A mera sinalização da presença
As novas máscaras sociais
Um exemplo de como podemos identificar uma
representação das novas máscaras do mundo corporativo é a conversa sem
propósito, a crítica pela crítica e o preenchimento do tempo a fala sobre as disfunções
do próximo, que acaba na batida do cartão e na suposta missão cumprida do dia. Isso é um
retrato de grande parte do tempo que o mundo corporativo nos toma, sem que
frutifique em algum resultado edificante.
Muitas vezes um indivíduo adota um discurso
politicamente correto apenas para se mostrar ocupado, produtivo e engajado, sem
estar de fato envolvido com qualquer questão. O uso exagerado de jargões da
moda ou o modo afetado com o qual aborda assuntos mais polêmicos denuncia uma
dependência de atenção e pertencimento a partir do aplauso corporativo, que
pode viralizar como o mais engraçado, o mais ousado ou o mais destacado pela extravagância
e efeito midiático.
Este comportamento dificilmente é discutido
ou pouco criticado em si, pois faz parte do hoje, do modo de ser planilhado
para produzir a estatística da reunião realizada. Isto porque o sistema não
apresenta outra opção senão justificar o tempo de trabalho ou uma ordem cumprida
vinda de quem nem conhece o ambiente e o que podemos chamar o chão da fábrica.
A realidade tratada burocraticamente, normalmente é formatada para o
preenchimento de planilhas frias, gráficos e estatísticas.
Precisamos apenas mudar o foco: em vez de uma
reunião apenas para analisar números de forma teórica, precisamos de um
encontro prático e resolutivo, voltado para atender às nossas necessidades
reais.
A vida contém erros e acertos naturais
Quando vamos corrigir uma atitude ou adequá-la, muitas vezes isto precisa ser feito no momento certo, imediatamente
quando ocorre. Nosso modo de aprendizagem inclui a realidade viva, a qual é
dinâmica e não estática, e que não pode ser congelada em uma planilha ou ser sistematizada somente na forma de números e porcentagens. É uma falsa premissa acreditar que isto vá contribuir para uma análise ou
planejamento efetivamente resolutivos, em nível humano.
Muitas vezes, isto também só representa uma eterna
coleta de dados que, na maior parte dos casos, servem para mostrar resultados
de outras pessoas e o que é feito pelos outros, sem efetiva participação e
envolvimento de quem somente analisa os dados. Aliás, essa falta de vivência
do que é real e vivo, embelezada por planilhas e slides é o ganha pão de muitas pessoas
neste mundo, pagas apenas para criar reuniões após reuniões.
O fato de que ninguém perceba ou que seja sempre
omisso dentro deste grande teatro é, infelizmente, resultante de uma cultura que troca a ação
pelo discurso e nada a mais. Pior, esta planificação pode dar vazão a direcionamentos viciados e
cheios de influências ideológicas, normalmente usados por tecnocratas e pessoas
comprometidas apenas com um status quo, que lhe garante o pertencimento grupal
e, neste mundo moderno, a manutenção de privilégios às custas do trabalho
alheio.
Talvez, a vida proporcione estes momentos
vazios a cada um de nós, para que compreendermos a necessidade de refletir melhor
sobre o que é a resolução de problemas coletivos e não somente, a armadilha de
se acreditar no conforto, na segurança e no controle de uma bolha corporativa. A
vida não pode ser formatada em planilhas só porque queremos, pois sua grandeza se constitui
de uma sequência natural de desamparos, de dúvidas e de combinações imprevistas,
cuja finalidade é provocar nossa intervenção e autêntica contribuição.
O Estresse do Imediatismo vs. O Cultivo do Foco
Quantas pessoas chegam em casa esgotados e
com a sensação de que trabalhou horas, sem chegar a lugar nenhum? Existe algo
mais estressante e vazio que dias, meses ou anos vivenciando tanta
superficialidade e desgaste de energia vital? Quando perceberemos que isto
precisa chegar a um fim, ao invés de se tornar um culto eterno à mediocridade
humana?
Muitas vezes, a intenção de resolver
problemas acumulados é verdadeira e fruto de muitas discussões vazias e sem
propósito. No mundo corporativo o tempo, que não perdoa ninguém, cobra o seu
preço e quando a procastinação e suas consequências batem à porta de todos, é se torna uma pressão enorme
para que alguma decisão seja tomada, de fato. Assim sendo, urge a
necessidade de se pensar melhor sobre aquilo que realmente dá frutos no
ambiente de trabalho, mesmo que isto signifique quebrar rituais e protocolos
vazios, sem direcionamento e sem razão de ser.
Encontros protocolares realizados para discutir
a reunião passada ou apenas para marcar outro encontro denunciam o vazio de
propósito e a falta de capacidade decisória baseada no medo do erro, do imperfeito.
Isto é um reflexo da apologia ao perfeito, ao politicamente correto, ao
aprisionamento a uma ideologia cujo significado, nesta reflexão, é justamente a
desumanização dos ambientes corporativos. Cabe aqui a pergunta provocativa: o
que mais compromete a própria corporação quando problemas reais não são discutidos
e tentativas de acerto não são decididas a tempo? A resposta é a sobrecarga e a ansiedade generalizada.
O Desapego da Burocracia e o Resgate da Interdependência
Como podemos traçar um paralelo entre o que é
natural ou antinatural em nossas atitudes e comportamentos? De onde podemos
retirar lições de sabedoria ao longo de nossos caminhos diários? O que é mais
importante buscarmos para termos melhor discernimento? O que é essencial e o que é
artificial? Será que chegamos a este mundo totalmente cegos e impedidos de
chegar a estas respostas?
Hoje, pouco se valoriza a história percorrida,
os erros e acertos necessários para que pudéssemos colher a sabedoria,
em sua essência. O desejo de anular uma história humana percorrida na realidade
concreta, algo próprio desta sociedade moderna, está baseado na necessidade de
filtrar informações, sob o discurso da objetividade e do racionalismo, como um
meio de simplificar a vida cotidiana, diante da pressão do dia a dia, que nós
mesmos reproduzimos. Mas, simplesmente, estamos colhendo os frutos do apego a
trâmites burocráticos, legalistas e individualistas.
A questão mais preocupante é: quando enfrentaremos o medo da desaprovação e
da inadequação às bolhas predominantes de um sistema errático, que justifica o
cancelamento de ensinamentos, princípios e valores humanos (consolidados pela
vivência e pelas virtudes mais profundas da vida coletiva)? Quando vamos
cancelar os joguinhos de poder que servem apenas para inflar egos e resolver
interesses pessoais?
Interdependência real
A verdadeira valorização do ser humano não
está no cumprimento de protocolos vazios, apenas para ocupar o tempo. Seja em
ambiente corporativo ou na vida pessoal, importa a saúde mental e toda atividade
que amplifique nosso potencial e não sua redução. Talvez seja vantajoso que as
pessoas sejam mais simples e padronizadas para quem quer seu controle e
manipulação, sob o discurso da igualdade, mas se isto significa que todos devem
ser omissos, acríticos contra este adestramento humano para a mediocridade, já
é passada a hora para darmos um basta neste modus operandi do sistema.
O espaço e o lugar ao sol que nossos jovens
sonham não é fazer parte do quadradinho pré-estabelecido pelo teatro do
pertencimento, mas a oportunidade para cumprirem sua missão neste mundo. O que
eles mais precisam é de uma rede de apoio a este tipo de inciativa, livres
deste mundo dos burocratas e tecnocratas, que sirva como referência de
humanidade e respeito efetivo aos interesses coletivos.
É isto que poderá sustentar seu crescimento,
desenvolver seus potenciais, virtudes, capacidade contributiva e criativa, o
mesmo que as gerações anteriores construíram com seu sangue suor e lágrimas. Isto
não pode ser apropriado pelos poderosos do mundo, pois os frutos da liberdade humana não têm um único autor, mas sim, uma sequência histórica de autores (seres
pensantes) que souberam superar preconceitos, estigmatizações e julgamentos sociais,
de forma destemida e corajosa.
Não se trata apenas de ocuparmos tempo e
espaço, mas ao modo mais neutro possível, de cumprirmos nossa missão, depois
irmos embora e deixarmos a paz neste mundo.
Conclusão
Romper com o Teatro do Pertencimento exige
mais do que uma simples mudança de agenda; demanda uma corajosa mudança de
postura existencial. Enquanto o sistema continuar a premiar o
"adestramento para a mediocridade" e a validação mútua de discursos
vazios, a vitalidade humana continuará sendo drenada por rituais que pouco ou
nada contribuem para o bem comum. Não podemos aceitar que a realidade seja
eternamente reduzida a planilhas frias e gráficos que, embora esteticamente
impecáveis, permanecem cegos à dinâmica da realidade viva.
O verdadeiro desafio para as lideranças e
para as novas gerações não é o de se encaixar perfeitamente no
"quadradinho pré-estabelecido", mas o de ter o discernimento para
separar o que é essencial do que é meramente artificial. É necessário enfrentar
o medo da desaprovação e abandonar os jogos de poder que servem apenas para
inflar egos, trocando o culto ao perfeito pela aceitação do aprendizado que
nasce do erro e da experiência concreta.
Em última análise, o trabalho não deve ser um
palco para a representação de papéis burocráticos, mas um campo fértil para a interdependência
real e para o florescimento de nossos potenciais e virtudes. Que possamos,
portanto, recusar a omissão e o conformismo, transformando nossa presença no
mundo corporativo em um ato de contribuição genuína. Pois, ao final da jornada,
o que verdadeiramente importará não será o número de reuniões em que batemos o
ponto, mas a fidelidade com que cumprimos nossa missão, para que possamos,
enfim, deixar o palco com a consciência tranquila e o legado da paz.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1. O que o autor define como o "Teatro
do Pertencimento"?
Trata-se de um sistema de rituais
corporativos vazios, onde a sinalização de presença e o cumprimento de
protocolos burocráticos sobrepõem-se à ação real e aos resultados edificantes.
É um cenário onde se troca a ação pelo discurso apenas para garantir a
manutenção de um status quo ou o pertencimento a um grupo.
2. Como as "novas máscaras sociais"
se manifestam no ambiente de trabalho?
Elas aparecem através de conversas sem
propósito, críticas vazias e o uso exagerado de jargões da moda. O indivíduo
adota uma postura "politicamente correta" e afetada não por
engajamento real, mas por uma dependência de atenção e aplauso corporativo.
3. Por que o comportamento de "apenas se
mostrar ocupado" é pouco criticado?
Porque ele faz parte de um sistema
"planilhado" que exige a justificativa do tempo de trabalho através
de estatísticas de reuniões realizadas. O sistema muitas vezes é alimentado por
ordens de quem desconhece o "chão da fábrica", restando ao
colaborador formatar a realidade para preencher planilhas e gráficos.
4. Qual é a crítica do autor em relação ao
uso de planilhas e dados?
O autor argumenta que a vida é uma "realidade
viva" e dinâmica, que não pode ser congelada em números ou porcentagens.
Frequentemente, a coleta eterna de dados serve apenas para mostrar o trabalho
alheio, sem que haja uma vivência real ou envolvimento de quem manipula essas
informações.
5. O que o texto revela sobre o excesso de
reuniões sem propósito?
Esses encontros são descritos como "liturgias
estéreis" que denunciam o medo do erro e a falta de capacidade decisória.
Muitas vezes, as reuniões servem apenas para discutir o encontro passado ou
agendar o próximo, revelando um vazio de propósito que desumaniza o ambiente.
6. Como o "estresse do imediatismo"
afeta o trabalhador?
Ele gera um esgotamento profundo e a sensação
de que se trabalhou por horas sem "chegar a lugar nenhum". Esse
desgaste de energia vital é consequência de dias vivenciados na
superficialidade, resultando no que o autor chama de um "culto eterno à
mediocridade humana".
7. O que significa o "adestramento
humano para a mediocridade"?
É o processo de tornar as pessoas simples,
padronizadas e omissas para facilitar o controle e a manipulação por parte do
sistema. Esse processo reduz o potencial humano e ignora as virtudes e a saúde
mental em favor do cumprimento de protocolos vazios.
8. Qual é a visão do autor sobre a relação
entre erro e aprendizado?
O aprendizado real exige a aceitação do erro
e da experiência concreta. O autor defende que a correção deve ocorrer na
"realidade viva", e que o medo do imperfeito, alimentado pela busca
de uma perfeição artificial, trava o desenvolvimento e a sabedoria.
9. O que os jovens realmente buscam no mundo
profissional, segundo o texto?
Eles não desejam se encaixar em um "quadradinho
pré-estabelecido", mas buscam a oportunidade de cumprir sua missão. Eles
necessitam de uma rede de apoio que seja referência de humanidade e que
respeite os interesses coletivos, permitindo o florescimento de seus potenciais
e criatividade.
10. O que é necessário para romper com essa
dinâmica e encontrar o "essencial"?
É preciso uma corajosa mudança de postura
existencial, enfrentando o medo da desaprovação e abandonando jogos de poder. O
objetivo final deve ser transformar a presença no trabalho em uma contribuição
genuína, focada na interdependência real, para que se possa cumprir a missão e
"deixar a paz".
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