradoxal que possa parecer, a sensação de que aprendemos a gostar da vida para depois saber perdê-la, é uma ideia
mais lógica do que costumamos admitir. Vivemos algumas experiências que nos preenchem
em diferentes fases da vida e que, sejam boas ou ruins, acumulam-se em memórias
pelas quais nos apegamos, para construirmos nossas histórias pessoais, nossas trajetórias
ou nos guiar para o futuro.
Essa ideia de perda ao final de nossas vidas
pode ser considerada uma devolução ao Criador de Tudo ou que, na verdade,
nunca possuímos nada, de fato! É algo que ultrapassa o conceito da propriedade,
criado pelo ser humano, que sustenta a vida material. Mas a ilusão da
propriedade serve a um objetivo, nascido com cada um de nós, que é lutar contra
o desamparo, algo que nos ancora na vida material.
Nosso desamparo começa com a condição de subsistência,
que nos leva a desenvolver a consciência, o autoconhecimento e a aprendizagem
para sobrevivermos neste mundo. Assim, sobreviver é o primeiro incentivo da
vida, que nos impulsiona a desenvolver nossa capacidade cognitiva e engajamento
interpessoal. Eis um componente que tem um caráter unificador de nossa existência
que se traduz em uma experiência de convivência com outros seres humanos.
Mas, se tudo se perderá, qual o propósito de
nossa existência temporária nesta vida? Para quê serve a jornada de cada um de
nós sobre esta terra? Aprender a lidar com a perda ao longo da vida não seria
uma regressão à condição de desamparo original? Todo amparo, conquistado ao
longo de uma vida, pelo compartilhamento de saberes e sentimentos está fadado a
não servir para nada, ao fim?
Ao compreendermos que não nos sustentamos
sozinhos, o conceito de auto apoio humano deixa de ser uma ideia abstrata e se
manifesta como um fluxo de unificação existencial, onde a sabedoria acumulada
pelas perdas nos capacita a oferecer uma contribuição efetiva ao mundo. Essa
relação de interdependência é o que permite que a humanidade supere o
isolamento de suas "bolhas" individuais e transforme o sofrimento em
uma base sólida de convivência.
O auto apoio humano
Embora, nosso convívio social seja parte da existência
neste mundo, onde cada um é cada um em sua bolha, temos também uma jornada
solitária a cumprir! Não à toa, sentimos uma conexão superior, um mistério no
viver que não se expressa por palavras pois, provavelmente, a vida em si se deve a
um Autor, um Criador de tudo, que está acima das simples construções humanas. O
auto apoio humano é um fluxo de unificação existencial entre todos nós, que nos
imprime a necessidade de nos ajudarmos mutuamente!
Partindo deste pressuposto, ainda que
tenhamos a consciência sobre este mecanismo de auto apoio, necessário para
nossa sustentação e sobrevivência, muitas pessoas abdicam de seus talentos e
sensibilidades únicas e protelam sua participação efetiva e sua contribuição
para o mundo. Muitas vezes, a abdicação
dos talentos únicos ocorre devido ao apego à ilusão da propriedade, uma
tentativa de lutar contra o desamparo ancorando-se exclusivamente no que é
material.
No entanto, a consciência de que nada nos
pertence de fato não deve levar ao abandono da vida concreta, mas sim à
urgência de entregar nossas sensibilidades ao mundo enquanto há tempo. Superar
a procrastinação é reconhecer que o "sentido das coisas" é uma
ferramenta útil para a vida, mas o propósito maior reside naquilo que deixamos
fluir através de nós.
É a plena consciência de que não nos
sustentamos sozinhos neste mundo, que nos leva a empreender esforços e dedicação
em uma relação de interdependência, como condição de existência, acima de
vontades e de decisões individuais. Um exemplo de compartilhamento humano é
justamente a sabedoria que nos amadurece pelo desamparo e pelas perdas
apresentadas pela vida.
Sentido da perda
Faz parte de nossas relações interpessoais, a
consideração para com o próximo! Entretanto, precisamos superar o egoísmo, a
preguiça, e a covardia em todas as instâncias da vida. A compreensão das
mazelas do mundo, causadas pelo rompimento do bem comum, é um caminho para a
resiliência, pois por melhor que façamos, o desamparo bate às nossas portas,
seja pelos nossos enganos, erros e defeitos como também pelas surpresas do
destino, que nos ensinam que o mundo jamais será um eterno jardim de flores.
Ao navegarmos rumo ao oceano profundo de nossas
deficiências e nossa incompletude, recaímos na conclusão de que tudo é
transitório! Percebemos que a fé e a esperança são
continuamente testadas pela transitoriedade de tudo o que é dito como absoluto. Aceitar
que o sentido das perdas pode não ser compreendido pela lógica terrena nos
liberta da ansiedade do controle, permitindo que a vida simplesmente exista em
sua plenitude.
A vida em si já é um exercício de perdas
constantes a exemplo de nossas antigas certezas, nossas antigas bases de autoestima
que nos deixam na mão diante do imprevisto e do mistério da vida. Porém, pela lógica desta
reflexão, o sentido das coisas é somente uma ferramenta útil para a vida terrena e por
isso nos apegamos a ele. Talvez não haja sentido humano nas perdas, por mais que tentemos encontrar um, mas esta compreensão depende de nossa aceitação das coisas que nunca vamos ter
o controle!
O que ganhamos com as perdas
Já mencionamos que a contradição de nossa
existência é perder tudo o que possuímos nesta vida, no fim! Mas a perda
relacionada a uma experiência de amadurecimento não é uma perda, mas sim um
ganho! Quando perdemos a prepotência em relação aos nossos egos construídos
dentro de nossas bolhas, ganhamos em humildade e simplicidade. Esse desapego
das construções mentais limitadas renova nossa energia, permitindo-nos
enfrentar as surpresas do destino com resiliência, transformando o
"fracasso mundano" em um trampolim para o amadurecimento real.
A perspectiva da perda, no sentido
metafísico, é mais positiva do que negativa. Saber lidar com esses dois polos
necessariamente passa pela conquista, pela posse e pelas realizações materiais.
Mas precisamos também saber que acima da sobrevivência e da sustentação de
nossas vidas está o propósito de termos sido colocados neste mundo.
Assim, não devemos menosprezar a vida
material, pois seu contraponto é o desenvolvimento espiritual. Um lado depende
do outro e assim a vida flui. As conquistas e posses mundanas funcionam como um
estágio preparatório, oferecendo a sustentação necessária para que possamos,
gradualmente, aspirar a uma sustentação maior em nível espiritual. A jornada
terrena, com suas metas e realizações, é o terreno onde exercitamos as
habilidades que serão testadas pelo mistério e pela transitoriedade da
existência.
Conclusão
Em conclusão, a jornada terrena atua como um estágio
preparatório essencial, onde a transitoriedade não é uma falha, mas a
ferramenta que lapida o amadurecimento real. Ao transformarmos o desamparo em interdependência
e as perdas em humildade e simplicidade, superamos a ilusão da propriedade para
cumprir o propósito de entregar nossas sensibilidades únicas ao mundo enquanto
há tempo. Assim, ao aceitarmos o mistério e a falta de controle, integramos o
material e o espiritual em um fluxo de existência mais significativo, convertendo o
"fracasso mundano" em um trampolim para uma sustentação espiritual
superior.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1. Qual é o paradoxo fundamental da vida em
relação à posse e à perda?
O paradoxo reside no fato de que aprendemos
a gostar da vida para depois saber perdê-la. Acumulamos memórias e
experiências para construir nossa história, mas, ao fim, a morte representa uma
"devolução" de tudo, revelando que nunca possuímos nada de fato,
sendo a propriedade apenas uma ilusão humana para ancorar a vida material.
2. Qual é a função da "ilusão da
propriedade" para o ser humano?
A ideia de propriedade serve a um objetivo
vital: lutar contra o desamparo original. Essa ilusão nos dá a
sustentação necessária para a vida material, servindo como uma âncora que nos
permite desenvolver a consciência e a aprendizagem para sobrevivermos no mundo.
3. O que é o "auto apoio humano"
mencionado nas fontes?
O auto apoio humano é definido como um
fluxo de unificação existencial que nos impele à ajuda mútua. Ele nasce
da compreensão de que não nos sustentamos sozinhos e transforma a sabedoria
acumulada pelas perdas em uma capacidade de oferecer uma contribuição
efetiva ao mundo.
4. Por que muitas pessoas deixam de exercer
seus talentos e sensibilidades únicas? Muitas pessoas abdicam de seus talentos devido ao apego à ilusão da
propriedade. Ao tentarem lutar contra o desamparo ancorando-se
exclusivamente no que é material, elas acabam por protelar sua participação
e contribuição para a humanidade.
5. Como a consciência da transitoriedade deve
influenciar nossa ação no mundo? Saber que nada nos pertence não deve levar ao abandono da vida, mas
gerar uma urgência de entregar nossas sensibilidades ao mundo enquanto há
tempo. Superar a procrastinação significa entender que, embora o
"sentido das coisas" seja útil, o propósito maior é o que deixamos
fluir através de nós.
6. Quais obstáculos internos precisam ser
superados para o amadurecimento?
É necessário superar o egoísmo, a preguiça
e a covardia em todas as instâncias da vida. A compreensão das mazelas do
mundo e a aceitação de que o destino traz surpresas e enganos são caminhos
fundamentais para desenvolver a resiliência.
7. Qual é o benefício psicológico de aceitar que não temos o controle sobre tudo?
Aceitar que o sentido das perdas muitas vezes foge à lógica terrena nos
liberta da ansiedade do controle. Essa aceitação permite que a vida
simplesmente exista em sua plenitude, mesmo diante do imprevisto e do
mistério que testam nossa fé e esperança.
8. O que exatamente "ganhamos"
quando passamos por uma perda que gera amadurecimento?
Nesse contexto, a perda não é um prejuízo,
mas um ganho de humildade e simplicidade. Ao perdermos a prepotência dos
nossos egos e abandonarmos construções mentais limitadas, renovamos nossa
energia e transformamos fracassos em trampolins para o amadurecimento real.
9. Existe uma hierarquia entre a vida
material e a espiritual nas fontes?
A fonte sugere que ambas são contrapontos
interdependentes. A vida material não deve ser menosprezada, pois serve
como um estágio preparatório que oferece a sustentação necessária para
que possamos aspirar a uma sustentação maior em nível espiritual.
10. Qual é a finalidade da "jornada
terrena" segundo os textos?
A jornada terrena é vista como o terreno
onde exercitamos habilidades que serão testadas pelo mistério e pela
transitoriedade. O propósito de estarmos no mundo vai além da sobrevivência;
trata-se de vivenciar as realizações materiais como um passo para o desenvolvimento
espiritual superior.

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