A reprodução do mal necessário
Nada está bom
Imaginando
se a esperança ainda é uma força motivadora ou uma mortificação do ego
produtivista, vem a lembrança recente de fatos e convivências em que o embate
ideológico, afetado por paradigmas predominantes, nos coloca diante da
reprodução de um modo engessado de escolher nossos caminhos, pessoas e bolhas
de convivência. Quando um dia me perguntaram se eu estava onde queria estar,
com a clara intenção provocativa de me dizer: "você não escolhe nada, o
mundo te impõe estar aqui", uma convicção muito forte, ao invés de se enfraquecer, se fortaleceu.
Estava
a fazer um curso cujo ingresso nos dava duas opções: usar os próprios títulos
para alcançar o nível superior da carreira ou fazer dois anos de curso com
direito a afastamento remunerado, sob o compromisso de elaborar um artigo na
área de ensino e aprendizagem. Portanto, quem não tinha a titulação fez o curso
integral; e quem não queria se dedicar aos dois anos de estudo e preferia
imediatamente validar o título, passaria direto para o próximo nível.
Minha
escolha foi fazer o curso, mesmo com a opção de não precisar me dedicar por
dois anos à rotina de estudos. Foi, portanto, uma escolha contrária ao
custo-benefício que parecia mais fácil para simplesmente “chegar lá”. A
diferença que observei foi o quanto a mortificação do imediatismo e o
enfrentamento de dois anos de trabalho, em prol do acesso a novos
conhecimentos, pode nos mover para a possibilidade de criar, ou apenas
reproduzir o que já está posto.
O
ponto a analisar neste episódio de quase vinte anos atrás é a continuidade dos
efeitos provocados em todos os caminhos percorridos por todos nós que
vivenciamos aquele momento de escolha. Uma convicção é algo muito pessoal,
validada pela caminhada solitária de cada um e, dificilmente, após certa idade,
podemos voltar atrás e tomar outros rumos.
Mas,
quando o primeiro aprendizado é aceitar tudo o que é imposto, sem opção,
normalmente acabamos desenvolvendo uma postura fatalista e vitimista, em que
nada está bom e a culpa é sempre dos outros. O mundo precisaria ser revisto
neste contexto, pois essa ideologia dos coitados falha ao endeusar o poder da
escolha humana como refém de uma força motriz reprodutora da extinção gradual
das verdadeiras aspirações humanas — dentre elas, a própria esperança em viver
um mundo mais limpo, sem tantas lamentações e sem tantas desculpas —, pois
apenas valida uma grande e bestial sentença: o mal é muitas vezes necessário e
tudo se justifica por uma imposição naturalizada da qual não podemos fugir.
As grandes vírgulas da existência
Talvez,
a partir de nossas escolhas normalmente erráticas, não percebamos o quanto isso
está sendo negligenciado na formação de nossas novas gerações e, pior, o quanto
o mundo do consumo e da reprodução da escassez tenta cobrir e engolir as nossas
aspirações vindas de nossa essência existencial — com suas ideologias. A
justificativa retórica do mundo, baseada em simplificações reducionistas como a
lei da vantagem, o custo-benefício e a lei do menor esforço, está nos levando
para uma verdadeira extinção, no sentido de esvaziamento de propósitos.
Não cabe neste ensaio discutir o lucro pelo lucro ou a exploração do homem pelo homem, nem as psicopatias do individualismo exacerbado, pois esta discussão é o pão e o circo montados que sempre moveram as massas e que, hoje, está potencializada pelo mundo do marketing e da publicidade digital em escala mundial.
Talvez
caiba uma reflexão sobre nossa gradual incapacitação diante do que está posto e
daquilo que realmente pode ser, dentro de limites óbvios que obedeçam às leis
naturais. Assim como deveríamos ter, cada um de nós, o compartilhamento de
espaço e recursos disponíveis, também deveríamos ter a real sensação de
liberdade para fazer escolhas onde o critério não seria o bestial argumento:
“quanto pior, melhor, para não fazer nada” — uma das consequências daquelas
simplificações reducionistas.
Neste
ponto, não é a matemática de dois dígitos que melhor explica ou resolve nossas
aspirações analógicas e orgânicas. O que explica a produção supérflua que move
o mundo econômico sob a tese do combate às mazelas humanas, se os interesses
que movem o grande circo montado se tornaram o nosso anestésico, ou a nossa
tábua de salvação cuja matéria é a ilusão da facilidade, do menor esforço e dos
comodismos?
Autorreprodução do mal
O mal
não é visto neste ensaio como necessário, mas como uma desculpa esfarrapada
para manter um grande circo. Todos nós, da forma mais simples possível, podemos
detectar o surgimento de pensamentos discordantes, um despertar na forma de
"anomalias emergentes" nessa grande matriz que se autorrepete e
“tenta” se manter intacta.
É mais
fácil desistir diante dessa matriz, aparentemente sólida, quando a exploração
material dos recursos naturais atende à ganância e à ambição humana, cujos
propósitos existenciais estão concentrados na figura do “eu”, e não na grande
força que possibilitou a existência desse mesmo “eu”. Sobretudo, um “eu” que se
impõe a um coletivo inegável o qual, necessariamente — conforme a tese do mal
necessário —, precisa ser um coletivo cativo, subserviente, ignorante e fácil
de ser manejado, tal como um rebanho.
Se
somos beneficiários dessa ideologia do “eu” egoísta, tudo bem, vamos nos calar.
Vamos ensinar as nossas novas gerações a perpetuar esse paradigma, vamos nos
divertir com as dificuldades alheias e vamos nos comprazer com o domínio sobre
outras pessoas. Mas não é exatamente isto a grande vírgula existencial? Esse
“eu” tão poderoso não estaria ultrajando o lugar de um Ser Superior, sem o qual
esse próprio “eu” jamais existiria? Esse “eu”, inclusive, não foi dotado de
consciência para aprender o que é a vida e saber que, sem uma grande
coletividade humana, nada seria produzido para lhe estender o tapete vermelho
do status que tanto ambiciona? Esse “eu” não está sendo o maior iludido pela
autorreprodução do mal?
Desculpas sem justificativas
Quando
alguém justifica o malfeito, a injustiça e a subserviência — porventura por ter
encontrado a sua parcial segurança seguindo os moldes do grande circo —, pode
até se achar esperto e inteligente. Entretanto, sem esforço, sem honestidade,
sem sinceridade e sem espírito coletivo, esse alguém dependerá cada vez mais de
mentiras e ilusões. Precisará defender aquilo que, interiormente, sabe que o
afasta da realidade: as suas crenças estão cada vez mais distantes desse
coletivo. É uma autossentença, uma existência feita para si, sem esperança de,
um dia, enxergar os mais belos ensinamentos e aprendizagens para os quais
viemos a este mundo.
Este
ensaio possui uma justificativa muito simples: buscar entender o papel da
esperança neste mundo e o que fazer com ela. Caso encontremos respostas, talvez
elas nos tragam mais opções de escolha, mais autoconhecimento, mais
responsabilidade e consciência. Deveríamos ter um mínimo de criticidade sobre a
petulância humana que move o grande circo, quando todos estamos sujeitos à
grande democracia da finitude. Nenhum de nós tem poder de escolha sobre ela.
Mas, além dela, também ficará uma pergunta sem resposta para aquele “eu” tão
poderoso: onde estaremos depois que tudo acabar?
Pior
que isto, talvez, seja a sensação de que não faremos mais nada além de
alimentar as nossas próprias vontades instintivas e nos divertir ao lado da
miséria, dos assassinatos, das humilhações e de tantas condições indignas de
vida daqueles que, com a nossa conivência, ainda vivem cada dia para
tentar um pão seco ou um lixo comestível.
Conclusão
Resgatar
a esperança na era contemporânea exige, fundamentalmente, a coragem de rejeitar
a inércia dos comodismos e a retórica covarde de que o mal é um fato
necessário. O escopo deste ensaio nunca foi a imposição de verdades prontas,
mas o oferecimento de um espaço despretensioso de pousio mental, onde cada
indivíduo possa avaliar as suas próprias escolhas e o rumo de sua conduta.
Quando abrimos mão da ilusão da facilidade e da produção supérflua que move a
engrenagem econômica, assumimos o brio das responsabilidades coletivas e
desarmamos a soberba do "eu" egoísta perante a grande democracia da
finitude. Ao final, a verdadeira tábua de salvação não se apoia nas fantasias
do mercado ou na publicidade em escala mundial, mas no esforço silencioso de
manter as nossas aspirações limpas e estender as mãos para construir uma
existência mais justa e fraterna. A decisão de não se calar diante das
indignidades e de buscar a autêntica emancipação da alma permanece como um
convite terno e urgente à nossa essência, desafiando a cada um a responder, em
espírito e com retidão, à derradeira pergunta sobre onde estaremos depois que
tudo acabar.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1. De
que maneira um episódio vivencial ocorrido há quase vinte anos serviu para
fortalecer a convicção do autor?
Ao ser
confrontado com a provocação de que o mundo impõe caminhos sem escolhas, o
autor optou por fazer um curso longo e enfrentar dois anos de rotina de
estudos, recusando a rota mais fácil do custo-benefício imediato. Essa
mortificação do imediatismo em prol do conhecimento demonstrou que é possível
escolher entre criar de forma autêntica ou simplesmente reproduzir o que já
está posto.
2. O
que o ensaio define como a "ideologia dos coitados" e de que forma
ela escraviza a escolha humana?
Trata-se
de uma postura fatalista e vitimista na qual o indivíduo aceita tudo o que é
imposto de forma passiva, passando a acreditar que "nada está bom" e
que a culpa é sempre dos outros. Essa mentalidade falha gravemente ao colocar o
poder da escolha humana como refém de uma inércia que extingue as verdadeiras
aspirações, como a esperança de viver em um mundo livre de tantas desculpas e
lamentações.
3.
Como as simplificações reducionistas da sociedade de consumo afetam a formação
das novas gerações?
A
justificativa retórica baseada em pilares como a "lei da vantagem", o
"custo-benefício" e a "lei do menor esforço" tenta cobrir e
engolir as aspirações que nascem da essência existencial. Esse modelo
mercantilista negligencia a formação moral dos jovens, empurrando a
coletividade para uma verdadeira extinção de propósitos.
4. Por
que o autor afirma que as discussões comuns sobre o lucro ou a exploração
humana se tornaram o "pão e circo" digital?
Porque
o ensaio defende que debater esses temas de maneira rasa e panfletária funciona
apenas como uma distração de massa. Esse mecanismo histórico de controle social
encontra-se hoje potencializado pelo marketing e pela publicidade digital em
escala mundial, agindo como um anestésico que move a multidão em alta definição
e a afasta da real autorreflexão.
5.
Qual é o papel da matemática de dois dígitos frente às aspirações analógicas e
qual o perigo da "ilusão da facilidade"?
O
texto esclarece que as estatísticas econômicas e os indicadores de dois dígitos
são incapazes de resolver os anseios orgânicos do ser humano. O sistema utiliza
essas métricas para vender tábuas de salvação ilusórias baseadas na facilidade,
no menor esforço e nos comodismos, gerando uma incapacitação gradual nas
pessoas e o esvaziamento de seus propósitos existenciais.
6.
Como o conceito de "anomalias emergentes" é humanizado no texto para
indicar um caminho de esperança?
A
anomalia emergente é explicada de forma terna como o surgimento de pensamentos
discordantes; um autêntico despertar da consciência individual no meio de uma
matriz que se autorrepete de forma mecânica. Esse despertar prova que, mesmo
sob a pressão do sistema, o ser humano é capaz de romper a conformidade
acrítica e buscar a insubordinação mental.
7.
Como a figura do "eu" egoísta lida com a grande força que
possibilitou a sua própria existência?
O
"eu" egoísta concentra todos os seus propósitos existenciais em
benefício próprio, ignorando a grande força cósmica e superior que permitiu a
sua vida. Para manter a sua ilusão de poder, esse egoísmo tenta impor-se sobre
um coletivo, desejando que este permaneça cativo, subserviente e ignorante,
como um rebanho fácil de ser manejado.
8. Por
que a coletividade humana é apontada como um elemento indispensável para o
status cobiçado pelo orgulho humano?
Porque
o texto traz a constatação lógica de que, sem o esforço e o trabalho de uma
grande coletividade humana, nada seria produzido no mundo. O orgulhoso que
exige o "tapete vermelho" do status esquece que depende inteiramente
da cooperação alheia para manter as aparências que tanto ambiciona.
9. O
que o autor conceitua como a "grande democracia da finitude" e qual o
seu impacto sobre a soberba humana?
É a
lei natural inescapável da morte, à qual todos os seres existentes estão
obrigatoriamente sujeitos, sem qualquer poder de escolha. A democracia da
finitude estilhaça a petulância e o orgulho humano que movem o grande circo,
deixando uma pergunta sem resposta para o "eu" soberano: onde
estaremos depois que tudo acabar?
10.
Qual é a grande provocação humana e ética que o ensaio deixa sobre a nossa
conivência com a miséria do mundo?
O texto nos confronta com o incômodo de que não podemos resumir as nossas vidas a alimentar vontades instintivas e buscar diversão ao lado da miséria, de humilhações e de assassinatos. O autor nos convoca a despertar da letargia, lembrando que a nossa passividade alimenta o cenário onde seres humanos ainda vivem tentando disputar um pão seco ou um lixo comestível.
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