Funcionar não significa contribuir
Ser igual a todo mundo
Certa vez, um sujeito me disse que era
violento. Mas, contextualizando, ele se referia ao modo capitalista de ser.
Alguém com uma visão combativa, agressiva, competente e eficiente a ponto de
conseguir passar por cima de quem quisesse, ou se aproveitar da fraqueza de
qualquer pessoa que cruzasse sua frente. Para ele, ser violento era a forma de
dizer que era totalmente encaixado no sistema da selvageria que o sistema do
lucro pelo lucro exige.
Dentre tantos discursos ideológicos,
também ouvi pessoas dizendo que o mundo era assim e quem não se adapta a este
regime, ou não tem estômago para ser “violento”, sempre vai ser um fracassado,
um fraco e excluído. Por isso, seja por sujeição aos padrões frios, lógicos e
altamente racionalizados — inclusive sob a argumentação de que a grande lei da
vida é a lei do mais forte —, desde jovem, algo me dizia que nada disso fazia
sentido para uma existência mais completa, com mais profundidade de
significados.
Perguntemos a qualquer pessoa o que ela
fez com seu primeiro salário ou rendimento na vida e, provavelmente,
encontraremos quem jamais tenha sacrificado este primeiro ganho em prol de
outras pessoas. O cinismo do sistema é, justamente, a retórica de que cada um
deve cuidar somente do próprio umbigo. Mas qual é a complexidade deste
raciocínio? Será difícil pensarmos só em nós mesmos? É difícil ignorar a
dificuldade do nosso próximo?
Embora muitos de nós não admitamos, a
resposta para estas perguntas é não, não é difícil. É muito fácil fechar os
olhos para necessidades alheias; é muito mais fácil pensar no próprio futuro. O
difícil é entender, logo no primeiro ganho financeiro obtido com esforço,
energia e dedicação, que podemos colocar em primeiro plano algo além de nós
mesmos. Chegar ao topo do mundo sozinho é mais fácil do que levar todos que
amamos juntos. Existe algo mais cínico que isto?
A emoção de doar-se
Para quem a demonstração de humanidade
não se encaixa no arquétipo psicopata dos grandes “cases de sucesso” — os
jargões da moderna sociedade badalada das grandes mídias —, talvez seja
saudável lembrar que existe muita gente arrependida, trocando o discurso
agressivo, empreendedor e competitivo por outro com pensamentos e falas
opostas, mais humanistas.
De onde será que vem esta mudança? Será
que alguma lei natural lhes trouxe alguma aprendizagem mais significativa? Será
que todo o poder que alguém conseguiu, finalmente, foi barrado pelo fim
implacável da jornada terrena e nada pode ser feito? Afinal, quando começa o
cinismo e quando ele acaba ou é atenuado no comportamento humano?
Existe um grande neurocientista da
atualidade que sempre nos pergunta: na natureza, quem é mais importante —
nós, seres humanos, ou as minhocas? Sua resposta é brilhante, pois, ao explicar
como as minhocas arejam o solo, permitindo o fluxo de ar nos macro e
microporos, as bactérias fixadoras de nitrogênio gasoso conseguem nutrir as
plantas para produzirem proteínas, a base da biologia. Sem proteínas, nem nós,
os maiorais, existiríamos.
Da mesma forma, podemos imaginar o que
funções pouco valorizadas no mundo, como as dos recolhedores de lixo, de quem
trabalha nos setores mais sujos, pesados e perigosos e de quem trabalha com
educação significam para o todo da existência humana. Neste aspecto, o fato de um
jovem se sentir ofendido em ser educado para jogar uma casca de bala no lixo, e
não na rua, é o início do cinismo. O lado oposto, a troca de discurso, só vem
quando a pessoa compreende e adquire a consciência de que algo importante para
toda a coletividade está contido em um simples ato de jogar o lixo no lixo.
Quanto nos custa doar um pouco de nosso esforço para outras pessoas?
O ego do vencedor
Também conhecemos pessoas que jamais
admitem derrotas, jamais admitem erros e fracassos, como se isto lhes
empurrasse para a última classe humana. Embora seja assim mesmo para a grande
maioria dos adeptos do discurso do vencedor que nunca conheceu uma derrota —
uma ilusão do ser humano coisificado —, esta crença é uma das maiores causas da
vaidade, da hipocrisia e da bravata que, para se sustentarem, basicamente,
basta mentirmos para nós mesmos e para todo mundo.
Isto é aterrorizante para nossos
jovens. Não trabalhar o conceito de humanidade leva-os a acreditarem em padrões
matemáticos impossíveis de serem atingidos, mas carregados de culpa, de
mortificações, de estigmatizações e, infelizmente, de manipulações ideológicas
que nutrem o medo por meio das ilusões da felicidade eterna, da riqueza que
compra tudo, do status da fama e das grandes celebridades, ovacionadas pelo
mundo do consumismo. O resultado disso é o incentivo à construção de egos de
vencedores falsos, irreais, desumanos e, para quem já viveu um pouco mais,
ridículos.
A matemática do sucesso ou fracasso
casa bem com o mundo binário, que não permite algo intermediário entre o sim e
o não. A simplificação da vida em dois conceitos é uma prova do empobrecimento
mental e espiritual do ser humano moderno. Mas, para além da compreensão deste
ensaio, seria possível recomeçarmos uma nova consciência, um novo discurso, de
fato, contributivo? Pelo menos, poderíamos nos dar a liberdade de pensar mais
sobre nossos problemas existenciais mais críticos? Na existência, talvez nem
vencedores nem perdedores, mas o ego das minhocas seja a virada de chave.
Esclarecimentos
Quem costuma se fixar no conformismo
não é aquele que reflete sobre as naturais quedas ao longo da jornada, nem
aquele que aceita os altos e baixos da vida, com dignidade. Será possível que
alguém que caçoe jocosamente dos tropeços de alguém nunca tenha caído? Será que
existe um vencedor nato ou um egoísta nato que nunca coloca outra pessoa em
nenhuma instância de sua vida? Nós, ou quem já teve o privilégio de ser
responsável por cuidar de outras pessoas, estamos perdendo na vida? Quem está
certo: aquele que diz estar sempre ocupado ou aquele que abre espaço para
pensar, de fato, em doar um pouco da própria existência para outras pessoas?
Portanto, talvez o conformista seja
aquele que aceita as regras de um jogo perdido e mórbido — embora bonito de se
ver na TV — e que não apenas se deixa levar pelas ilusões, mas também pelas
próprias mentiras que sustentam seu ego, construído para ser um “case de
sucesso” mundano. Apenas precisamos esclarecer que não somos obrigados a rezar
a missa desses padres, seguir a cartilha desses que se dizem ser os maiorais,
pois sequer sabem o que é o trabalho das minhocas para a vida.
Conclusão
Superar o "jogo mórbido do
sucesso" exige uma insubordinação mental contra a lógica binária que
divide o mundo apenas entre vencedores e perdedores. Enquanto o cinismo
contemporâneo nos treina para olhar apenas para o próprio umbigo, a verdadeira
virada de chave está em valorizar o essencial e invisível, a exemplo do
trabalho silencioso das minhocas que sustenta a própria vida. Para não nos
desumanizarmos no topo, precisamos rejeitar os discursos vazios, assumir nossa
responsabilidade coletiva e tomar a decisão mais urgente na floresta da
existência: a de sermos, finalmente, gente de verdade.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1. O
que significa ser "violento" no contexto do sistema criticado no
ensaio?
Significa
adotar um modo de ser agressivo, combativo e extremamente focado na eficiência
e no lucro, a ponto de passar por cima das fraquezas alheias para se manter
totalmente integrado à selvageria do mercado.
2. Por
que o autor discorda de que quem não se adapta a esse regime
"violento" é um fracassado?
Porque,
desde jovem, o autor percebeu que a sujeição a esses padrões lógicos frios e à
premissa de que a "lei do mais forte" rege a vida não faz sentido
para uma existência que se deseja completa e profunda em significados.
3.
Qual é o cinismo associado ao uso do primeiro salário ou rendimento?
O
cinismo reside na retórica social de que cada um deve cuidar apenas de si. Na
prática, isso se reflete no fato de que raramente as pessoas se dispõem a
sacrificar ou compartilhar esse primeiro ganho financeiro em prol de outras
pessoas.
4. É
realmente difícil colocar as necessidades alheias em primeiro plano?
O
autor argumenta que fechar os olhos para o próximo e focar apenas no próprio
futuro é, na verdade, muito fácil. O verdadeiro desafio (e o que exige
maturidade) é compreender que podemos e devemos priorizar algo além do nosso
próprio ego.
5. Por
que algumas pessoas de sucesso decidem abandonar o discurso competitivo por um
viés mais humanista?
Essa
mudança costuma ocorrer quando o indivíduo percebe o fim implacável da jornada
terrena. Diante da morte, todo o poder e riqueza acumulados perdem a utilidade,
forçando uma aprendizagem existencial mais profunda.
6.
Como a metáfora das minhocas demonstra a fragilidade da soberba humana?
Embora
os seres humanos se considerem "os maiorais", a biologia prova que as
minhocas são essenciais: ao arejarem o solo, elas permitem que bactérias nutram
as plantas e produzam proteínas. Sem esse trabalho invisível, a humanidade
sequer existiria.
7.
Onde se inicia o cinismo na educação das novas gerações?
O
cinismo começa em pequenos gestos cotidianos, como quando um jovem se sente
ofendido ao ser educado para jogar uma simples casca de bala na lixeira e não
na rua. A superação disso só ocorre quando se adquire a consciência de que
pequenas ações individuais impactam diretamente toda a coletividade.
8.
Quais são os perigos de inflar o chamado "ego do vencedor" nos
jovens?
Isso
os aprisiona a padrões matemáticos e estigmas irreais de felicidade eterna e
riqueza absoluta. O resultado é uma juventude sobrecarregada de culpa, vaidade
e hipocrisia, que precisa recorrer a mentiras para sustentar aparências
desumanas e ridículas.
9. Por
que a divisão rígida entre "sucesso ou fracasso" empobrece o ser
humano?
Porque
ela reduz a complexidade da vida a um sistema puramente binário (como o
"sim" e o "não"), impedindo qualquer nuance intermediária e
limitando o desenvolvimento mental e espiritual da sociedade moderna.
10.
Quem é o verdadeiro "conformista" segundo o texto?
O
conformista não é quem aceita dignamente os altos e baixos naturais da jornada.
O verdadeiro conformista é aquele que aceita as regras desumanas de um jogo
social mórbido (mas bonito na TV) e se deixa guiar pelas mentiras e ilusões
necessárias para se manter como um "caso de sucesso" artificial.
Para
visualizar essa reflexão de forma mais imersiva, convido você a assistir ao
vídeo AQUI
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© 2026 Marcio Ueda. Conteúdo original protegido pela Lei 9.610/98. Proibida a reprodução integral.

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