Uma cadência difícil de acompanhar
O 1500 artigo
Desde
os primeiros artigos do blog Jornada da Escrita, usando as mesmas tecnologias
digitais que youtubers, blogueiros famosos e influenciadores — cujos objetivos
obedecem à escala dos algoritmos em função das visualizações, cliques e
curtidas —, a estreia do projeto Jornada da Escrita logo foi confrontada com o
mundo do marketing, onde qualquer assunto se torna um produto, até mesmo nossos
questionamentos, significados, aprendizagens, consciência e autoconhecimento.
Contraditoriamente
às perguntas mais comuns quando se entra no mundo digital, como: “Quanto se
poderá ganhar com esses assuntos? Quantas pessoas se interessariam em consumir
esta literatura do nicho de acolhimento? Qual o nível de competitividade da
produção e as chances de derrubar a concorrência?”, as perguntas do projeto
eram: “Será que ainda existem pessoas com vontade de refletir? Temas mais
aprofundados têm espaço no mar digital acelerado? Alguém com mais de meio
século de idade poderia deixar alguma contribuição em um ambiente
majoritariamente mais jovem?”
A
resposta, ao chegar ao 150º artigo neste projeto Jornada da Escrita, é que,
para superar estas dúvidas, a primeira coisa a compreender foi como o sistema
exerce a pressão mercadológica típica do mar digital, onde postagens são
impulsionadas conforme padrões de visualizações, engajamento ou viralização,
dependentes de técnicas de captura de visitantes e até de investimento
financeiro. Neste contexto, o projeto já estava morto antes de começar, pois
não foi idealizado para tal desempenho. Assim, por ser ineficaz nessa mecânica
de monetização, foi preciso insistir em uma cadência própria, mais fiel ao
projeto.
Memória curta e longa
Neste
contexto, esta reflexão sobre a cadência da escrita e sua atemporalidade merece
algumas perspectivas vivenciais. Tal como a natureza orgânica de nossa
existência, cuja jornada normalmente passa por um começo, meio e fim, a vida de
uma escrita também tem sua fase inicial, seu desenvolvimento e seu destino
definitivo.
Alguns
fatos da idade avançada nos provam o quão rápido podemos perder nossas
referências, conhecimentos acumulados e experiências vividas. Basta uma
enfermidade para nos fazer esquecer tudo, até os nomes de pessoas queridas ou o
que fizemos há quinze minutos. Mas algumas memórias mais distantes ainda
permanecem e, talvez, sirvam como as últimas referências existenciais, tanto
para alguém enfermo quanto para quem esteve ao seu lado. Talvez seja assim para
as nossas mensagens escritas.
Diante
disso, um “viver o agora” tão superficial frutifica em uma insignificante
memória de longo prazo, que um dia venha a nos amparar no futuro, quando não
conseguirmos mais nos lembrar onde fica a porta do banheiro de nossa própria
casa. Mas será que também não nos lembraremos de rostos amigos, de atitudes, de
conversas, de sorrisos, de alegrias e, especialmente, dos momentos mais ternos
em meio às dificuldades? Nem do amor e afeto profundo, aqueles que só podem ser
vivenciados de forma mais aprofundada, a ponto de marcar nossas almas para
sempre?
Assim,
na escrita, não seriam o charme, o estilo e a frase de efeito o que mais
importaria, nem a habilidade com que um texto foi redigido dentro das normas ou
de sua erudição. Ao contrário, o poder comunicativo das palavras escritas
estaria na transmissão de uma mensagem capaz de levar alguém a pensar sobre si
mesmo, mudando significativamente uma forma de caminhar e viver a própria
escrita da vida. Eis aqui uma ideia de atemporalidade ideal que toda escrita
deveria almejar.
O que o algoritmo jamais entenderá
Quer
seja uma escrita feita com um pedaço de carvão, quer seja um texto digitado no
computador como este, o suporte em si não possui valor perene. Porém, a
mensagem que perdura foi reescrita e a sua eficácia foi transmutada na forma,
mas não na essência. Por isso, é uma pena que a própria escrita da vida esteja
tão em baixa nos dias de hoje, pois só através de pessoas vivas a mensagem
atemporal pode ser transmitida.
Professores
e autores de diferentes linhas do pensamento humano continuam fazendo o
trabalho de reprodução dos entendimentos históricos, talvez de forma
reinterpretada, vista de uma perspectiva diferente e atualizada com o momento.
Mas, melhor do que qualquer estatística — a qual não consegue transpor
questionamentos, significados, aprendizagens, consciência e autoconhecimento
atemporais —, sobressai a vivência de vida, de fato, onde cada momento de uma
jornada une as almas.
A
escrita da vida se constitui por seres humanos que se conectaram em espírito,
que sentiram e se conduziram a uma direção, mesmo sob dúvidas, sob o desamparo
existencial e sob a efemeridade da própria vida, repleta de fatalidades
imprevisíveis, missões incompreensíveis e destinos convergentes.
Nós
todos, seres existentes ligados a um grande Ser atemporal — o qual nem todo o
conjunto de todas as nossas vidas conseguiria descrever no grande tecido da
vida —, tentamos, ao menos, deixar registrado, com retidão e deferência
autêntica, uma pequena descrição ou relato único. Que seja como uma reflexão
simples e direta, no sentido de responder
a perguntas atemporais como: quem somos? De onde viemos? E, finalmente, onde
estaremos quando ninguém mais se lembrar de nós, mas apenas daquilo que pudemos
deixar escrito?
Conclusão
Alcançar
a marca de 150 artigos na Jornada da Escrita representa, acima de tudo, um
testemunho simples de constância e respeito à capacidade humana de pausar e
refletir. O verdadeiro poder da escrita não reside na autoridade de quem assina
o texto ou em pretensiosas fórmulas de mercado, mas na misteriosa liberdade com
que cada leitor acolhe, interpreta e reconstrói as palavras a partir da sua
própria vivência. Diante da pressa mecânica que muitas vezes esvazia o nosso
cotidiano e desgasta as nossas memórias mais queridas, o registro escrito
sobrevive como um espaço despretensioso de partilha e legítima defesa da nossa
sensibilidade. O escopo deste projeto nunca foi o aplauso ou o enquadramento em
métricas de sucesso, mas sim o desejo fidalgo de estender a mão a outras mentes
inquietas, oferecendo o papel e a prosa como espelhos para as suas próprias
buscas existenciais. Ao final, a escrita é um ato de entrega e deferência: uma
tentativa humilde de partilhar o desamparo e as dúvidas com retidão, cumprindo uma
função discreta sob o tecido da vida, na esperança de que a essência humana
continue a dialogar em espírito diante Daquele que criou tudo o que nos é dado
perceber.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1. Por
que o autor afirma que o projeto da Jornada da Escrita já estava
"morto" antes de começar sob a ótica do mercado digital?
Porque
o blog não foi idealizado para atender aos padrões comerciais de monetização,
visualizações rápidas, curtidas ou viralização controlados por algoritmos. Por
ser ineficaz nessa engrenagem de marketing, o projeto precisou impor uma
cadência própria e independente para resgatar a literatura de acolhimento.
2.
Quais eram as perguntas fundamentais que moviam a estreia do blog, contrariando
a lógica comum da internet?
Em vez
de questionar lucros ou concorrência, o projeto buscava descobrir se ainda
existiam pessoas com vontade de refletir no mar digital acelerado e se alguém
com mais de meio século de idade poderia deixar uma contribuição legítima em um
ambiente majoritariamente jovem.
3.
Como o ensaio conecta o envelhecimento humano à fragilidade das nossas memórias
e referências?
O
texto lembra que a idade avançada ou uma enfermidade súbita podem nos fazer
esquecer conhecimentos acumulados, experiências vividas e até o que fizemos há
quinze minutos. Esse contraste realça a urgência de registrar as reflexões em
texto para mantê-las protegidas contra o esquecimento.
4.
Diante do "viver o agora" superficial do mundo moderno, quais são as
memórias profundas que realmente marcam a alma?
São os
momentos mais ternos vivenciados em meio às dificuldades, as conversas
profundas, os sorrisos, as alegrias, os rostos amigos e, fundamentalmente, as
experiências de amor e afeto profundo, que geram uma memória de longo prazo
capaz de nos amparar no futuro.
5.
Onde reside o verdadeiro poder comunicativo das palavras escritas segundo o
manifesto?
O poder real da escrita não está na erudição, nas regras técnicas, no charme ou
em meras frases de efeito. Ele reside unicamente na transmissão de uma mensagem
fidedigna capaz de levar o leitor a pensar sobre si mesmo, alterando
significativamente a sua forma de caminhar e viver.
6.
Qual é a grande diferença técnica entre o suporte físico de um texto e a
essência da sua mensagem?
O
suporte em si — quer seja uma escrita feita com um pedaço de carvão na
antiguidade, quer seja um texto digitado no computador atual — não possui valor
perene e se desgasta com o tempo. No entanto, a mensagem que perdura é
atemporal porque é transmutada na forma pelas pessoas vivas, mantendo intacta a
sua essência humana.
7. Por
que a vivência da vida real transcende os dados e relatórios estatísticos do
ambiente digital?
Porque
as estatísticas frias de visualizações e tráfego são estruturalmente incapazes
de transpor questionamentos, significados, aprendizagens, consciência e
autoconhecimento. Somente a vivência da vida real completa a compreensão de uma
escrita de acolhimento, agindo como a única força capaz de unir as almas em
espírito.
8. De
que forma os seres humanos se constituem e se orientam através da "escrita
da vida"?
Eles
se constituem como seres existentes que se conectam em espírito, sentindo e
conduzindo-se a uma direção consciente, mesmo sob dúvidas, sob as fatalidades
imprevisíveis e sob o desamparo existencial da própria efemeridade terrena.
9.
Qual é a responsabilidade compartilhada por professores e autores de diferentes
linhas do pensamento?
Eles
têm a missão de realizar o trabalho de reprodução e preservação dos
entendimentos históricos da humanidade, reinterpretando-os de forma autoral sob
perspectivas atuais para servir de prumo ético contra o esvaziamento cognitivo
promovido pelo sistema.
10.
Qual é a reflexão teológica final que o texto propõe sobre o destino da nossa
existência e da nossa escrita?
O
texto nos lembra que somos seres passageiros ligados a um grande Ser atemporal.
Ao registrarmos os nossos relatos com retidão, respondemos, em parte, às
perguntas eternas ("quem somos?" e "de onde viemos?"),
garantindo a nossa contribuição para o futuro através daquilo que pudemos
deixar escrito.
Para
visualizar essa reflexão de forma mais imersiva, convido você a assistir ao
vídeo AQUI
Se
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refúgio contra a pressa artificial do mundo moderno, escrevi a Jornada da
Escrita justamente para que continuemos de mãos dadas nessa caminhada.
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