Existir por existir
Quem somos
Quando
havia tempo para absorvermos o que o mundo nos dizia, por exemplo, na infância,
tudo era experimentação. Desde como era o sabor de uma laranja ou maçã até o
que significava valores, comportamentos, pensamentos, o que era certo e errado.
A partir do momento em que tudo isso nos fez gerar crenças, comportamentos e
hábitos, enquanto, ao mesmo tempo, nos conhecíamos interiormente como seres
existentes passamos a entrar em conflito com a realidade, pois de nossas
crenças, surgiram nossos desejos e vontades.
Embora
uma parte de nosso potencial para desenvolver habilidades humanas dependa da
forma como o mundo se apresenta a nós — somada à nossa maneira de perceber a
realidade, agir e até sentir —, há também a influência direta de nossa biologia
e de nossos genes. No entanto, o que importava era aquela consciência de que
estávamos absorvendo o mundo. Não sabíamos falar como falamos quando adultos,
não fazíamos associações entre a memória de longo prazo com os fenômenos
vivenciados no presente, mas, basicamente, existíamos sem grandes pressões em
sermos algo.
Por
isso, aquela antiga pergunta — o que você será quando crescer? — transformou-se
em: o que você precisa ser? Entretanto, por que sentimos tanta pressão
para sermos aquilo que, quase sempre, não desejamos? Não é este o motivo pelo
qual nossas novas gerações se mostram arredias para criarem seus egos utilitários,
necessários para a sobrevivência? Por outro lado, por que tantas pessoas
escolhem, justamente, viver sob a sombra de seus egos, especialmente, quando bem-sucedidos
no mundo da competição e do enriquecimento material, negando tanto uma
existência mais plena, como também, ficando mais distante daquilo que realmente
sente que deveria ser de verdade?
Dever ser ou ter que ser
Aquilo
que sentimos que “devemos ser” não vem de fora, pois já vem conosco. O
"ter que ser" para sobreviver e para conquistar um lugar ao sol
representa uma necessidade normal para qualquer um de nós. Justificadamente,
isso serve como argumento para sermos assim ou assado, enquanto a nossa bolha
de convivência reforça: “é isso aí, tem que ser assim mesmo”. O problema é que
fazemos isso sem lembrar que estamos sujeitos à lei da causa e efeito, da
semeadura e da colheita, e à lei da compensação. Mas, será que a pressão para o
acúmulo material, nos garante a paz interna, ou nossas vidas são mais complexas,
onde os opostos coexistem?
Esta é
a base que vamos usar nesta reflexão: temos que ser por mera necessidade de
sobrevivência? Ou temos que ser porque aquilo que somos vem de dentro de nós
mesmos, sem distorções externas que nos deformem diante de nossos próprios
espelhos?
Ter
que ser para sobreviver é uma concepção perigosa, pois, no limite, há quem
cometa horrores para continuar vivendo. Sem entrar no mérito de comportamentos
e crenças discutíveis, a lei do plantio e da colheita passa a funcionar de
forma clara: para colhermos um bônus, também colheremos um ônus. A felicidade
sempre se alterna com a tristeza, assim como o amor sempre convive com o
desamor, e vice-versa.
Cuidado com as novas gerações
Quando
não temos mais tempo para refletir — esse artigo de luxo da modernidade —, a
pressão para nos tornarmos um "produto vendável", bem embalado como
um presente, afasta-nos da nossa consciência do ser existencial, aquela da
nossa tenra infância. Assim, deixamos de perceber o gosto da laranja por nós
mesmos e passamos a interpretar esse sabor de forma influenciada pela cultura
predominante e por semânticas mundanas. De repente, achamos que o sabor real da
laranja é o sabor da maçã.
Nosso
discernimento depende da maturação do nosso pensamento, de preferência
autêntico e sincero, que nos traduz, de forma única, qual é o sabor da laranja
para nós e para mais ninguém. Será que não percebemos — ou nos fizeram esquecer
— essa percepção que trazemos ao mundo quando nascemos? Será que somos tão
errados, tão inadequados e tão defeituosos ao nascer, a ponto de nos
formatarmos conforme os moldes prontos de “ser” de uma bolha humana? Uma bolha
totalmente moldada para se encaixar no modelo da sobrevivência, em troca de
migalhas ou fragmentos de existência plena?
Neste
contexto, o despertar do poder reflexivo das nossas jovens gerações está
ameaçado pelo pensamento binário da inteligência artificial, usado sem a
criticidade que merece por toda a sociedade moderna. Por isso, essa é uma
demanda urgente e inadiável para os interesses humanos verdadeiros — não para o
interesse de uma máquina de automatização da existência, voltada para o
produtivismo e para o consumismo. Esta automatização da existência não é apenas
um processo social, mas agora também tecnológico, que acelera a perda do
"tempo para refletir". Dizer que este é um caminho único e
irreversível é fruto de um cinismo, muito bem bolado, que duvida de nosso
potencial de sermos gente de verdade.
Mas,
embora tudo nos leve a crer que está tudo mesmo tão estruturado e amarrado,
ouvimos aquela voz silenciosa, de consciência original, nos dizendo aos gritos:
"Não é bem assim". Valores e conceitos humanos estão abaixo da
compreensão maior que nossa essência é capaz de captar da grande fonte que nos
deu a vida. É ela que explica o inexplicável e organiza as leis naturais
incontestáveis — aquele Criador de todas as coisas que nos deu o universo para
ser conhecido, em um curto espaço de tempo de vida nesta terra, para
experimentarmos todos os sabores possíveis, inclusive os sabores amargos.
Nosso propósito ou pressão de ser mundano
Há
quem possa desvirtuar este ensaio defendendo que o seu conteúdo é uma
manifestação prejudicial, que subverte regras e padrões culturais estabelecidos
ou prejudica a harmonia e a boa convivência em sociedade. Mas, na verdade, esta
é uma constatação que só depende de pararmos para pensar e nos libertarmos da
pressão que essa padronização nos impinge. Logicamente, por outro lado, se há
alguém satisfeito com o que está posto, essa pessoa provavelmente se encaixa
naquilo que este mundo está pagando para manter, o que acaba encobrindo o
verdadeiro sabor da laranja.
Neste
ponto, aquele “não” interno transforma-se em consciência e autoconhecimento.
Antes de agradar ao que o mundo diz ser certo, o que importa é aquilo que temos
que ser por dentro, respeitando as leis imutáveis. Afinal, a funcionalidade da
natureza é a única que pode ser chamada de democrática, pois não discrimina
ninguém — não importa a aparência, o status social, as posses ou os poderes.
Conclusão
Em
última análise, libertar-se da "pressão de ser" o que o mundo exige é
o primeiro passo para resgatar nossa humanidade essencial. Respeitar as leis
naturais e ouvir a consciência original permite que voltemos a sentir o sabor
real da vida — sem os filtros ou as distorções impostas pela pressa e pela
cultura do produtivismo.
Em um
mundo que tenta automatizar nossa existência e reduzir nossa percepção ao
binário, ter tempo para simplesmente ser não é um luxo, mas um ato de
insubordinação necessário. Afinal, ao equilibrarmos o bônus e o ônus de nossas
escolhas sob a luz das leis imutáveis, deixamos de ser apenas "produtos
bem embalados" para nos tornarmos, enfim, gente de verdade.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1. O
que o autor quer dizer com a afirmação "sem tempo não somos nada"?
Refere-se
à perda da capacidade de reflexão na modernidade, que o autor classifica como
um "artigo de luxo". Sem tempo para refletir e absorver o mundo de
forma autêntica, o ser humano deixa de ser um "ser existencial" para
se tornar apenas um "produto vendável" moldado por pressões externas
e automatismos.
2.
Como a infância é utilizada no texto para contrastar com a vida adulta?
A
infância é apresentada como um período de experimentação pura, onde existíamos
sem a pressão de "ser algo" específico. Naquela fase, a consciência
estava voltada apenas para absorver o mundo, ao contrário da vida adulta, onde
somos forçados a criar um "ego utilitário" focado na sobrevivência e
na competição.
3.
Qual é a diferença fundamental entre o "dever ser" e o "ter que
ser"?
O "dever
ser" é uma inclinação interna e autêntica que já nasce com o
indivíduo. Já o "ter que ser" é uma necessidade externa
imposta pela sobrevivência e pela busca por um "lugar ao sol", muitas
vezes reforçada por uma "bolha de convivência" que padroniza
comportamentos.
4. O
que o autor define como "ego utilitário"?
É a
identidade construída para atender às demandas do mundo da competição e do
enriquecimento material. O texto alerta que muitas pessoas se tornam
bem-sucedidas através desse ego, mas acabam negando uma existência mais plena e
distanciando-se de quem realmente são.
5.
Como a "Lei da Compensação" é aplicada à busca pelo sucesso material?
O
autor questiona se o acúmulo material garante a paz interna e lembra que
estamos sujeitos à lei do bônus e do ônus. De acordo com o texto, qualquer
escolha baseada apenas na necessidade de sobrevivência ou lucro traz
consequências, pois a vida é um equilíbrio complexo onde os opostos (como
felicidade e tristeza) coexistem.
6.
Qual o significado da metáfora do "sabor da laranja"?
Representa
o discernimento autêntico e único de cada indivíduo. O autor argumenta que a
cultura predominante nos faz "esquecer" nossa percepção original,
levando-nos a interpretar a realidade através de moldes prontos, a ponto de
acharmos que o sabor da laranja é, na verdade, o sabor da maçã.
7.
Qual é o risco da Inteligência Artificial mencionado no artigo?
A
Inteligência Artificial é vista como uma ameaça ao "poder reflexivo"
das novas gerações devido ao seu pensamento binário e automatizado. O autor
defende que o uso da IA sem criticidade acelera a transformação da existência
humana em um processo voltado apenas para o produtivismo e o consumismo.
8. O
que é a "consciência original" citada pelo autor?
É uma
"voz silenciosa" que nos liga à nossa essência e à "grande
fonte" ou Criador. Ela serve como um contraponto aos valores mundanos,
lembrando ao indivíduo que sua existência tem uma compreensão maior, capaz de
captar leis naturais incontestáveis acima das regras sociais.
9. Por
que o autor afirma que a natureza é a única "democrática"?
Porque
as leis imutáveis da natureza e o funcionamento da vida não discriminam ninguém
com base em aparência, status social, posses ou poder. Todos estão igualmente
sujeitos às mesmas leis de causa, efeito e compensação.
10.
Qual é o convite final que o autor faz ao leitor?
O
autor convida o leitor a um ato de "insubordinação necessária":
libertar-se da padronização e da pressa para resgatar a humanidade essencial. O
objetivo final é deixar de ser um "produto bem embalado" para se
tornar "gente de verdade", respeitando a própria consciência e as
leis naturais.
Para
visualizar essas reflexões de forma mais imersiva, convido você a assistir ao
vídeo AQUI
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