As dores da negação
No silêncio da exclusão
A dor da exclusão ou da rejeição nunca foi e
nunca será fácil. Somente pessoas que já viveram algum tipo de rejeição — como,
por exemplo, serem discriminadas pela aparência, pelas posses, pela descendência
ou pela ignorância em algum assunto, não importa o motivo —, sofreram um sentimento de dúvida momentâneos e até vergonha, até perceberem
que o que sentiram na pele foi o fato de que nunca foram bem-vindas ou aceitas,
por serem o que são.
Nossa personalidade, nossos trejeitos, nossos
pensamentos e nossos hábitos são continuamente julgados pela opinião externa e,
a depender do ambiente de convívio, isso nos leva mais para o baixo astral do
que para a elevação do pensamento. Isso é mais comum do que gostamos de admitir.
Muitos de nós, transferimos nossa própria insegurança e medo do não
pertencimento, colocando em outras pessoas aquilo que nós mesmos não
encontramos em nós, para sermos incluídos nas bolhas. O problema é que isso é
uma fonte de ansiedade e, para pessoas extremamente sensíveis, pode gerar
atitudes reativas como posturas submissas demais, ou o contrário, agressivas
demais.
As marcas deixadas em nós, seja por uma
perseguição causada por outra pessoa, ou por nós mesmos, somada à falta de
apoio, amizades verdadeiras ou mesmo falta de alguém que nos dê um mínimo sinal
de tolerância, são mortificações dolorosas. Isso nos coloca em martírio íntimo,
pois no afã do pertencimento humano, não compreendemos a função das rejeições e
desaprovações externas. Mas, por trás deste sofrimento, tão comum, existe um processo
do destino trabalhando em nós: uma poda necessária para o crescimento e amadurecimento,
ao longo de nossas jornadas.
A rejeição é um estímulo para o amadurecimento
Provavelmente, quem possui alguma diferença em sua configuração mental, própria da genética ou do meio cultural de origem, por exemplo, pessoa que como eu tem transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, sabem bem o que significa lidar com o próprio impacto em um meio de convivência. Ao relembrar algumas situações, o isolamento que era provocado por algum tipo de exclusão alheia passou a ser um hábito pessoal, por escolha. A dor de se sentir inadequado, de perceber que era o motivo de constrangimentos para outras pessoas, era algo muito doloroso.
Mas, até
entender que isto não era um defeito de nascença, apenas algo que não se
encaixava nos padrões sociais, muita água rolou pela ponte, em meio a lágrimas
silenciosas, autocrítica severa, e uma sensação de ter vindo de marte. Foi nos
momentos de introspecção que percebi a importância do autoconhecimento. Hoje, vejo
que a pressão para se encaixar (que fere um indivíduo com TDAH ou outro transtorno) é a mesma
engrenagem que sustenta a cultura do pertencimento obrigatório.
A solitude não veio como escolha, mas como
necessidade de dar um tempo para uma autoanálise e, por isso, não foi tempo desperdiçado
com autocomiseração e sentimentalismo, mas foi uma grande oportunidade para refletir
com sinceridade. E é exatamente isso o que mais vale a pena nos momentos de
dor, quando a vida parece nos rejeitar e quando percebemos que o mundo apenas
está nos dando sinais para onde precisamos caminhar. Na maioria dos casos, pessoas
diferentes escolhem fazer o melhor que podem, mesmo que tenham limites e diferenças
pouco compreendidas por uma sociedade.
Sentimo-nos confusos entre o que pensamos de
nós mesmos e o que os outros dizem a nosso respeito. Nessa dualidade reside a
chave do amadurecimento, que reflete o embate entre a voz do nosso coração e as
crenças cegas que nutrimos sobre quem somos ou sobre os rótulos que nos
atribuem. Ninguém se conhece completamente, muito menos aqueles que nos cercam.
Somos complexos demais para respostas binárias de “sim” ou “não”; nossa
existência é constituída por infinitos “depende”. Por isso, precisamos
reconhecer que, de fato, apenas o Criador conhece a nossa essência por inteiro.
A necessidade de um reset mental
Quando nunca vivenciamos experiências que nos
testam os limites, podemos cair na armadilha de achar que tudo é perfeito,
felicidade e alegria. Dizem que, quanto maior a nossa ignorância, menor a
chance de ser infeliz, o que, em parte, é verdadeiro. O desconhecimento nos faz
ficar cheios de coragem, bravatas e autossuficiência irreal e, no limite,
podemos nos achar mais poderosos do que realmente somos.
Neste mundo de ilusões vendidas, a ideia de
que para sermos aceitos e aclamados em um grupo social fechado, precisamos ferir
o próximo, perseguir, julgar, condenar e executar quem não segue os padrões
convenientemente acordados, é a maior causa das mazelas e atitudes baixas da
cultura do pertencimento obrigatório. Para os incautos, a socialização do erro,
da corrupção, do ódio e do radicalismo ideológico são normalizados como
argumentos de força de grupo, com poderes de mando e desmando, que recrudescem o
separatismo entre seres humanos, a exclusão, e a manutenção de privilégios dos
sistemas meritocráticos. Como plano de fundo, a sociedade moderna que valoriza
a aparência em detrimento da essência, troca valores, subverte preceitos e comportamentos.
Mas, neste contexto, esta reflexão não
pretende esgotar essas disfunções modernas, nem se transformar em um manifesto
moralista e puritano. O principal intuito é enxergar o que de bom pode passar
em nossa mente ao percebermos, nos momentos de solitude, o quanto seguir a moda ou os padrões momentâneos de nossa época, não faz sentido para nossa essência. E é aí que o nosso coração, aberto pelo sofrimento, entra em ação.
Existe uma grande chance de nos conectarmos junto
ao Criador de todas as coisas, para acessar o entendimento e a sabedoria. Assim, podemos
resetar nossas mentes, no silêncio de nosso isolamento voluntário, que nada
mais é do que uma reação natural de quem está cansado de adotar comportamentos
grupais por conveniência e aceitação barata. A solitude não é apenas um tempo
de espera, mas o local ativo onde se desconstroem as falsidades para que o contínuo
despertar. Esse reset só é possível quando encaramos, no silêncio, a
fragilidade dos egos que construímos para sobreviver.
O desapego de nossos próprios egos construídos
Dificilmente alguém acreditaria naquilo que
dizemos a nosso próprio respeito, pois preferem confiar naquilo que suas
próprias percepções lhes permitem ler em nós. Assim, também, é muito difícil
falarmos de nós mesmos quando o que as pessoas veem é exatamente aquilo que
pensamos, fazemos, onde nossos costumes e nossas escolhas falam por nós mesmos.
Diante de nosso espelho, percebemos que não
estamos conectados com nossos verdadeiros anseios e talentos latentes. Nossos
egos apenas estão atrelados a interesses secundários que, basicamente, são
moldados por nosso verdadeiro eu. Mas, quando não conversamos com nossa voz
interior, acabamos assumindo nossas máscaras sociais e acabamos acreditando que
somos o que elas representam.
Portanto, nossas decepções não dependem
daquilo que as pessoas não enxergam em nós — aquilo que gostaríamos que vissem
—, mas são consequências da construção de uma autoimagem feita para mostrar aos
outros, unicamente para sermos aceitos e inclusos em um certo meio. Nós nos
traímos neste jogo, pois o “ser aceito” dificilmente inclui quem gostaríamos de
ser, de fato. É provável que aqueles que nos excluem também estejam, muitas
vezes, presos em seus próprios “egos construídos” e medos, agindo por uma
necessidade inconsciente de proteção.
A anulação de nós mesmos nos liberta
Tudo nesta vida passa sem distinção para
todos nós. Conforme o jargão popular, “viver morrendo" ou "morrer vivendo” é uma
fórmula funcional para encontrarmos a essência da vida plena. Talvez, a frase
represente as mortificações de nossas máscaras que precisamos assumir (egos),
renovando-nos e trocando nossas identidades temporárias. Permitir que tudo deixe
de parecer o que é, nos permite morrer vivendo na essência (o verdadeiro eu),
ficando apenas com aquilo que existe, ou seja, a vida grandiosa que nos é
dada a viver.
Neste sentido, quando escolhemos,
deliberadamente, nos afastar das encenações sociais e focar naquilo que
realmente importa, abrimos um caminho vital para o autoconhecimento. Isso nos
permite enxergar quem somos e desenvolver nossos melhores propósitos, muito
além da reprodução de modismos ou de qualquer imposição de contextos efêmeros —
a exemplo do nosso mundo de ilusões e alta produtividade nos apresenta.
A sabedoria da vida nos impõe momentos de
negação e exclusão que, ao contrário de serem vistos como aspectos negativos —
o que nos levaria ao vitimismo e ao fatalismo —, nos abrem o coração, mesmo que
por meios dolorosos, para despertarmos para o sentido do que estamos fazendo
neste mundo e para qual destino estamos nos guiando.
É possível adquirirmos discernimento sobre
essas coisas quando sentimos a liberdade para nos livrarmos das máscaras e das
falsidades, que, embora não gostemos de admitir, apenas fazem parte de um jogo
transitório, condicionado pelos caminhos que precisamos percorrer em nossas
jornadas. Elas não representam o ponto final, mas sempre um recomeço para o
nosso contínuo despertar. Nosso próprio despertar individual pode resultar em
uma postura mais tolerante e acolhedora com a diferença alheia.
Conclusão
Ao compreendermos que as "mortificações
do ego" são, na verdade, ferramentas de libertação, transformamos o
martírio íntimo em um processo de poda necessária para o crescimento. A dor da
exclusão — seja ela fruto de padrões sociais rígidos ou de desafios específicos
como o TDAH — deixa de ser um fardo de inadequação para se tornar o
estímulo definitivo para o nosso amadurecimento.
A verdadeira vitória sobre a rejeição externa
ocorre quando silenciamos as expectativas do mundo para ouvir a voz do
coração, aquela que não necessita de máscaras sociais para existir. Ao
abandonarmos o jogo das encenações e das falsas imagens construídas para o
pertencimento, abrimos espaço para que nossa essência, conhecida em sua
totalidade apenas pelo Criador, floresça de forma única e genuína.
Portanto, que a solitude seja sempre encarada
como uma oportunidade de "reset mental" e não como um castigo.
Que saibamos "viver morrendo" para as aparências e "morrer
vivendo" para o que é eterno e real. Pois, no fim, cada negação enfrentada
é apenas um sinal no caminho, guiando-nos para fora das ilusões efêmeras e para
dentro de nós mesmos, onde reside o nosso mais profundo e contínuo despertar.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1. Qual é a mensagem central do artigo?
O artigo explora como as dores da rejeição e
as "mortificações do ego" podem ser transformadas em
ferramentas de libertação e amadurecimento. A obra propõe que o
autoconhecimento surge ao abandonarmos as máscaras sociais para ouvirmos a
verdadeira voz do coração.
2. Como o autor descreve o sentimento de
exclusão?
A dor da exclusão é apresentada como um
sentimento de dúvida e vergonha por não ser bem-vindo por quem se é. No
entanto, o texto ressignifica esse sofrimento como um processo do destino, uma "poda
necessária" para o crescimento individual ao longo da vida.
3. Qual o papel do TDAH na reflexão do autor?
O autor utiliza sua experiência pessoal com o
TDAH para ilustrar a sensação de inadequação aos padrões sociais. Ele
argumenta que a pressão para se encaixar é a mesma engrenagem que sustenta uma "cultura
do pertencimento obrigatório", que muitas vezes fere quem possui
configurações mentais diferentes.
4. Qual é a diferença entre solitude e
solidão no texto?
A solitude não é vista como um castigo
ou tempo desperdiçado com sentimentalismo, mas como uma necessidade de
autoanálise e uma oportunidade para refletir com sinceridade. Ela é o
"local ativo" onde as falsidades são desconstruídas para permitir o
despertar.
5. O que significa o conceito de "reset
mental"?
O "reset mental" ocorre no
silêncio do isolamento voluntário, quando o indivíduo decide parar de adotar
comportamentos grupais apenas por conveniência. Esse processo permite encarar a
fragilidade dos egos que construímos apenas para sobreviver na sociedade.
6. Por que criamos "máscaras
sociais" segundo o artigo?
Construímos uma autoimagem e assumimos
máscaras para sermos aceitos e incluídos em certos meios de convivência. O
problema é que, ao acreditar nessas máscaras, nos desconectamos de nossos
verdadeiros anseios e talentos latentes.
7. Como o texto analisa aqueles que praticam
a exclusão?
O artigo propõe uma visão empática, sugerindo
que quem exclui o próximo também costuma estar preso em seus próprios "egos
construídos" e medos, agindo por uma necessidade inconsciente de
proteção.
8. Qual o significado da expressão
"viver morrendo ou morrer vivendo"?
Essa fórmula representa a necessidade de
"morrer" (anular) as identidades temporárias e as aparências sociais
para que a essência (o eu verdadeiro) possa realmente viver de forma
plena e real.
9. Quem, segundo o autor, conhece a nossa
essência por inteiro?
O texto afirma que o ser humano é complexo
demais para respostas simples e que ninguém se conhece totalmente. Portanto,
reconhece-se que apenas o Criador possui o conhecimento integral da
nossa essência.
10. Qual é o resultado prático do
"despertar individual"?
Além do autoconhecimento, o despertar da
essência pode resultar em uma postura mais tolerante e acolhedora com a
diferença alheia, transformando a dor da negação em um caminho de sabedoria e
discernimento.
Veja mais
Assista a um vídeo anime explicativo deste
texto, dentre outros, clicando AQUI

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