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GOSTO PELO FAZER: a relação entre o fazer e o ser



Uma representação poética de uma planta jovem e verdejante sendo cuidada e regada pelas mãos acolhedoras do Grande Jardineiro, em um cenário natural iluminado pelo sol, ilustrando o ensaio Gosto pelo Fazer.

Percepção da vida

 

Viver para sentir

Certa vez me perguntaram se gosto do que faço. É uma pergunta difícil, pois pode ser respondida sob diferentes perspectivas, como: Refere-se ao retorno financeiro? Tem a ver com o prazer no que faço? Significa realização profissional e pessoal? Tem a ver com minha essência humana? Traz orgulho ou gratidão? Honra meu nome de família ou não? Traz respeito próprio? Traz sofrimentos e dores?

Enfim, a pergunta que sintetiza todas essas indagações seria: gostamos de estar onde estamos, fazendo o que precisa ser feito? Na verdade, uma boa resposta para o momento depende de condicionantes. Mas, a partir do momento em que colocamos condições — as quais nem sempre estão disponíveis —, a resposta normalmente tende para uma negativa.

Mas a pergunta que precisamos responder para nós mesmos seria: onde estaríamos e o que estaríamos fazendo se não estivéssemos exatamente onde vivemos nossas jornadas diárias? Será que estaríamos produzindo algo? Estaríamos sendo úteis, como somos onde estamos no presente? Teríamos mais alegrias ou menos? Sofreríamos mais ou menos? Conseguiríamos sobreviver com dignidade ou não?

Neste ponto, precisamos encarar as receitas de bolo para a felicidade, em que a primeira aberração é a promessa de uma vida plena de coisas boas, quando tudo é lindo e perfeito. Aliás, ao conversar com alguém e ouvir que tudo está perfeito, precisamos encontrar o guru que passou a receita, pois, do ponto de vista existencial, a lei da compensação impõe, obrigatoriamente, a coexistência dos lados opostos. Mas, então, o que podemos afirmar sobre o assunto: gostar do que fazemos?

 

A pressão das aparências

Passar por dificuldades ou enfrentar problemas na vida pode ser um período tão difícil que, normalmente, nem queremos falar sobre o assunto. O que é mais chocante, especialmente neste mundo das aparências, é que existe uma pressão para que aparentemos estar sempre bem, felizes e bem resolvidos, que é a crítica que fazemos ao mundo das ilusões, que tentam nos vender todo santo segundo através das mídias e estratégias de marketing. Para os incautos, a trilha da vida é buscar este estado utópico de permanente realização existencial.

Para quem já passou por altos e baixos na vida, já aprendeu que ela é composta por momentos bons e ruins, que tudo passa com o tempo e que nada dura para sempre — sejam coisas boas ou ruins —, pois faz parte de um contexto de missão e destino atrelado a um Plano Maior, tão complexo e indecifrável por si mesmo que talvez nunca possa ser totalmente desvendado.

Apenas com esta percepção, já podemos inferir que não sabemos nada sobre de onde viemos e nem para onde iremos, as eternas indagações filosóficas. Outra percepção é de que não controlamos quase nada nesta vida e, se muito, escolhemos opções que se apresentam conforme nos lançamos no mundo e na vida. Apenas precisamos ter mais consciência de que nossas percepções estão acima de modelagens postas pelo mundo, as quais não se encaixam em padrões passageiros ligados à moda ou a valores de época.

 

Estado de humildade

Portanto, não precisamos demonstrar alegria o tempo todo, nem sofrimento o tempo todo. Ter uma postura humilde diante da vida não significa resignação, mas um estado meditativo contínuo e focado naquilo que precisamos extrair de nossas experiências. É uma forma de sempre nos colocarmos como aprendizes diante das contradições e dos desafios de cada fase de nosso desenvolvimento, de nossa jornada pelo autoconhecimento.

Onde isto vai dar? Sem querer ter respostas para tudo, pois nada será completamente explicado — especialmente as forças do destino —, nosso autoconhecimento nos levará a pensar, reagir e fazer alinhado com um fluxo, do nosso jeito, com nossos talentos. É um processo que pode ser entendido com a poda na agronomia, por exemplo, na construção da arquitetura de uma planta, quando o que fazemos se reflete em nosso caráter final.

É preciso respeitar a genética da planta, saber ativar e desativar mecanismos hormonais, dar tempo entre uma poda e outra, dar condições de nutrição e ambientação que respeitem a fisiologia de cada espécie, conhecer os ciclos que não podem ser forçados. Desta forma, similarmente, o que podemos fazer sempre é encontrar a gratidão pela forma que ganhamos ao chegar neste mundo, com qualidades e falhas; pelos momentos difíceis que moldam nossa arquitetura final; pela ativação ou desativação de mecanismos que podem comprometer nosso desenvolvimento, até chegarmos ao que chamaria aqui de o estado da arte de nossas vidas, até o momento em que tudo acabar.

Assim como uma planta não escolhe seu solo, mas pode ser conduzida para dar frutos, o ser humano pode usar o "fazer" para moldar seu caráter. Uma planta bem conduzida poderá dar muitos frutos e deixar boas sementes como legado. Isto tem a ver com o que fazemos, onde estamos, no solo que é determinante em nossa forma de ser, no ambiente que cria os alicates das podas necessárias, que, associando nossas escolhas pessoais às opções do destino, nos levarão à expressão de nossa essência mais autêntica.

Nada disso é segredo. Faz parte de nossa interação com o universo onde fomos colocados, em que a vida não é uma receita de bolo, mas um fluxo contínuo que não significa que jamais terminará, mas que é uma oportunidade única que depende do que fazemos com nosso tempo, mesmo sem saber até quando.

 

Necessidade de aprovação externa

Quem cuida da vida de outras pessoas está perdendo o que poderia estar fazendo. O prejuízo é dela, enquanto as pessoas estão vivendo suas vidas. Isto não significa uma apologia ao individualismo e ao egocentrismo, mas um realce à responsabilidade de cada um de nós em cuidar da arquitetura de nossa existência. Nosso mapa é a realidade concreta e a forma como caminhamos — com este mapa nas mãos — é o que mais importa. Importa a forma como reagimos e o que escolhemos fazer com as opções que se apresentam

Não vamos aprender nada, não seremos autênticos e não seremos sinceros com nós mesmos se vivermos a vida de outras pessoas, se assumirmos os problemas alheios, se gastarmos nossa energia vital com as mazelas humanas. Estaríamos desperdiçando nosso tempo de aprendizagem e impedindo nosso desenvolvimento por querer agradar ao mundo, ao custo de nossa inércia, de nossa subserviência ao mundo das ilusões.

Será que ter quem goste de nós é mais importante do que o gosto próprio pela vida? Como vamos encontrar o fio condutor da existência — a gratidão — e fazer jus a este presente que é a chance de viver a vida plenamente? Como vamos experimentar nossos talentos? Como vamos descobrir nossa capacidade de fazer coisas com o nosso jeito único?


Conclusão

Será que gostamos de estar onde estamos? Não precisamos aparentar. Precisamos ser. Para ser, precisamos fazer. O "fazer" é a expressão da essência, e ver essa essência manifestada no mundo é o que gera a gratidão. Para sentir gratidão pela vida que nos é dada, para vivenciar e experimentar as contradições da realidade, para sentir liberdade de escolha diante das opções que o mapa da vida nos fornece e pelas circunstâncias que nos são ambientadas, conforme o fluxo de nosso destino, ligado ao Grande Jardineiro, o Criador de todas as coisas.

 

PERGUNTAS E RESPOSTAS

  1. Qual é a indagação fundamental que o texto propõe sobre nossa rotina atual?

A pergunta central é se gostamos de estar onde estamos, realizando o que precisa ser feito no presente. O autor sugere que, ao colocarmos condições externas para sermos felizes, nossa tendência é responder negativamente a essa pergunta.

  1. Por que o autor critica as chamadas "receitas de bolo" para a felicidade?

Ele as considera uma "aberração" porque prometem uma vida plena e perfeita, o que é existencialmente impossível devido à lei da compensação, que impõe a coexistência obrigatória de opostos (alegria e dor).

  1. Como o "mundo das aparências" influencia nossa percepção de bem-estar?

Existe uma pressão constante das mídias e do marketing para que as pessoas aparentem estar sempre bem e resolvidas. O texto alerta que buscar esse estado utópico de realização permanente é uma armadilha para os incautos.

  1. Qual é a visão do texto sobre o controle que temos sobre o nosso destino?

O autor afirma que não controlamos quase nada nesta vida, pois estamos inseridos em um "Plano Maior" complexo e indecifrável. Nossa agência real está em como reagimos e escolhemos entre as opções que o mapa da vida nos fornece.

  1. De que forma o conceito de "humildade" é ressignificado no artigo?

A humildade não é vista como resignação, mas como um estado meditativo contínuo focado no aprendizado. É a postura de ser um eterno aprendiz diante dos desafios e contradições da jornada pelo autoconhecimento.

  1. Como a metáfora da poda na agronomia se aplica ao desenvolvimento humano?

Assim como na agronomia se molda a arquitetura de uma planta respeitando seus ciclos e genética, o ser humano usa o "fazer" e as dificuldades (os "alicates" da vida) para moldar seu próprio caráter e chegar à sua expressão mais autêntica.

  1. Qual é o perigo de viver em função da aprovação externa ou da vida alheia?

Ao focar na vida de outros ou tentar agradar ao mundo, a pessoa desperdiça sua energia vital e tempo de aprendizagem. Isso gera inércia e impede que o indivíduo cuide da arquitetura de sua própria existência.

  1. Qual é a relação definitiva estabelecida entre o "fazer" e o "ser"?

O texto afirma que, para ser, é preciso fazer. O "fazer" não é apenas uma tarefa, mas a expressão da essência humana manifestada no mundo.

  1. Como o sentimento de gratidão é alcançado segundo a reflexão do professor Ueda?

A gratidão é o "fio condutor da existência" e surge quando vemos nossa essência manifestada através das nossas ações, aceitando tanto as qualidades quanto as falhas que moldam nossa forma final.

  1. Quem é o "Grande Jardineiro" mencionado na conclusão?

É uma referência ao Criador de todas as coisas, a quem o fluxo do nosso destino está ligado, sugerindo que nossa vida é uma oportunidade única de interação com o universo.

 

Veja mais

Assista a um vídeo anime explicativo deste texto, dentre outros, clicando AQUI

 

 

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