O oásis do silêncio
A desaceleração como direito
Como a maior parte das pessoas inseridas no
mercado de trabalho, nossas jornadas começam às cinco da manhã e terminam perto
da sete da noite. Para nós, que precisamos manter o foco no cotidiano e nos
trajetos diários, é necessário um esforço extra para encontrar um lugar ao sol,
não no sentido de pertencimento obrigatório das bolhas sociais, mas para
expressar a própria autoralidade, em meio às insanidades de um sistema que nos
trata com máquinas e não seres humanos.
Para que isto ocorra, não podemos nos enganar
achando que aquilo que nos propomos a fazer é para alguém assistir ou aplaudir.
É algo que precisa estar conectado ao nosso próprio ser, como agente vivo que é
obrigado a se autoconhecer ao longo da jornada da vida. Isso é o que chamamos,
experiência de vida. Não importa o quanto as pessoas menosprezem nossas
atividades ou profissões, pois nosso melhor nunca o será para uma sociedade
pautada pela ilusão da perfeição, em qualquer contexto.
Padrões culturais e modismos, em tempos de
internet sufocante e instantânea, promovem condições para que as pessoas
demonstrem sua necessidade de linchar, excluir e desaprovar quem acham que as
prejudica de alguma forma ou, simplesmente, quem as incomoda por ser capaz de
expressar autenticidade dentro de um mundo cheio de mentiras, máscaras e
segundas intenções.
Neste contexto, cabe a reflexão: é nossa
culpa não conseguirmos um desempenho robótico que contraria nossas necessidades
biológicas e naturais como qualquer ser vivo? Somos apenas seres viventes
seguindo um fluxo universal aleatório ou temos algo diferente como, por exemplo, a
consciência? Todos precisamos ser iguais, atender aos mesmos padrões de
pensamento, atitudes, hábitos e um único alinhamento ideológico? Nos conhecemos
em nossa totalidade para gerar crenças inabaláveis sobre o sentido de nossa
existência?
Nossos egos, construídos para a sobrevivência e atrelados a algoritmos de produtivismo, devem suplantar nossa percepção de que
existe uma real necessidade de combater as incoerências deste sistema caótico
de aceleração mental? O que mais nos tem levado ao desconforto psicológico, por não
acompanhar os números e estatísticas, não seria o estúpido embuste social que
prega o sucesso como a capacidade de nos tornarmos produtos atraentes e
vendáveis, altamente eficientes e incansáveis?
A insubordinação mental necessária
A desaceleração proposta nesta reflexão não é
uma recomendação de ócio para privilegiados, mas um ato de insubordinação
mental. Diante das pressões e exigências de um sistema humanamente falido, a
desaceleração se torna uma ferramenta de sobrevivência emocional, que nos devolve
a dignidade de compreender que nossa identidade não se resume ao um crachá, um
saldo bancário ou a uma métrica de entregas semanais. É uma forma de dizer
"não" ao moedor de carne da pressa artificial.
Neste mundo moderno a possibilidade de uma
pessoa expressar sua humanidade - a qual inclui fragilidades, desamparo,
necessidade de tempo para amadurecimento pessoal – está sujeita ao julgamento
da sociedade que, por estar contaminada pela intolerância, pelo cinismo e pela
falta de esperança, a condena e executa como uma mera romantização da fraqueza
ou conformismo e falta de objetividade.
Esta atitude automatizada reflete uma postura
de ataque gratuita que nasce, muitas vezes, do próprio desespero de quem já
aceitou a lógica da máquina e se ressente de ver alguém propondo a emancipação.
A desaceleração é um dos caminhos para o retorno da consciência, para discernirmos
o que de fato faz sentido para uma vida plena, e não é contrária à nossa
necessidade de sobrevivência, mas um reforço obrigatório para quem quiser
escapar da insanidade, do caos e do adoecimento que muitos defendem, sem refletir.
A decisão de tornar-se humano
Cabe no contexto deste ensaio, relembrar que
esta reflexão encontra seus pares em diversos autores contemporâneos, que já
sinalizaram o embuste e a crueldade que o ritmo acelerado, em busca do sucesso
mundano tem provocado pela padronização de comportamentos cativos à ideologia
do produtivismo sem limites.
Somos seres vivos, com consciência, e somos
capazes de compreender que nossos egos construídos para sobreviver estão a
serviço de uma matriz que não nos considera humanos. Esta percepção não é um privilégio
de quem não trabalha ou que possui uma rotina incomum, mas é uma realidade que
todos nós vivenciamos. Admitir que estamos conectados a processos e leis naturais,
os quais são indissociáveis de nosso existir, nos permite enxergar o direito de
acessar caminhos legítmos para o nosso verdadeiro crescimento e evolução
existencial.
Ao traçarmos paralelos entre o comportamento
humano e os ciclos de plantio, cultivo e repouso da terra, observamos que a
terra que não descansa torna-se estéril; assim, também, a mente que não pausa
adoece. Respeitar o tempo de maturação das coisas não é uma escolha intelectual
ou um capricho poético; é uma lei da natureza. Por que não nos permitimos o
tempo de reflexão, de leitura e autoconhecimento?
Enquanto nos criticarmos por precisar de um
tempo para respirar, nos condenando por não estarmos engajados em atender aos
interesses do sistema, arcarmos com um alto preço pago em forma de baixa
autoestima e autocondenação. E, pior ainda, viveremos aprisionados pelo medo e
pelo jugo externo de bolhas controladoras, impedidos de atingir a maturidade
necessária para nos contrapor a exigências insanas e ao embuste de uma
sociedade produtivista, sem limites éticos.
Não sejamos nossos próprios inimigos
Com base na necessidade de restauração
mental, tão negligenciada no nosso cotidiano, cabe uma mensagem de alerta a
toda pessoa que venha a trazer a discórdia, o separatismo e o recrudescimento
da desumanização em qualquer meio de convivência. Pessoas assim não contribuirão
para o bem-estar coletivo, e pior que isto, se afundarão, cada vez mais, diante
de preceitos erráticos de uma sociedade supérflua, injusta e eticamente
corrompida.
A proposição de desacelerar um pouco não se trata de um manifesto inerte, quando o que mais necessitamos é utilizar o
pouco tempo de nossa existência para vivenciar experiências profundas - de
crescimento humano, partilha e gratidão -, reconhecendo parte da grandeza da vida, no sentido mais amplo. Trata-se, na verdade, de
não nos submetermos aos mandos e desmandos daqueles que detém o
conhecimento e a tecnologia, utilizando-os como armas contra o próprio ser humano.
Portanto, restam perguntas que não terão
respostas imediatas: Será que estamos caminhando para uma nova fase da
existência humana nesta terra? O que entendemos como paz e missão de vida,
hoje, como destino de todos nós, condizem com o que estamos fazendo com nós mesmos
hoje? Quem são os inimigos da paz?
Conclusão
Em última análise, os inimigos da paz são as
estruturas e mentalidades que nos transformam em engrenagens de um sistema
exaustivo, alienando-nos de nossa própria natureza. A paz real não é um estado
passivo, mas o fruto da insubordinação mental e da coragem de desacelerar; é o
reconhecimento de que, para além das métricas de produtividade, existe uma
essência humana que exige o respeito aos seus próprios ciclos e o pleno direito
de viver.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1. Por que o autor afirma que é necessário um
"esforço extra" no cotidiano atual?
Para que as pessoas possam encontrar um
espaço para expressar sua própria autoralidade, evitando serem tratadas
apenas como máquinas por um sistema que desconsidera a essência humana.
2. Qual deve ser o real propósito das
atividades e profissões que exercemos?
As atividades devem estar conectadas ao nosso
próprio ser, servindo como uma ferramenta de autoconhecimento e
experiência de vida, em vez de serem realizadas apenas para buscar aplausos ou
aprovação social.
3. Como o ambiente digital e os modismos
influenciam o comportamento social?
Eles criam condições para o
"linchamento" e a exclusão de pessoas autênticas, pois indivíduos
inseridos nessas bolhas tendem a desaprovar quem expõe a verdade em um mundo
dominado por máscaras e segundas intenções.
4. É culpa do indivíduo não atingir um
desempenho "robótico" no trabalho?
Não. O texto sugere que a busca por um
desempenho mecânico contraria as necessidades biológicas e naturais
básicas de qualquer ser vivo, ignorando a nossa própria consciência.
5. O que o autor define como
"insubordinação mental"?
É o ato de desacelerar diante das
pressões do sistema. Trata-se de uma ferramenta de sobrevivência emocional para
dizer "não" à pressa artificial e recuperar a dignidade humana além
de cargos ou saldos bancários.
6. Como a sociedade moderna costuma reagir à
expressão da fragilidade humana?
A sociedade, frequentemente contaminada pela
intolerância e pelo cinismo, tende a julgar e condenar a exposição de
fragilidades como se fosse uma "romantização da fraqueza" ou falta de
objetividade.
7. Qual é a relação entre os "egos de
sobrevivência" e a "matriz" mencionada?
O texto explica que nossos egos, construídos
para sobreviver, acabam servindo a uma matriz produtivista que não nos
reconhece como seres humanos, mas apenas como produtos atraentes e vendáveis.
8. Qual lição a natureza oferece sobre a
necessidade de repouso?
Assim como a terra que não descansa se torna
estéril, a mente que não pausa adoece. O respeito ao tempo de maturação
e ao repouso não é um capricho poético, mas uma lei da natureza.
9. O que impede o ser humano de atingir a
maturidade para se contrapor ao sistema?
A constante autocondenação, a baixa
estima por necessitar de descanso e o medo do julgamento externo das
"bolhas mandantes" impedem que o indivíduo enfrente as exigências
insanas da sociedade.
10. Quem são, afinal, os "inimigos da
paz" segundo a reflexão?
São aqueles que promovem a discórdia, o
separatismo e a desumanização, submetendo a existência humana aos mandos
de quem utiliza o conhecimento e a tecnologia como armas contra o próprio ser.
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Assista a um vídeo anime explicativo deste
texto, dentre outros, clicando AQUI

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