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O PODER DA ESCRITA: quando escudo e espada se combinam em uma crônica

Mão humana segurando uma caneta-tinteiro dourada e luminosa, entre um escudo e uma espada feitos de luz. Ao fundo, engrenagens e códigos binários se dissipam enquanto páginas de livros flutuantes revelam paisagens naturais e poéticas. A composição tem cores vibrantes e iluminação dramática.

Propósito de quem escreve

 

Um dia de aula

Quando vivi no exterior, sem dominar adequadamente a língua local, eu era um verdadeiro analfabeto, mesmo sendo graduado em nível superior no meu país de origem. Ali, costumava pensar: “No meu país eu sei falar e escrever”, e era essa a minha maior motivação e esperança para o meu regresso.

Depois de muito tempo, no final de uma aula — dentre tantas ao longo de um ano letivo —, uma aluna me revelou que queria saber como escrever bem. Para um professor, o estudante que sabe escrever é aquele que, normalmente, não deixa dúvidas sobre seu aprendizado em uma questão discursiva; aquele que domina, pelo menos, as técnicas básicas da língua pátria. Mas, após o episódio, observei que não era bem essa a resposta que a aluna queria, e nem a melhor que eu poderia ter dado. Isso me fez refletir e observar, de fato, o que é uma boa escrita.

 

O coração da escrita

Existem várias formas com as quais formamos nossos pensamentos. Uma delas é lendo e compreendendo uma mensagem escrita, a partir da qual nossa mente começa a desdobrar experiências do passado, do presente ou de um futuro distante, acionando a máquina da criatividade humana, capaz de abrir verdadeiros portais imaginários. Pronto, a escrita surtiu seu efeito!

Assim, dominar a escrita para que ela consiga transportar uma semente portadora de sentimentos, virtudes e sabedoria é o maior desafio de quem escreve. Um escritor não é, necessariamente, alguém portador de qualidades tão distintas ou privilégios especiais que o diferenciem das outras pessoas, tornando-o melhor que os demais. Não é nada disso; é apenas alguém que possui um desejo, uma vontade muito forte de pertencer à existência humana e interagir com o mundo a partir das palavras.

Isso não significa que seja um domínio fácil, mas exige apenas uma atitude consciente: ao redigir, precisamos nos atentar a que ponto nosso coração está conectado à essência interior e única de cada um de nós. Afinal, precisamos cuidar de cada frase, pois delas emanam poderes imprevisíveis, seja para o bem, seja para o mal. Por isso, a escrita pode ser vista como escudo e espada. O poder da palavra vence defesas físicas, atravessa gerações e pode tanto unir quanto dividir massas humanas, sem precisar dar um único tiro de canhão.

 

Aquele algo a mais

Quando um escritor iniciante publica seu primeiro ensaio, conto, poema, crônica ou livro, vive um momento marcante. A primeira impressão é a de que se alcança um status de pertencimento intelectual no contexto da literatura. Embora essa experiência seja, de fato, deliciosa, pode também ser um momento decisivo, capaz de incentivar ou desmotivar a jornada.

Neste mundo mercantilista, a literatura virou um nicho de mercado, onde autores vendem a arte da escrita. Não estamos aqui duvidando ou menosprezando o mérito dos grandes nomes da literatura, mas analisando o fato de que a escrita precede a ideia de mercado, de marketing, de produto e de consumo.

É nesse contexto que a produção moderna sofre influências negativas, que transformam a escrita em uma indústria que segue a mesma lógica de qualquer produto: precisa vender. Saímos do carvão nas paredes das cavernas para a poderosíssima inteligência artificial (IA), capaz de ler milhares de páginas e transcrever tudo o que se possa imaginar em minutos. Mas um escritor verdadeiramente humano, que não tem essa velocidade algorítmica, possui algo a mais.

O conhecimento humano, associado à vivência concreta, em carne e osso, traz a experiência complexa das dores e alegrias que embasam o autor a falar de sentimentos. A necessidade de compartilhar valores, virtudes e sabedoria é algo intrinsecamente humano, intencional, empático e o segredo da transcendentalidade existencial ao longo do tempo e do espaço. É disso que surgem lindos poemas e grandes romances.

Assim, partindo dessa concepção de escrita humana e do contexto da literatura de mercado, a melhor resposta para minha aluna seria: para escrever algo funcional ou operacional, não há muito segredo. Mas para escrever com propósito, com coração de escritor, é preciso, antes de mais nada, anular a pressão do ego produtivista, neutralizar o glamour do mundo literário e dos estilos rebuscados e midiáticos. É preciso escrever com liberdade espiritual, sem ansiedades, sem pensar no que o mundo dirá sobre seus textos. Deve-se apelar ao autoconhecimento mais profundo e ser fiel a ele. Não interessa tanto a forma, mas sim como as sementes de sua obra única, cheia de autoralidade, frutificarão na mente dos leitores. Ou seja, o escritor deve esvaziar sua aparência externa e seus egos para favorecer a mensagem que cala, sinceramente, em seu coração. Sem esse algo a mais, melhor usar uma IA.

 

Portanto, comece a escrever

Seja a partir da simplicidade de um escritor iniciante, seja da erudição e técnica aprimorada de um escritor maduro, há algo que os une: saber fazer do texto algo não banal, não superficial, com consciência plena do poder da palavra — o que, por si só, já demanda uma grande responsabilidade. Isso depende da disposição altruísta pelo compartilhamento de algo íntimo e valioso da própria essência, exigindo a anulação da vaidade pura e do interesse mercantil do pensamento.

Escrever bem não serve para o autor ganhar prêmios literários ou aparecer na mídia, mas para criar interações coletivas a partir do universo das ideias. Não se trata de um “pensar qualquer coisa”, mas sim de deixar uma contribuição única, fruto do melhor esforço cognitivo possível, capaz de alcançar outras mentes em suas instâncias motivacionais, inspiradoras, emotivas e, principalmente, humanas.

Escrever é um ato essencialmente humano que não pode ser substituído pela automatização tecnológica. Sem a presença humana, a escrita perde a transcendência geracional de valores, virtudes e sabedoria e, com certeza, a própria beleza da arte literária, que é capaz de influenciar consciências e expor o drama, o desamparo, as lutas, os aprendizados e a nossa passagem por este mundo. Nesse sentido, qualquer um de nós, privilegiado pelo domínio básico da escrita, pode chegar com suas palavras até onde jamais conseguiria chegar andando.

 

Conclusão

Em última análise, a escrita com propósito é o único território onde a máquina jamais conseguirá cravar suas bandeiras de eficiência. Ela não nasce da velocidade dos processadores, mas do vagaroso pousio da alma que transforma a dor e a vivência em herança geracional. Que as nossas palavras continuem sendo, portanto, o escudo que protege a nossa vulnerabilidade e a espada que rasga as ilusões de um mundo apressado. Escrever é o nosso direito de deixar um rastro de luz na areia do tempo, um ato de coragem honesta que prova que, apesar de toda a automação, nós decidimos permanecer humanos. Portanto, acalme a mente e comece a escrever.

 

Perguntas e Respostas

1. O que o autor quer dizer quando afirma que já foi um "analfabeto" mesmo tendo ensino superior?

R: Ele se refere à experiência de viver no exterior sem dominar a língua local. Essa barreira linguística anula temporariamente a capacidade de expressão do indivíduo, gerando um profundo sentimento de desamparo, mas também acendendo a semente da valorização da língua pátria.

2. Qual é a diferença entre uma escrita "funcional" e uma escrita "com propósito"?
R: A escrita funcional ou operacional é técnica, mecânica e visa apenas responder a demandas práticas ou métricas de mercado. Já a escrita com propósito emana da essência interior do autor, anula o ego produtivista e busca transmitir valores, virtudes e sabedoria humana real.

3. Por que a crônica e a palavra escrita são comparadas a um "escudo" e uma "espada"?
R: Elas funcionam como escudo porque protegem e preservam a nossa humanidade, as nossas memórias e a nossa subjetividade contra as agressões do mundo moderno. E atuam como espada porque têm o poder de romper defesas, atravessar gerações e transformar consciências sem a necessidade de força física.

4. Como o mercado editorial moderno afeta negativamente a produção literária segundo o ensaio?

R: O mercado mercantilista transforma a literatura em uma indústria focada estritamente no lucro, no consumo e em resultados imediatos. Isso pressiona o autor a adotar um "ego produtivista", gerando pressa artificial e estilos rebuscados/midiáticos feitos apenas para agradar a plateias e algoritmos, esvaziando a essência da mensagem.

5. Qual é o "algo a mais" que um escritor humano possui e que a Inteligência Artificial (IA) jamais poderá replicar?

R: O "algo a mais" é a vivência concreta em carne e osso, o repertório real das dores, frustrações, alegrias e afetos que constituem o drama da vida. A IA possui velocidade e dados, mas o ser humano possui a intencionalidade empática e a capacidade de transubstanciar o sofrimento vivo em arte.

6. Por que o autor afirma que o escritor precisa "anular o próprio ego" para escrever bem?
R: Porque a vaidade, a busca por curtidas, o glamour literário e o desejo de aprovação externa criam um ruído que sufoca a autoralidade. Somente ao esvaziar-se dessas aparências é que o autor consegue acessar o seu autoconhecimento mais profundo e ser fiel à mensagem do coração.

7. O que significa atingir a "transcendentalidade existencial" através da literatura?
R: Significa a capacidade de o texto romper as barreiras físicas do tempo e do espaço, permitindo que os valores, as virtudes e os sentimentos de uma geração alcancem e influenciem mentes em épocas e lugares completamente distantes de onde a obra foi originada.

8. Escrever bem tem como objetivo principal ganhar prêmios ou obter reconhecimento midiático?

R: Não. Segundo o texto, escrever bem serve para criar interações coletivas profundas a partir do universo das ideias, deixando uma contribuição única e um esforço cognitivo capaz de alcançar e confortar o próximo em sua instância mais humana.

9. De que forma o ato de ler e compreender um texto ativa a "máquina da criatividade"?
R: A leitura atua como um gatilho na mente do leitor, desdobrando experiências do passado e do presente. Esse movimento aciona a imaginação, abrindo verdadeiros portais que transportam o leitor para além da realidade concreta imediata.

10. Qual é a lição final que o professor aprendeu com o questionamento da sua aluna?
R: Ele aprendeu que ensinar a escrever bem vai muito além de dominar as regras gramaticais ou técnicas estruturais para responder a provas. Significa ensinar o aluno a conectar seu coração à sua essência, estimulando a liberdade espiritual e a coragem de expressar a própria autoralidade com responsabilidade social.


 

Para visualizar essa reflexão de forma mais imersiva, convido você a assistir ao vídeo AQUI

 

 

 

Este ensaio é parte de uma caminhada orgânica de insubordinação mental e resgate da essência humana. Se você busca um refúgio contra a pressa artificial do mundo moderno, convido-o a conhecer o meu livro "Jornada da Escrita: Insubordinação Mental, Autoralidade e a Decisão de Tornar-se Humano". Disponível em formato físico no portal UICLAP, a obra é um convite para fazermos uma pausa juntos. [Clique aqui para adquirir o seu exemplar] e continue acompanhando essa jornada de emancipação intelectual.















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