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RESULTADOS UTILITÁRIOS: a eficiência no lugar da expressão do ser

Mãos envelhecidas e cuidadosas de um agrônomo seguram um punhado de solo escuro, úmido e fértil, onde raízes delicadas e uma pequena minhoca aparecem entre a matéria orgânica. Um broto verde cresce no centro, iluminado pela luz dourada da manhã, enquanto o fundo desfocado mostra a transição de um campo frio para um agroecossistema biodiverso.

Agronomia e a proficiência ética humanista

 

A lógica do reducionismo

Uma das formações mais completas, em nível profissional, no sentido de mercado de trabalho é a agronomia. Dizem que para um professor chegar ao seu melhor desempenho em ministrar uma aula leva em torno de 5 anos. Um agrônomo leva em torno de 20 anos para ser considerado alguém com alta proficiência geral, em nível de altas habilidades e competência para lidar com o universo composto pelo solo, plantas e o ambiente. A maturidade profissional só é plenamente alcançada quando o conhecimento técnico se funde a uma sensibilidade ética e humana.

Isto não significa que proficiência é o momento de parar de estudar, de manter o fio condutor da aprendizagem lá do início da formação. Cada profissional, naturalmente, possui seu método de interpretação, seu pensamento agronômico que, por sua vez, é formado pela qualidade de convivência, de interações com outros profissionais e, embora possa parecer ilógico, de uma perspectiva ética sobre a vida.

Na era da velocidade, dos avanços da produção em escala, nosso poder de coletar dados e transformá-los em tendências, padrões de comportamento e aumento de chances de acerto em recomendações técnicas pontuais, para uma área milimetricamente determinada e variações específicas de solo, planta e clima trouxeram uma assertividade muito maior do que o processamento de ótimos e poucos grandes profissionais puderam registrar e deixar como legado. Entretanto, foram estes grandes profissionais, cientistas e humanistas que mais contribuíram para manter a beleza da profissão Agronomia.

 

A ilusão da proficiência tecnológica

No mundo acadêmico, o que mais me chamou atenção na graduação foi o conhecimento da vivência compartilhada de grandes nomes da área, não pelos títulos e doutorados do currículo, mas pela trajetória de compreensão do próprio fazer. Um dos casos mais marcantes para mim, foi ouvir alguém que, na lógica reducionista e utilitária empenhou-se por muito tempo ao manejo químico da agricultura.

Sua percepção, que depois passou a ser sua filosofia de vida, foi incentivar a pesquisa sobre a complexidade dos agroecossistemas – sistemas naturais modificados pelo homem para produção de alimentos –, e a necessidade de contemplar a biodiversidade, a matéria orgânica para restaurar o solo e que contribuiria para o que, hoje, chamamos de sustentabilidade da produção.

A quebra da lógica reducionista tem como principal base a visão do solo como um organismo vivo, repleto de interações e as relações do mesmo com a cobertura do solo, com as populações predominantes nos agroecossistemas, comparadas com os sistemas naturais originais. Isto acabou evoluindo para os atuais sistemas de plantio direto, da implementação de tecnologias de alto impacto positivo na biodiversidade como os consórcios entre plantas de diferentes espécies, na rotação de culturas, na adubação verde e, atualmente, no bem-vindo estabelecimento do controle biológico de pragas e doenças.

Nenhum software ou dispositivo tecnológico foi capaz de impedir a promiscuidade do mercado de produtos químicos, os impactos ambientais das moléculas químicas nos alimentos e na contaminação ambiental. Dar tempo à recuperação da fertilidade e aumentar a resiliência biológica do agroecossistema era conversa de “bicho grilo”. A falta de consciência ecológica, no entanto, permitiu que Países periféricos fossem alvos de descarte de produtos proibidos em outros no século passado, onde seu uso foi definitivamente ligado à permanência de princípios ativos no solo, com elevado potencial poluidor.

Assim, a vivência de mais de 20 anos de agronomia levou muitos grandes profissionais da agricultura química a compreenderem as consequências de somente seguirem regras de um jogo mais voltado para o lucro pelo lucro, do que para manter os recursos naturais e a vida envolvida no meio agrário, inclusive, nós seres humanos, que fazemos vistas grossas para pequenos produtores e para a fome e falta de recursos de quem produz alimentos, de fato.

Em resumo, façamos algumas perguntas: faltou formação ética? Faltou visão sistêmica? Faltou visão humanista? Quem disse que é natural as ciências exatas e biológicas apenas desenvolverem a indústria, sem comprometimento com o futuro das próximas gerações? Será que ter uma pick-up último modelo na garagem nos elide da responsabilidade de ter difundido o reducionismo tecnológico, só porque sustentamos o título de doutor em não sei o quê?

 

A superação não é gratuita

Após esta reflexão crítica, o mais importante a frisar é como aprendemos com os erros. Ninguém se oporia a discursar contra as regras predominantes de sua época, pois era isso que garantia a chamada revolução verde, cujo resultado foi o aumento da produtividade agrícola. Também, sem a análise dos efeitos e consequências de nossa visão reducionista, pelas grandes mentes da área, os rumos da tecnologia ainda estariam assentados em fios condutores menos éticos e responsáveis.

Ainda há muitas pessoas que discursam ser quem carrega o país por produzir em altos volumes e contribuir para o PIB. No entanto, quando o assunto é o pequeno produtor, a agricultura familiar ou o combate à pobreza no campo, a busca por dignidade se torna problema dos outros. Não é esse o legado que a sabedoria geracional da terra nos deixou.

Uma das frases mais bonitas que já ouvi em minha área foi: não existe terra ruim, mas sim, terra malcuidada – um pensamento, uma filosofia de vida atrelada ao amor pela terra e muita profundidade sobre o conceito de solo vivo –, uma afirmação que exige, no mínimo, humildade e gratidão pelo recurso emprestado pelo Grande Criador da vida.

Ser um profissional humanista não significa negar as regras do jogo — do ganha e perde que sustenta o sistema —, mas ter a capacidade de enxergar e implementar mudanças operacionais, mesmo que pareçam ir contra os fundamentos aprendidos na academia. Essa Universidade, cujo propósito original foi esquecido há muito tempo, não deveria servir à mera titulação que enche os olhos da sociedade, mas sim saber muito mais sobre como dar condições de vida para uma simples minhoca em nossos agroecossistemas.

 

A Resiliência do Olhar Humanista

Enquanto houver grandes cientistas e pesquisadores humanistas, melhor para nós mesmos. Com certeza, críticas existirão, resistências aparecerão e, desde sempre, pessoas com coragem de verem o mundo ao seu modo, serão desdenhadas pelo sistema, minimizadas pelos detentores do poder ideológico predominante.

A humanização tem este grande custo, para quem a escolhe. Nunca foi e jamais será fácil ter opinião e foco naquilo que leva à real proficiência. Ser um bom profissional não é somente ganhar dinheiro, mas deixar um legado ou, minimamente, honrar o sangue, o suor e as lágrimas de quem foi massacrado pelo discurso reducionista – mais fácil de ser aprendido – que escolheu percorrer sua jornada de aprendizagem, por muito tempo de vivência, experiência e reflexão.

 

Conclusão

A proficiência ética humanista na agronomia consolida-se na superação do reducionismo utilitário e no resgate da nossa relação de cuidado e reverência com a terra. Ela nos convoca a ir além da métrica fria do lucro e da tecnologia pura, direcionando o conhecimento técnico para acolher a complexidade biológica do solo e a dignidade humana de quem nele trabalha. Somente ao integrarmos a sensibilidade ética à competência prática é que honramos o legado dos que nos antecederam e assumimos a verdadeira responsabilidade de manter viva a beleza essencial da nossa profissão.

 

PERGUNTAS E RESPOSTAS

1. Quanto tempo leva para um agrônomo alcançar a alta proficiência geral e o que de fato a consolida?

Um agrônomo leva em torno de 20 anos para ser considerado alguém com alta proficiência geral, competência e habilidades para lidar com o solo, as plantas e o ambiente. Essa maturidade profissional só é plenamente alcançada quando o conhecimento técnico se funde a uma sensibilidade ética e humana.

2. A proficiência significa que o profissional atingiu um ponto de parada em seu aprendizado?

Não. A proficiência não é o momento de parar de estudar ou de abandonar o fio condutor da aprendizagem iniciado na formação. O pensamento agronômico de cada profissional é continuamente formado pela qualidade de sua convivência, pelas interações com outros colegas de profissão e por uma perspectiva ética sobre a vida.

3. Como o avanço tecnológico de coleta de dados se compara ao legado deixado pelos grandes profissionais?

Na era da velocidade e da escala, softwares e algoritmos trazem uma assertividade milimétrica e imediata nas recomendações técnicas de solo, planta e clima. Contudo, essa assertividade tecnológica não substitui o legado humano: foram os grandes profissionais, cientistas e humanistas que de fato mais contribuíram para manter a beleza da Agronomia.

4. Que mudança prática de visão é exemplificada pela trajetória do profissional que atuou no manejo químico?

Após anos dedicados ao modelo convencional, ele compreendeu a necessidade de romper com o reducionismo utilitário para incentivar a pesquisa sobre a complexidade dos agroecossistemas, a biodiversidade e a importância da matéria orgânica para restaurar o solo e garantir a sustentabilidade da produção.

5. Quais práticas práticas e tecnologias surgem quando passamos a ver o solo como um organismo vivo?

Essa quebra da lógica reducionista fundamenta o desenvolvimento de sistemas como o plantio direto, consórcios de plantas de diferentes espécies, rotação de culturas, adubação verde e o uso do controle biológico de pragas e doenças.

6. Que denúncia o texto faz sobre o mercado de insumos químicos e a consciência ecológica?

O texto denuncia a promiscuidade do mercado de produtos químicos e aponta que a falta de consciência ecológica permitiu que países periféricos fossem alvos de descarte de defensivos agrícolas proibidos em outras nações no século passado, resultando na permanência de princípios ativos poluidores no solo.

7. Qual é a crítica feita pelo autor em relação à vaidade no meio acadêmico e profissional?

O autor questiona se ter uma pick-up de último modelo na garagem ou sustentar o título de doutor exime o profissional de sua responsabilidade ética perante a difusão do reducionismo tecnológico, alertando para a frequente falta de visão sistêmica, humanista e comprometimento com as futuras gerações.

8. Como o texto contrasta o discurso econômico do PIB com a realidade social do campo?

Muitos discursam que "carregam o país" devido aos altos volumes de produção e à contribuição para o PIB. No entanto, ignoram a agricultura familiar, os pequenos produtores e a pobreza no campo, tratando isso como "problema dos outros" — uma postura que vai contra a sabedoria geracional deixada como legado.

9. Qual é o propósito original de uma Universidade segundo o ensaio?

O propósito original da Academia ou Universidade não deveria ser a mera titulação acadêmica para inflar o ego social, mas sim a geração de conhecimento prático voltado a sustentar a vida em sua base, exemplificado de forma simples em saber "como dar condições de vida para uma minhoca" nos agroecossistemas.

10. Qual é o custo existencial de escolher o caminho da humanização na agronomia?

Escolher a humanização e a proficiência ética exige coragem para enfrentar críticas, resistências e o desdém de um sistema desenhado apenas para o lucro e a eficiência mecânica. Significa trilhar uma jornada mais longa de vivência e reflexão para deixar um legado real e honrar aqueles que foram historicamente massacrados pelo discurso reducionista.

 

Para visualizar essa reflexão de forma mais imersiva, convido você a assistir ao vídeo AQUI

 

 

 

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