O Legado Coletivo e a Interdependência Humana
Autonomia de Escolha frente às Pressões do Mercado
Se há algo mais necessário que a sobrevivência,
seria o desfrute da vida com plenitude existencial. No bom sentido, haveria uma
relação de dependência entre a nossa capacidade de sobreviver por nós mesmos,
no que tange ao básico para nos mantermos vivos, protegidos e seguros e a outra
parte da vida que seria usar nosso poder relativo de escolha e nossa capacidade
de realização de uma missão especial.
Atualmente, porém, a saturação informacional
e a aceleração das comunicações tendem a restringir a nossa capacidade de
realização individual, onde somos influenciados por estratégias de marketing, que
nos levam a nos preocupar com interesses de um jogo, em mãos daqueles que detém
o poder de formar opiniões massivamente.
Este jogo envolve um conjunto de valores e
princípios puramente mercantilistas. Por isto, os questionamentos que
precisamos fazer neste contexto seriam: Somos livres para fazer nossas escolhas,
mas as opções são construídas por nós mesmos? As relações sociais, o jogo de
poder e posse predominante possibilitam que as missões existenciais de cada um
se realizem? Há como enxergar novas possibilidades de se viver neste mundo, sem
a negociação de nossas emoções e sentimentos humanos? Como nossas novas
gerações encontrarão sentido existencial, em uma matriz globalizada de assimetria
nas relações de poder e trabalho?
O Paradigma Operacional e os Limites da Lógica Utilitarista
No sentido da completude que podemos
imaginar, sonhar e desejar existe uma travessia obrigatória para a maioria de
nós. Esta travessia significa encontrar, antes da completude, a própria
sobrevivência e alcançar inserção e estabilidade neste mundo, pois ela é consequente
de um modelo de competição excludente que não contempla, de fato, humanidades.
Existe um paradigma gerador de crenças,
valores e princípios que não tem interesse em mudar um sistema focado
estritamente em resultados operacionais e utilitaristas, que apenas adquire
roupagens novas e aparências de humanidade. A sobrevivência neste mundo é uma
necessidade básica real, mas totalmente submissa a um desenvolvimento
societário engessado e insustentável, que afeta as convivências humanas e a
nossa capacidade criadora para a vida que precisamos viver.
Não é o intuito desta reflexão, discutir o
mérito da relação do opressor e do oprimido, do ganha e perde que sustenta a
lógica predominante do sistema, mas procurar uma brecha para refletirmos sobre
a flagrante minimização do pensamento humano, cuja elevação nos ligaria melhor
ao fluxo da vida humana, e não apenas aos processos e à perpetuação de uma
matriz mental puramente operacional, que só recrudesce nossa própria automação.
Educação Profissional: Da Técnica à Consciência Crítica
A necessidade de saber fazer para sobreviver
é uma luta intrínseca qualquer um de nós e isto independe de posse e poder
mundano. Os mais poderosos do mundo dependem, e muito, da participação e
colaboração do coletivo e não seriam ninguém sem o jogo estabelecido de
sobrevivência mundana.
Assim, nossas novas gerações aprendem novos
ofícios, novas tecnologias e novas formas de manter o ciclo do sistema girando.
Entretanto, a grande disparidade evidente entre a promessa de ascensão e a realidade do
mercado é que a profissionalização não é um caminho garantido de enriquecimento
material para todos. Entender o jogo é uma parte da formação, mas há também um
viés humanizador necessário para uma formação mais completa.
O conflito gerado por este jogo é que muitos “ganhadores”
são mais dignos ou mais virtuosos que outras pessoas, por saberem usar ou
manipular talentos e capacidade criativa alheios! É mais fácil acreditar na
meritocracia quando se parte de um nível de sobrevivência superado, o qual,
neste contexto, é uma realidade para poucos.
Assim, a responsabilidade da educação
profissional não seria apenas instrumentalizar nossos jovens, mas capacitá-los
a sobreviver em um mundo cheio de narrativas ilusórias de sucesso e estratégias
persuasivas de consumo e comportamento. O conhecimento deveria superar o viés
instrumental e gerar uma leitura de mundo, inclusive, para não repetir erros
históricos da humanidade, no que toca à repetibilidade da ganância, do egoísmo
e da prepotência humana.
Neste contexto, o princípio educativo do
trabalho, do ponto de vista humano, seria a conquista de conhecimentos básicos
para reconstruir o mundo a partir do domínio dos fundamentos essenciais para a reconstrução social e técnica,
independentemente de crises estruturais. A questão é que o utilitarismo e a
meritocracia colocados como profissionalização, não passam de discursos
ideológicos que não atendem, de fato, a esta capacidade de reconstrução, pois
este não é o objetivo do grande jogo.
O grande jogo e suas regras são insustentáveis
do ponto de vista humano, pois as tecnologias que favorecem o jogo de domínio do homem sobre
o homem não contemplam a ética básica da honestidade. O pensamento humano
elevado não coaduna com a capacitação do ser humano para ser miserável, prepotente
ou arrogante, mas abre a perspectiva para alavancar a riqueza da existência
humana ao invés de perpetuar a escassez da simples sobrevivência mundana.
Tecnologia e Ética: Perspectivas para um Desenvolvimento Humano Integrado
Neste breve ensaio, talvez possamos imaginar
o que seria um avanço humano com propósito existencial. Um mundo em que a
tecnologia nos servisse para aprimorar valores éticos, desenvolver experiências
humanas de convivência mais pacíficas, onde o nosso próximo deixaria de ser
nosso concorrente, mas um verdadeiro parceiro de cooperação, onde o prêmio
maior fosse o benefício para todas as pessoas, sem interesses velados.
Essa humanidade ainda não existe, pois, falar
de altruísmo ou qualquer tipo de generosidade sem viés marketeiro é
praticamente risível e ridículo nos tempos atuais, o qual chamamos de tempos
modernos. Que ideia de modernidade temos hoje e qual ideia podemos construir? A
insustentabilidade do mundo operacional da sobrevivência está nos levando a um
nível de qualidade, de fato, melhor?
Uma sociedade em que nossas emoções viraram
produtos e nossa subjetividade transformada em um espaço de vulnerabilidade e
julgamento público é o mundo que desejamos de fato? O problema é que nossa
percepção de mundo e de vida se torna limitada quando aceitamos o conceito de
riqueza e valor apenas como bens finitos!
Será que nossas disposições éticas, nossa
resiliência e nosso capital afetivo devem ser geridos como recursos finitos que
se esgotam pelo uso, ou como potências humanas que se multiplicam por meio da
interação e do compartilhamento? O compartilhamento de conhecimento o diminui, ou
o potencializa?
Criar novas tecnologias não significa que
vamos possuir o sol para nós mesmos, nem que poderemos saber tudo neste curto tempo
de vida neste mundo. Primeiro porque a tecnologia nada mais é do que a extensão
de nossos corpos e mentes para gerar resultados que, um dia, estarão voltados
para o bem comum e para a vida e, segundo, porque não seremos capazes de desvendar o destino final da humanidade.
O requisito fundamental para esse avanço é: se
um dia nos lembraremos de que nossos avanços e nosso desenvolvimento
tecnológico, um dia estiveram voltados para nos permitir andar sobre a terra e aprender
a sobreviver com os recursos disponíveis, por meio do trabalho. Repetir erros
não é o objetivo maior, porém, repetir acertos não tem problema algum e é nossa
capacidade de pensar de forma livre que precisa ser potencializada pela
formação humana e não somente para nossa instrumentalização, como usuários do que aí está
posto como realidade imutável.
Conclusão
O desafio contemporâneo reside em equilibrar
a necessidade técnica de sobrevivência com a busca por plenitude existencial.
Para que o desenvolvimento tecnológico e a profissionalização não se restrinjam
a uma lógica puramente operacional, é fundamental que a educação transcenda a
mera instrumentalização e promova uma leitura crítica do mundo. Ao
compreendermos as dinâmicas de mercado e as estratégias de consumo que moldam
nossa subjetividade, podemos redirecionar o conhecimento para além do
utilitarismo. Dessa forma, a tecnologia e o trabalho deixam de ser ferramentas
de automação humana para se tornarem meios de aprimoramento ético e cooperação,
permitindo que o pensamento livre e o bem comum sejam os verdadeiros pilares de
um avanço humano sustentável.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1. Além da sobrevivência básica, o que é
considerado essencial para o ser humano segundo o texto?
O texto afirma que, mais necessário que a
sobrevivência, é o desfrute da vida com plenitude existencial. Isso
envolve a capacidade de usar o poder de escolha para realizar uma "missão
especial" de vida.
2. De que maneira a saturação informacional e
o marketing afetam a autonomia das pessoas?
Esses fatores tendem a restringir a
capacidade de realização individual, pois os indivíduos passam a ser
influenciados por estratégias de marketing voltadas a interesses
mercantilistas. Isso cria um cenário onde as opções de escolha podem não ser
construídas de forma autônoma, mas moldadas por quem detém o poder de formação
de opinião.
3. O que o autor define como a
"travessia obrigatória" no mundo atual?
A travessia obrigatória é a necessidade de
encontrar a sobrevivência e alcançar inserção e estabilidade antes de
atingir a completude dos sonhos. Essa etapa é imposta por um modelo de
competição excludente que prioriza resultados operacionais em detrimento das
humanidades.
4. Qual é a principal crítica ao paradigma
operacional e utilitarista vigente?
A crítica reside no fato de o sistema ser
focado estritamente em resultados e processos, o que acaba minimizando o
pensamento humano elevado e recrudescendo a automação das pessoas. Esse
desenvolvimento é visto como engessado e insustentável, pois afeta a capacidade
criadora humana.
5. Qual deve ser o objetivo da educação
profissional além da instrumentalização técnica?
A responsabilidade da educação é capacitar os
jovens para uma leitura crítica do mundo, permitindo que identifiquem
narrativas ilusórias de sucesso. O conhecimento deve superar o viés
instrumental para evitar a repetição de erros históricos como a ganância e o
egoísmo.
6. Por que o autor questiona a aplicação do
conceito de meritocracia no contexto atual?
O autor argumenta que a meritocracia é
frequentemente um discurso ideológico, sendo muito mais fácil acreditar
nela quando se parte de um nível de sobrevivência já superado, o que é
realidade para poucos.
7. O que caracteriza o "princípio
educativo do trabalho" do ponto de vista humano?
Caracteriza-se pela conquista de
conhecimentos básicos que permitem ao indivíduo a reconstrução social e
técnica do mundo, garantindo autonomia independentemente de crises
estruturais do sistema.
8. Como a tecnologia deve ser compreendida e
utilizada para um verdadeiro avanço humano?
A tecnologia deve ser vista como uma extensão
do corpo e da mente humana. O avanço real ocorre quando ela serve para
aprimorar valores éticos e promover a cooperação em vez da concorrência,
visando o bem comum.
9. O capital afetivo e o conhecimento são
recursos que se esgotam com o uso?
Não, o texto desafia a percepção de que a
riqueza e o valor são apenas bens finitos. Pelo contrário, as disposições
éticas e o conhecimento são vistos como potências que se multiplicam e se
potencializam por meio do compartilhamento e da interação.
10. Qual é o requisito fundamental para que a
profissionalização resulte em um avanço sustentável?
O requisito é que a educação transcenda a
técnica e promova o pensamento livre. Dessa forma, o trabalho e a
tecnologia deixam de ser ferramentas de automação e passam a ser meios de
aprimoramento ético e desenvolvimento humano integrado.
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