A constância como caminho
A vida é o que é
Talvez, o maior luxo que uma pessoa possa
usufruir nesta vida moderna seja poder utilizar o tempo para observar,
silenciar a mente e conversar com sua voz interior. Isto é um luxo pois, no
cotidiano, a maior parte de nós se sente obrigada a seguir um ritual de compromissos,
projetos e coisas menores como cronogramas e busca de mais ocupações além das
que gostaríamos de assumir, verdadeiramente.
Entretanto, se tomarmos como perspectiva
inicial a de que buscar paz interior significa fugir da realidade ou
conformar-se com tudo, estaríamos cometendo um grave erro. Nosso silêncio,
neste contexto, não é um vácuo, mas um momento de reencontro com nossa
essência. É o erro de deixarmos de ser quem somos diante do universo de
aprendizagens para o qual fomos destinados pela existência. No cerne, mesmo que
nem busquemos o conhecimento, até a inexistência dele nos ensina o quanto a
ignorância nos induz a pensar de forma errática. A ignorância é o ruído que
impede a audição da voz do silêncio.
Mesmo que não existamos mais neste mundo, ele
continuará a atuar pelas leis naturais, apresentando toda sorte de eventos que
transpassarão pela vida de cada pessoa vivente, trazendo-lhes aquilo que o ser
humano é capaz de sentir. O que pode restar de nós é a história de como
vivenciamos cada um dos eventos de nossas próprias vidas e, assim, mesmo para
um desatento, as marcas pessoais serão deixadas na areia, único testemunho de
nossas missões, como fugazes provas de que um dia passamos por esta terra.
No silêncio íntimo de cada um de nós,
conversamos com angústia das lutas, dos desafios e das interações interpessoais
que nos movem em direção aos nossos destinos, mesmo sem sabermos como ele será.
A dúvida pode nos massacrar tanto quanto nossas conquistas e chegadas aos
objetivos mundanos, que um dia nada significarão para quem não nos conheceu. É
como se nossas vidas terrenas fossem feitas para serem rapidamente dissolvidas
ao longo dos tempos e, por isso, nos remetemos a pensar em nossa pacificação
interior.
Mas, a vida não é tão simples assim! É isto o
que os ecos da consciência nos dizem, quase gritando: você existe, você é, não
deixe a vida passar sem ser vivida, sem ter aprendido as lições mais
importantes para o seu desenvolvimento, para o seu entendimento, para o seu
significado e evolução pessoal.
Não viemos para mudar o mundo
O mundo em si se transforma de forma incontrolável,
mesmo que queiramos assumir as rédeas. Como todo o nosso planeta sofre as consequências
das ações humanas, provindas de pensamentos humanos e em uma continuidade no
espaço e no tempo, não há como voltar ao passado para corrigir rotas e escolhas
erradas. Quando algo está voltado para melhorar daqui para a frente é porque já
colhemos os frutos do erro.
Mesmo que uma parte da humanidade viva em
pleno esforço para corrigir falhas e erros, corrigindo ou recomeçando
processos, nada impede que haja retrocessos, nem que outra parte da mesma
humanidade trabalhe em sentido oposto ao que seja, teoricamente, melhor. O
melhor é relativo quando tratamos de desejos e vontades humanas. É este o
motivo pelo qual as sociedades se dividem em refúgios da conveniência, os quais
são determinantes no caráter incontrolável das realizações humanas.
Entretanto, se há uma grande probabilidade de
que a humanidade cometerá mais erros ao longo da história, o que nossa
testemunha silenciosa nos fala sobre isto? Será que devemos adotar ideologias,
dogmas e paradigmas que nos conforte e nos dê pertencimento grupal, apenas para
não nos sentirmos perdidos? Por acaso, existiu alguma filosofia ou conhecimento
humano que elucidasse todas as incertezas sobre nossa caminhada até o fim dos
tempos?
Nossa existência interior não fala a língua
desta terra, quando nos revela padrões e ciclos universais, como, por exemplo, a
lei do equilíbrio e da compensação, que não toleram monopólios, unilateralidade e
rigidez conceitual. A forma como enxergamos a vida em si depende de nossas
fases de desenvolvimento cognitivo e interpretativo e do tempo que dedicamos a
ouvir o murmúrio de nossa essência durante a reflexão.
A certeza dá lugar ao indecifrado, o ciclo
das dores e das alegrias se revelam como os dois lados de uma mesma moeda,
inseparáveis. Nossa dificuldade e sofrimento é proporcional ao apego que
cultivamos pelas coisas materiais, por pessoas, por status e aparências. Então,
o mundo não muda efetivamente, apenas cumpre sua parte em nossa própria
transformação interna e forma de vê-lo. A mudança ocorre na verdade pela
mudança da lente através da qual o enxergamos. Mas, será que o que vemos é
somente feiura e desesperança ou angústia?
A paz é uma escolha pelo melhor
Quem anseia pela felicidade, muitas vezes, não
percebe que ela será alternada com a infelicidade. O ganho terá seu valor, quando
soubermos o que é perda, e tudo o que pensarmos poderá desequilibrar nossas
vivências destes opostos, caso não percebamos que, talvez, o maior sentido destas
vivências seja encontrarmos nossa paz pelo enfrentamento sincero, disciplinado e
esforçado para elevar nossa capacidade e nossos melhores talentos.
Se a realidade concreta reflete os dois lados
de uma mesma moeda, quem trabalha para desenhar cada uma destas faces? Nosso
ser mais íntimo nos diz que ambas precisam coexistir, mas nada nos obriga a
apagar qualquer uma delas. Isto é compatível com a ideia que não podemos criar
a moeda, mas que podemos polir suas faces, contribuir para o equilíbrio e para que
sejam realçadas, para refletirem aquilo que trazemos conosco para existir, seja
de um lado ou de outro, e que nos traga mais discernimento e sentido de
propósito para conosco e para o nosso próximo.
Talvez, poder enxergar algum traço de nós
mesmos refletindo na vida de outras pessoas em nosso entorno, seja de um lado
ou de outro da moeda, seja exatamente o que precisamos melhorar, equilibrar e,
quem sabe, deixar como nossa marca pessoal e não para agradar ou desagradar um
público, mas para nos permitir cumprir nossa missão, partir e deixar a paz no
lugar por onde passamos.
O passo contínuo de nossa existência
Quando encontramos um ritmo próprio, estamos
respeitando a nós mesmos, sem precisar ceder às seduções mundanas da pressa e
do consumismo, assim como as plantas, que precisam passar cada etapa de seu
ciclo natural, nos exemplificando que não há botões ou mecanismos artificiais
que a obriguem a seguir um ritmo incompatível com sua própria natureza.
No ritmo lento e cadenciado de quem procura
escrever a própria história, a introspecção não é um recurso revolucionário,
mas um reflexo natural de quem ousa parar no tempo e escutar a própria voz
interior. A angústia diante da vida moderna, tão apressada e cheia de buscas
pela interminável satisfação de desejos e vontades mundanas, é um sintoma de
que esta vida artificializada não reflete nossas mais profundas necessidades
existenciais. Precisamos de tempo para nos dedicar, passo a passo. A paz deste processo
não é o objetivo final, mas o reflexo do próprio ritmo de crescimento.
A vida em sobressaltos, a passos largos que
nossas pernas não alcançam, são demandas absurdas, incompatíveis com nosso
próprio equilíbrio. Não há como pular etapas, não há atalhos para nossa
evolução, e, quanto mais apressarmos o processo, mais imperfeita será nossa
caminhada para alcançá-la. Talvez não a alcancemos nesta vida, mas é impróprio impedir, sabotar, atrasar o processo colocando mais empecilhos no
caminho, além daqueles que já nos são destinados vivenciar.
Se assim pudermos considerar, podemos
escolher entre desistir desta evolução e ceder às pressões da angústia, ou, o
contrário, escolher prosseguir o caminho iniciado em nosso nascimento neste
mundo. Caminhando cada dia, um dia por vez, rumo ao nosso melhor possível,
aprendemos que podemos atingir patamares existenciais mais elevados, onde a
angústia natural da realidade artificial não alcance nossa paz e nossa
essência.
Conclusão
Compreender a voz do silêncio é, portanto,
aceitar que a verdadeira revolução não ocorre no mundo exterior, mas no
polimento contínuo de nossa própria lente. Ao silenciarmos o ruído da pressa
para honrar o ritmo de nossa essência, transmutamos a angústia em
discernimento. Assim, a paz deixa de ser uma meta distante para tornar-se o
rastro sereno de quem, ao caminhar com integridade e paciência, transforma sua
existência em um testemunho de propósito, ecoando muito além das fugazes marcas
deixadas na areia.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1. O que o autor considera como o "maior
luxo" da vida moderna?
O maior luxo é a capacidade de dispor de
tempo para observar, silenciar a mente e estabelecer um diálogo com a própria
voz interior, distanciando-se do ritual obrigatório de compromissos e ocupações
mundanas.
2. Buscar a paz interior é uma forma de fugir
da realidade ou de se conformar?
Não. O autor esclarece que buscar a paz não é
um vácuo ou fuga, mas sim um momento de reencontro com a essência e com o
universo de aprendizagens ao qual cada indivíduo é destinado.
3. Qual é o papel da ignorância na busca pelo
silêncio?
A ignorância é descrita como um
"ruído" que impede a audição da voz do silêncio, induzindo o
indivíduo a pensar de forma errática.
4. O que significam as "marcas na
areia" mencionadas no texto?
As marcas na areia são o testemunho fugaz de
nossa passagem pela Terra. Elas representam a história de como vivenciamos os
eventos da vida e são a prova de nossas missões e propósitos.
5. Por que o autor afirma que "não
viemos para mudar o mundo"?
Porque o mundo se transforma de forma
incontrolável e sofre as consequências acumuladas das ações humanas no tempo. A
mudança efetiva não ocorre no mundo exterior, mas sim na "lente"
através da qual o enxergamos.
6. Como funciona a metáfora da "moeda de
duas faces"?
A vida é composta por ciclos inseparáveis de
dores e alegrias, ganhos e perdas. Embora não possamos "criar a
moeda", temos a capacidade de "polir suas faces", buscando
equilíbrio e discernimento no enfrentamento dessas dualidades.
7. Qual a relação entre o sofrimento e o
apego?
Segundo o texto, a dificuldade e o sofrimento
humano são proporcionais ao nível de apego que cultivamos por coisas materiais,
status, aparências e até mesmo por pessoas.
8. O que o ciclo das plantas nos ensina sobre
a existência humana?
As plantas exemplificam que cada etapa de um
ciclo natural deve ser respeitada. Elas mostram que não existem "botões ou
mecanismos artificiais" que obriguem a natureza a seguir um ritmo
incompatível com sua essência, assim como nós devemos respeitar nosso próprio
ritmo.
9. A paz interior é um objetivo final a ser
alcançado?
Não exatamente. O autor define a paz como o
reflexo do próprio ritmo de crescimento e um "rastro sereno" de quem
caminha com integridade e paciência, e não meramente como um destino final.
10. É possível apressar a nossa evolução
pessoal?
Não, pois não existem atalhos ou formas de
pular etapas na evolução humana. Quanto mais se tenta apressar o processo
através de demandas absurdas ou "passos largos", mais imperfeita se
torna a caminhada.
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