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REFERÊNCIAS: nossos erros e acertos


Pessoa caminha por um portal de luz dourada em direção a uma floresta tranquila, enquanto uma metrópole futurista em tons de néon azul se desfaz ao fundo.

Passageiros do tempo

 

Nossas perdas

Alguns filósofos contemporâneos versam sobre o desapego e a capacidade de restaurar propósitos existenciais a partir do sofrimento espiritual provocado pela intensidade da sociedade acelerada atual. Talvez, sem sabermos, aceleramos a nós mesmos na ânsia de encontrarmos mais significados naquilo que estamos fazendo, seja nos períodos de trabalho, seja em nossos momentos mais íntimos de reflexão.

Buscamos nossas melhores referências quando nos sentimos solitários em meio à multidão interconectada e, normalmente, somos sequestrados pelas distrações das sensações superficiais e das satisfações emocionais imediatas, quase sempre enganosas no sentido de que servem mais como anestésicos do que como cura real — se é que esta seja possível.

Talvez o fato de nos sentirmos cansados da monotonia de nossas funções sociais, servis a um sistema montado para o produtivismo sem limite, nos force a nos viciarmos nessas distrações que em nada se refletem em alguma mudança substancial e profunda. Entretanto, quando somos confrontados por grandes perdas, daquele tipo que nos retira o chão, acordamos da letargia e sentimos em cada poro da pele a crueza da vida e a urgência da sobrevivência.

Dificilmente somos tocados tão significativamente por uma leitura ou um mecanismo puramente intelectual, como a leitura de um texto como este; mas, quando esta leitura nos remete a fatos e à nossa própria jornada nesta vida, aí encontramos, talvez, uma possível referência capaz de nos despertar o senso próprio de orientação para decidir, escolher ou aprender.

Assim, momentaneamente, mesmo que a referência possa estar erroneamente certa devido à transitoriedade das circunstâncias e dos contextos presentes, o fato de catalisarem nosso senso de direção, a partir de nosso ser verdadeiro, já significa um marco no tempo cuja importância está na percepção de que, no fundo, precisamos compreender melhor o papel das perdas na vida, que tanto tememos e que nos causam tantas ansiedades e comportamentos erráticos.

 

Mazelas humanas

Se há um ponto que mais nos prejudica neste mundo é quando somos roubados, não no sentido material, mas no quesito tempo. Na cultura oriental, o respeito ao tempo alheio chega ao nível do caráter, quando pensar duas vezes antes de perturbar uma pessoa com inutilidades constitui-se em um hábito consolidado, em nível de consciência em massa. Isso é uma questão cultural, que não resulta de uma referência temporária, mas de um processo cultural historicamente construído.

Quando vivemos este tipo de cultura imersivamente, não temos uma referência teórica, mas uma experiência de vida. Por outro lado, o mesmo acontece quando, em uma sociedade barulhenta e pouco habituada a respeitar o tempo alheio, somos diariamente bombardeados por futilidades e imbecilidades resultantes do hábito da fofoca, do denuncismo, das ideologias e das narrativas exploratórias e marketeiras que prosperam com o caos e com a disseminação da escassez.

Ao contrário de se criarem referências para o autodirecionamento e a cura, este tipo de comportamento desvirtua o respeito, a justiça e, por fim, a dignidade da própria vida, em nível coletivo,  especificamente, no sentido do propósito da nossa existência e de nossa essência humana, em ciclos doentios e intermináveis de reprodução de mazelas, recrudescendo a nossa perda de consciência — única referência que pode nos levar ao encontro de nós mesmos diante do jogo de ganha e perde, típico da cultura da escassez e da perda de tempo.

Mesmo na moderna sociedade, equipada com tecnologias avançadas, há quem use uma inteligência artificial para gerar conflitos, propagar difamações e criar o caos, ao invés de tornar-se mais eficiente, mais produtivo e mais avançado culturalmente para contribuir para a cura, seja em nível individual, seja em nível coletivo — para uma sociedade de fato, humana.

 

O lucro do adoecimento

Chega a ser cômica a busca individual pelo status de referência comportamental. Isto já está consagrado pelo marketing do empreendedorismo, da grande mentira da meritocracia por conveniência e da tecnocracia reducionista que resume a vida à estatística. Já provamos o sabor dos avanços da ciência e as consequências históricas dos grandes conflitos mundiais, indicando que o acúmulo de conhecimento técnico-científico mais serviu para desvirtuar o propósito do desenvolvimento humano, em prol do ganho no jogo da exploração do homem pelo homem, do que para a elevação de nossa consciência.

Portanto, quem de nós pode jogar qualquer pedra sobre o erro das gerações anteriores se hoje, mesmo de forma inconsciente, reproduzimos as mazelas por falta de brio? Esse comportamento nos transformou em buscadores de desculpas para apagar da memória as perdas de perspectivas, de tempo e de vidas, nesta sociedade baseada na perpetuação de poderes e de controles até de nossos próprios sonhos.

O que podemos fazer para desapropriar o jogo das mídias sobre o sucesso das tragédias, dos grandes espetáculos da corrupção e do enaltecimento da esperteza? Por que — ao invés de somente assistirmos com espanto à quebra de valores geracionais, como observamos no desrespeito aos mais velhos e aos professores, por exemplo — trocamos o refinamento do pensamento humano altruísta pelo comportamento bestial, pelas impulsividades e pelas narrativas narcisistas?

Já não está na hora de rompermos o fluxo dos aplausos às mazelas e às desgraças alheias, e acordar para a grande perda que nos acomete: a perda de caráter e de humanidade? Como se isto não bastasse, o culto ao cinismo e à propagação da escassez fica jogado debaixo do tapete, pois está associado ao lucrativo adoecimento mental e espiritual das pessoas, roubadas em sua energia vital e profundamente desrespeitadas em sua essência humana.

 

O legado além da moda

Nossa maior referência, portanto, não pode pousar sobre a transitoriedade de nossas referências atuais, não consolidadas como benfeitorias reais que atravessam gerações, como as superficialidades e futilidades consumidas no presente. Valores humanos não são produtos vendáveis e trocáveis ao sabor da moda. São patrimônios culturais, legados geracionais que sustentaram e que podem sustentar as gerações futuras.

Referências não são aquilo que o mundo diz ser bonito ou feio, mas aquilo que serve para nos guiar para um futuro realmente melhor — não para a produção de mazelas, mas para a elevação da existência como um todo, onde o ser humano é uma parte do universo, com uma função a ser cumprida diante Daquele que criou tudo o que, transitoriamente, conseguimos perceber como tal.

 

Conclusão

Buscar referências no mundo contemporâneo exige, fundamentalmente, a coragem de romper com o espetáculo do cinismo corporativo e a mentira da meritocracia utilitária. O esgotamento do nosso tempo e o roubo sistemático da nossa energia vital não são falhas operacionais, mas o resultado lucrativo de um sistema que nos adestra para a escassez. Ao acolhermos a crueza das nossas perdas e o desamparo natural, desabitamos a letargia das distrações fúteis para recuperar o brio da nossa consciência fundamental. Afinal, os valores humanos legítimos não são moedas de troca ao sabor da moda, mas sim patrimônios culturais geracionais que nos guiam para a elevação da existência. Nossa verdadeira e definitiva referência reside no cumprimento da nossa função singular no universo, em conformidade com as leis eternas Daquele que criou tudo o que conseguimos perceber.

 

Perguntas e Respostas

1. Qual é o paradoxo inicial apontado pelo autor sobre a pressa humana na sociedade atual?
O autor pontua que, movidos pela intensidade de uma sociedade acelerada, nós nos aceleramos a nós mesmos na ânsia de encontrar mais significados nas ações cotidianas, quando, na verdade, esse ritmo frenético provoca sofrimento espiritual e esvaziamento existencial.

2. Como o texto define o papel das satisfações emocionais imediatas e das distrações digitais?
Elas são descritas como anestésicos enganosos e não como cura real. O sistema nos empurra para essas futilidades superficiais e imediatas com o intuito de nos manter adestrados e dopados, aliviando temporariamente o cansaço gerado por funções sociais servis e produtivistas.

3. Em que momento o ser humano consegue de fato romper a letargia e enxergar a crueza da vida?

O despertar legítimo ocorre quando somos confrontados por grandes perdas orgânicas — daquele tipo que nos retira o chão de maneira abrupta. É a dor da perda profunda que remove as ilusões do ego e faz o indivíduo sentir na pele a urgência da sobrevivência e do autoconhecimento.

4. Como o respeito ao tempo alheio é elevado ao nível do caráter na cultura oriental?
Na cultura oriental, o respeito ao tempo do outro atinge o patamar do caráter moral. O hábito de pensar duas vezes antes de perturbar uma pessoa com inutilidades e futilidades constitui-se em uma consciência coletiva consolidada, fruto de um processo histórico profundamente construído, e não de uma moda passageira.

5. Qual é o impacto coletivo de uma sociedade barulhenta que não respeita o tempo e a atenção?

Esse comportamento, alimentado pelo marketing exploratório, pela fofoca, pelo denuncismo e pelas narrativas ideológicas, desvirtua o respeito, a justiça e a dignidade humana. Ele joga o indivíduo em ciclos doentios de reprodução de mazelas, recrudescendo a perda da consciência autêntica.

6. Como o autor analisa o uso contemporâneo da inteligência artificial dentro das mazelas humanas?

O ensaio denuncia que, mesmo equipada com tecnologias altamente avançadas, a sociedade atual muitas vezes utiliza a inteligência artificial para gerar conflitos, propagar difamações e espalhar o caos, distanciando-se do seu papel original que deveria ser o de promover a eficiência cultural e a cura coletiva.

7. Por que a busca individual por se tornar uma "referência comportamental" é considerada cômica e fictícia?

Porque ela foi sequestrada pelo marketing do empreendedorismo e pela grande mentira da meritocracia por conveniência. Trata-se de uma tecnocracia reducionista que tenta padronizar as pessoas, resumindo a beleza e a subjetividade da vida a meras tabelas estatísticas.

8. Qual foi a consequência do acúmulo técnico-científico ao longo da história humana?
O autor demonstra que o avanço da ciência e os grandes conflitos mundiais provam que o conhecimento puramente técnico-científico acabou sendo desvirtuado. Ao invés de impulsionar o desenvolvimento humano integral, ele foi utilizado como ferramenta de ganho no jogo da exploração do homem pelo homem.

9. O que está ocultado "debaixo do tapete" pelo culto moderno ao cinismo e à escassez?
Está ocultado o lucrativo mercado do adoecimento mental e espiritual. A exploração do comportamento bestial, das impulsividades e das narrativas narcisistas pelas mídias gera lucro para o sistema à custa do roubo da energia vital das pessoas, que são desrespeitadas em sua essência.

10. Onde deve pousar a nossa maior e verdadeira referência segundo o encerramento do artigo?

Ela não pode pousar na transitoriedade das futilidades da moda atual. A nossa verdadeira referência é o legado geracional de valores humanos inegociáveis, que nos guia para a elevação da existência. Significa assumir a nossa condição de parte do universo com uma função a ser cumprida diante Daquele que criou tudo o que existe.

 

 

Para visualizar essa reflexão de forma mais imersiva, convido você a assistir ao vídeo AQUI

 

 

 

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