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O Jogo Mórbido do Sucesso: Cinismo, conformismo e a ilusão de vencer sozinho

Pessoa sentada em uma floresta densa e iluminada pelo sol, segurando terra escura e fértil com uma pequena minhoca brilhante nas mãos. Ao fundo, uma cidade de arranha-céus surge entre a névoa, criando um contraste entre a natureza viva e o ambiente urbano frio.

Funcionar não significa contribuir

 

Ser igual a todo mundo

Certa vez, um sujeito me disse que era violento. Mas, contextualizando, ele se referia ao modo capitalista de ser. Alguém com uma visão combativa, agressiva, competente e eficiente a ponto de conseguir passar por cima de quem quisesse, ou se aproveitar da fraqueza de qualquer pessoa que cruzasse sua frente. Para ele, ser violento era a forma de dizer que era totalmente encaixado no sistema da selvageria que o sistema do lucro pelo lucro exige.

Dentre tantos discursos ideológicos, também ouvi pessoas dizendo que o mundo era assim e quem não se adapta a este regime, ou não tem estômago para ser “violento”, sempre vai ser um fracassado, um fraco e excluído. Por isso, seja por sujeição aos padrões frios, lógicos e altamente racionalizados — inclusive sob a argumentação de que a grande lei da vida é a lei do mais forte —, desde jovem, algo me dizia que nada disso fazia sentido para uma existência mais completa, com mais profundidade de significados.

Perguntemos a qualquer pessoa o que ela fez com seu primeiro salário ou rendimento na vida e, provavelmente, encontraremos quem jamais tenha sacrificado este primeiro ganho em prol de outras pessoas. O cinismo do sistema é, justamente, a retórica de que cada um deve cuidar somente do próprio umbigo. Mas qual é a complexidade deste raciocínio? Será difícil pensarmos só em nós mesmos? É difícil ignorar a dificuldade do nosso próximo?

Embora muitos de nós não admitamos, a resposta para estas perguntas é não, não é difícil. É muito fácil fechar os olhos para necessidades alheias; é muito mais fácil pensar no próprio futuro. O difícil é entender, logo no primeiro ganho financeiro obtido com esforço, energia e dedicação, que podemos colocar em primeiro plano algo além de nós mesmos. Chegar ao topo do mundo sozinho é mais fácil do que levar todos que amamos juntos. Existe algo mais cínico que isto?

 

A emoção de doar-se

Para quem a demonstração de humanidade não se encaixa no arquétipo psicopata dos grandes “cases de sucesso” — os jargões da moderna sociedade badalada das grandes mídias —, talvez seja saudável lembrar que existe muita gente arrependida, trocando o discurso agressivo, empreendedor e competitivo por outro com pensamentos e falas opostas, mais humanistas.

De onde será que vem esta mudança? Será que alguma lei natural lhes trouxe alguma aprendizagem mais significativa? Será que todo o poder que alguém conseguiu, finalmente, foi barrado pelo fim implacável da jornada terrena e nada pode ser feito? Afinal, quando começa o cinismo e quando ele acaba ou é atenuado no comportamento humano?

Existe um grande neurocientista da atualidade que sempre nos pergunta: na natureza, quem é mais importante nós, seres humanos, ou as minhocas? Sua resposta é brilhante, pois, ao explicar como as minhocas arejam o solo, permitindo o fluxo de ar nos macro e microporos, as bactérias fixadoras de nitrogênio gasoso conseguem nutrir as plantas para produzirem proteínas, a base da biologia. Sem proteínas, nem nós, os maiorais, existiríamos.

Da mesma forma, podemos imaginar o que funções pouco valorizadas no mundo, como as dos recolhedores de lixo, de quem trabalha nos setores mais sujos, pesados e perigosos e de quem trabalha com educação significam para o todo da existência humana. Neste aspecto, o fato de um jovem se sentir ofendido em ser educado para jogar uma casca de bala no lixo, e não na rua, é o início do cinismo. O lado oposto, a troca de discurso, só vem quando a pessoa compreende e adquire a consciência de que algo importante para toda a coletividade está contido em um simples ato de jogar o lixo no lixo. Quanto nos custa doar um pouco de nosso esforço para outras pessoas?

 

O ego do vencedor

Também conhecemos pessoas que jamais admitem derrotas, jamais admitem erros e fracassos, como se isto lhes empurrasse para a última classe humana. Embora seja assim mesmo para a grande maioria dos adeptos do discurso do vencedor que nunca conheceu uma derrota — uma ilusão do ser humano coisificado —, esta crença é uma das maiores causas da vaidade, da hipocrisia e da bravata que, para se sustentarem, basicamente, basta mentirmos para nós mesmos e para todo mundo.

Isto é aterrorizante para nossos jovens. Não trabalhar o conceito de humanidade leva-os a acreditarem em padrões matemáticos impossíveis de serem atingidos, mas carregados de culpa, de mortificações, de estigmatizações e, infelizmente, de manipulações ideológicas que nutrem o medo por meio das ilusões da felicidade eterna, da riqueza que compra tudo, do status da fama e das grandes celebridades, ovacionadas pelo mundo do consumismo. O resultado disso é o incentivo à construção de egos de vencedores falsos, irreais, desumanos e, para quem já viveu um pouco mais, ridículos.

A matemática do sucesso ou fracasso casa bem com o mundo binário, que não permite algo intermediário entre o sim e o não. A simplificação da vida em dois conceitos é uma prova do empobrecimento mental e espiritual do ser humano moderno. Mas, para além da compreensão deste ensaio, seria possível recomeçarmos uma nova consciência, um novo discurso, de fato, contributivo? Pelo menos, poderíamos nos dar a liberdade de pensar mais sobre nossos problemas existenciais mais críticos? Na existência, talvez nem vencedores nem perdedores, mas o ego das minhocas seja a virada de chave.

 

Esclarecimentos

Quem costuma se fixar no conformismo não é aquele que reflete sobre as naturais quedas ao longo da jornada, nem aquele que aceita os altos e baixos da vida, com dignidade. Será possível que alguém que caçoe jocosamente dos tropeços de alguém nunca tenha caído? Será que existe um vencedor nato ou um egoísta nato que nunca coloca outra pessoa em nenhuma instância de sua vida? Nós, ou quem já teve o privilégio de ser responsável por cuidar de outras pessoas, estamos perdendo na vida? Quem está certo: aquele que diz estar sempre ocupado ou aquele que abre espaço para pensar, de fato, em doar um pouco da própria existência para outras pessoas?

Portanto, talvez o conformista seja aquele que aceita as regras de um jogo perdido e mórbido — embora bonito de se ver na TV — e que não apenas se deixa levar pelas ilusões, mas também pelas próprias mentiras que sustentam seu ego, construído para ser um “case de sucesso” mundano. Apenas precisamos esclarecer que não somos obrigados a rezar a missa desses padres, seguir a cartilha desses que se dizem ser os maiorais, pois sequer sabem o que é o trabalho das minhocas para a vida.

 

Conclusão

Superar o "jogo mórbido do sucesso" exige uma insubordinação mental contra a lógica binária que divide o mundo apenas entre vencedores e perdedores. Enquanto o cinismo contemporâneo nos treina para olhar apenas para o próprio umbigo, a verdadeira virada de chave está em valorizar o essencial e invisível, a exemplo do trabalho silencioso das minhocas que sustenta a própria vida. Para não nos desumanizarmos no topo, precisamos rejeitar os discursos vazios, assumir nossa responsabilidade coletiva e tomar a decisão mais urgente na floresta da existência: a de sermos, finalmente, gente de verdade.

 

PERGUNTAS E RESPOSTAS

1. O que significa ser "violento" no contexto do sistema criticado no ensaio?

Significa adotar um modo de ser agressivo, combativo e extremamente focado na eficiência e no lucro, a ponto de passar por cima das fraquezas alheias para se manter totalmente integrado à selvageria do mercado.

2. Por que o autor discorda de que quem não se adapta a esse regime "violento" é um fracassado?

Porque, desde jovem, o autor percebeu que a sujeição a esses padrões lógicos frios e à premissa de que a "lei do mais forte" rege a vida não faz sentido para uma existência que se deseja completa e profunda em significados.

3. Qual é o cinismo associado ao uso do primeiro salário ou rendimento?

O cinismo reside na retórica social de que cada um deve cuidar apenas de si. Na prática, isso se reflete no fato de que raramente as pessoas se dispõem a sacrificar ou compartilhar esse primeiro ganho financeiro em prol de outras pessoas.

4. É realmente difícil colocar as necessidades alheias em primeiro plano?

O autor argumenta que fechar os olhos para o próximo e focar apenas no próprio futuro é, na verdade, muito fácil. O verdadeiro desafio (e o que exige maturidade) é compreender que podemos e devemos priorizar algo além do nosso próprio ego.

5. Por que algumas pessoas de sucesso decidem abandonar o discurso competitivo por um viés mais humanista?

Essa mudança costuma ocorrer quando o indivíduo percebe o fim implacável da jornada terrena. Diante da morte, todo o poder e riqueza acumulados perdem a utilidade, forçando uma aprendizagem existencial mais profunda.

6. Como a metáfora das minhocas demonstra a fragilidade da soberba humana?

Embora os seres humanos se considerem "os maiorais", a biologia prova que as minhocas são essenciais: ao arejarem o solo, elas permitem que bactérias nutram as plantas e produzam proteínas. Sem esse trabalho invisível, a humanidade sequer existiria.

7. Onde se inicia o cinismo na educação das novas gerações?

O cinismo começa em pequenos gestos cotidianos, como quando um jovem se sente ofendido ao ser educado para jogar uma simples casca de bala na lixeira e não na rua. A superação disso só ocorre quando se adquire a consciência de que pequenas ações individuais impactam diretamente toda a coletividade.

8. Quais são os perigos de inflar o chamado "ego do vencedor" nos jovens?

Isso os aprisiona a padrões matemáticos e estigmas irreais de felicidade eterna e riqueza absoluta. O resultado é uma juventude sobrecarregada de culpa, vaidade e hipocrisia, que precisa recorrer a mentiras para sustentar aparências desumanas e ridículas.

9. Por que a divisão rígida entre "sucesso ou fracasso" empobrece o ser humano?

Porque ela reduz a complexidade da vida a um sistema puramente binário (como o "sim" e o "não"), impedindo qualquer nuance intermediária e limitando o desenvolvimento mental e espiritual da sociedade moderna.

10. Quem é o verdadeiro "conformista" segundo o texto?

O conformista não é quem aceita dignamente os altos e baixos naturais da jornada. O verdadeiro conformista é aquele que aceita as regras desumanas de um jogo social mórbido (mas bonito na TV) e se deixa guiar pelas mentiras e ilusões necessárias para se manter como um "caso de sucesso" artificial.

 

Para visualizar essa reflexão de forma mais imersiva, convido você a assistir ao vídeo AQUI

 

 

 

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