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LIMITES: a dolorosa aceitação de nossas limitações

 

LIMITES

A limitação ensina

 

O embate das vontades

Quem se lembra da infância? Quando uma criança passa pela seção de brinquedos de alguma loja, mais passa vontade do que realiza seus desejos. Aquela diversidade de opções e novidades a faz querer levar tudo para casa! Esta exemplificação é apenas um caso leve, dentre as infinitas circunstâncias em que o mundo material se apresenta para cada ser humano, sem contar com as mazelas que este mesmo mundo, nada amistoso, também oferece!

A questão é que de geração em geração, pais e cuidadores também são responsáveis por colocar limites às crianças, em relação ao querer e às vontades delas, estabelecendo controles que criam um senso inicial entre o "ser" e o "ter". A partir daí, a criança começa a entender que ter tudo o que quer não é possível e que isto também é uma utopia.

Assim, desde criança, crescemos e desenvolvemos um senso sobre o “ser” e o “ter”, alimentando o consciente e o subconsciente, que dá origem às nossas fraquezas ou fortalezas, sob a égide de nossas escolhas na vida. O problema é quando aquela criança escolhe se fechar para os limites colocados e desenvolve uma crença de que tudo é para si e que ninguém mais importa, além dela mesma.

Por outro lado, também é um problema quando a criança se convence, desde cedo, que nada é para ela e que ela não merece ter nada neste mundo. Sobretudo, quando aprende a não buscar atender suas necessidades básicas, sonhos e desejos mais íntimos e nem valorizar o que já possui, desde que veio ao mundo, com seu próprio ser e essência.

 

Fraquezas

Quem nunca assistiu ao show de horrores quando uma criança faz birra, esperneia, grita e chora porque teve seus desejos controlados por alguém ou foi obrigada a voltar para casa sem aquilo que queria. É uma situação vexatória, mais comum do que pensamos e, ao assistirmos cenas desta natureza, sentimos que é um momento de aprendizagem para a criança e um desafio para o adulto ou responsável pela criança.

Podemos imaginar as consequências para um futuro adulto que sempre conseguiu tudo na base do grito e da chantagem emocional, quando criança, daquele que surge quando precisou controlar a vontade, compreender o significado da negação de algo que desejou mas não teve.

Quantos de nós, adultos, somos capazes de negar algo a uma criança mesmo que ela se esborrache no chão, pule e grite? E as pessoas olhando? E as aparências que nos pressionam diante das máscaras do ter e da posse que o mundo materialista tanto valoriza?

Portanto, as fraquezas quanto ao senso de posse começam com a permissividade de uma pessoa que, mesmo por amor, comete o erro de ceder aos caprichos infantis e imaturos de uma criança! O excesso de "ter" (permissividade) abafa o "ser" (essência), gerando uma perigosa ilusão de autossuficiência, a qual não apenas isola o indivíduo, mas o torna frágil, pois, ao não reconhecer suas limitações, ele perde a capacidade de lidar com imprevistos inevitáveis da vida material.

Não cabe aqui discutir os porquês desta falha ocorrer, pois não se trata de avaliar quem erra nisto, mas compreender um conjunto de mortificações que afloram nestas ocasiões, desde medos de rejeição, culpa na consciência, auto reprovação e insegurança sobre o que é certo ou errado para o momento. Porém, sabemos que a birra infantil é o estágio embrionário da intransigência adulta.

 

Fortalezas

Desta forma, o "não" dado à criança é o alicerce da sanidade do adulto. Ninguém pode ter tudo o que quer para si, primeiro porque isto não teria fim e segundo porque o mundo teria que girar em torno de uma só pessoa para atender esta insanidade. Quando percebemos limites externos ou internos, adquirimos uma percepção do que é possível ou não, no tempo e espaço. Para isto, ser forte não significa atingir um nível de liberdade total, em que nada nos impeça de fazer o que queremos.

Controlar vontades se refere àquela fortaleza pessoal sustentável, sem excessos prejudiciais à nossa saúde, bem-estar e sanidade mental. É o nível que nos permite ter empatia para com os limites das outras pessoas, que nos capacita a intervir de forma concreta e palpável sobre a realidade e em nossas relações interpessoais. Assim, por exemplo, podemos consolar alguém que teve uma grande perda na vida, embora não possamos recuperar o que foi perdido.

A vida nos permite ter lacunas, necessidades e limitações para que possamos vivenciar uma interconexão humana, cuja base é a superação ou a convivência com aquilo que nos falta materialmente e espiritualmente, pois é esta negativa da vida que nos permite fazer parte da humanidade.

Aquilo que nos falta é o que nos torna sociáveis, pois quem acredita ter tudo ignora a necessidade do outro e da Provisão Divina. A dependência mútua não é uma fraqueza, mas a base da comunidade humana, opondo-se à insanidade de alguém querer que o mundo gire em torno de si.

A ilusão de que poderíamos ter tudo e que não precisaríamos de ninguém, no limite, nos daria a liberdade de escolha de viver para sempre, como se fôssemos donos de nossa existência. Nossa finitude é algo que, queiramos ou não, precisamos integrar à nossa existência.

 

A dor da vida

Neste sentido, com nossa finitude à vista em última instância, nossa vontade e os nossos desejos se transformam em um tipo de aceitação tácita de que, mesmo que um dia possuamos muitas coisas mundanas, um dia perderemos tudo.  É este o final que uma criança não entenderá, mas que qualquer pessoa, minimamente experimentada, acabará se dando conta.

Nesta vida nos equilibramos para aliviar nossas dores momentâneas e para nos fortalecermos para novos ciclos de superação e convivência, cada qual com níveis diferentes de exigências existenciais. O tempo e o espaço, combinados com nosso destino indecifrável, nos ensinam que a aceitação de limites na infância prepara o indivíduo para o fluxo natural do desenvolvimento existencial na vida adulta, o qual compõe as dores do amadurecimento".

Traduzindo tudo isto, significa que ao encararmos de frente as negativas da vida, estamos seguindo um fluxo natural de desenvolvimento existencial. Não adianta agirmos como uma criança birrenta e nos debatermos contra o destino, pois não podemos controlar tudo neste mundo. Por isto não precisamos aumentar as dores normais da vida com nossa intransigência, pois cada dia terá seus males e problemas, queiramos ou não.

 

Conclusão

Se aceitamos que não controlamos tudo e que as negativas da vida nos servem como ferramentas para nosso crescimento e que, justamente por isto, dependemos de uma relação superior com a Divindade do Criador de todas as coisas, podemos compreender que embora a aceitação das limitações seja "dolorosa", ela é o único caminho para uma liberdade real — não a liberdade de fazer tudo, mas a de intervir de forma concreta e palpável na realidade.

Podemos também interpretar que na vida adulta precisamos ser fortes o suficiente para controlar as próprias vontades e desejos egoísticos e, ao mesmo tempo, sermos suficientemente responsáveis e capazes de construir uma base mais sólida para as novas gerações enfrentarem as pressões sociais e as "máscaras do ter" do mundo materialista, para se tornarem indivíduos mais saudáveis.

A liberdade de intervir na realidade é diferente da liberdade ilusória do consumo, que apenas reage a desejos imediatos. A liberdade verdadeira é alcançada quando o adulto domina seus desejos egoísticos para servir de base sólida aos que virão no futuro. Ao dominar os desejos egoísticos, o adulto não apenas se torna mais saudável, mas cria um modelo de realidade para os jovens, ensinando-os que a felicidade não está na ausência de limites, mas na superação consciente deles.


PERGUNTAS E RESPOSTAS

1. Qual é o papel fundamental dos pais e cuidadores na infância em relação aos desejos da criança?

Os pais são responsáveis por estabelecer limites que criam um senso inicial entre o "ser" e o "ter", ajudando a criança a entender que possuir tudo o que deseja é impossível e uma utopia.

2. Quais são os dois problemas extremos que podem surgir do desenvolvimento do senso de posse na infância?

O primeiro é a criança desenvolver uma crença egocêntrica de que tudo é para si e ninguém mais importa. O segundo é a criança convencer-se de que nada é para ela ou que não merece ter nada, negligenciando seus próprios sonhos e essência.

3. Por que a permissividade dos adultos é considerada um erro pedagógico grave? Porque o excesso de "ter" gerado pela permissividade abafa o "ser", criando uma perigosa ilusão de autossuficiência. Isso torna o indivíduo frágil e incapaz de lidar com imprevistos inevitáveis da vida.

4. Como o texto relaciona a birra infantil com o comportamento adulto?

O texto descreve a birra infantil como o estágio embrionário da intransigência adulta. Adultos que não aprenderam a controlar a vontade na infância podem carregar consequências como o uso de gritos e chantagem emocional para obter o que desejam.

5. O que constitui o alicerce da sanidade mental na vida adulta, segundo a fonte?

O alicerce da sanidade do adulto é o "não" recebido na infância. Esse limite ensina a controlar vontades, o que é essencial para o bem-estar e para a capacidade de ter empatia com os limites alheios.

6. Qual é a função social e humana das nossas lacunas e limitações?

As limitações permitem a interconexão humana. É justamente "o que nos falta" que nos torna seres sociáveis, pois nos obriga a reconhecer a necessidade do outro e da Provisão Divina, opondo-se ao isolamento da autossuficiência.

7. Como o texto define a verdadeira "fortaleza pessoal"?

Ser forte não significa ter liberdade total para fazer tudo o que se quer, mas possuir o controle das próprias vontades de forma sustentável, permitindo intervenções concretas na realidade e nas relações interpessoais.

8. Qual a importância de aceitar a finitude humana?

A finitude é uma realidade que precisa ser integrada à existência, pois nos faz compreender que, embora possamos ter bens mundanos, um dia perderemos tudo. Essa aceitação acalma a "birra" contra o destino e evita o aumento das dores normais da vida através da intransigência.

9. Qual a diferença entre a liberdade real e a liberdade ilusória do consumo?

A liberdade ilusória do consumo é meramente reativa a desejos imediatos. Já a liberdade real é a capacidade de dominar desejos egoísticos para intervir de forma palpável e construtiva na realidade.

10. Como os adultos podem servir de modelo para as novas gerações frente ao materialismo?

Ao dominar seus próprios desejos egoísticos, o adulto torna-se um modelo de realidade para os jovens. Ele ensina que a felicidade não reside na ausência de limites, mas na superação consciente deles, preparando-os para enfrentar as pressões sociais do mundo materialista.


Veja mais

Assista a um vídeo anime explicativo deste texto, dentre outros, clicando AQUI


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