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MATRIX: apenas um recorte do que parece ser


Figura humana atravessa uma estrutura geométrica escura formada por códigos binários e linhas de dados luminosas. À esquerda, uma cidade cinzenta e automatizada; à direita, uma explosão de cores vibrantes, vento e luz representa a liberdade e a imprevisibilidade da mente humana.

As ilusões automáticas

 

Programados pelo passado

Quando jovem, assisti ao famoso filme Matrix. Naquela época, a narrativa muito bem elaborada abordava o momento em que um grande sistema entrava em conflito. Quem era da área de informática, logo imaginou aquele instante inesperado em que um programa colide com um erro imprevisto.

Hoje, nós, usuários comuns da tecnologia da informação, vivenciamos algo parecido quando uma máquina tenta responder a algo relacionado à verdadeira vida.

Grandes estudiosos descrevem o processamento de dados como algo baseado estritamente no que já existe e foi acumulado ao longo da história. A matriz possível de ser criada com base binária dificilmente consegue responder ao desconhecido, àquilo que ainda nunca aconteceu. Nossos melhores programas são apenas simuladores sofisticados que repetem o que já está cadastrado no gigantesco banco de dados mundial.

Alguns, ironicamente, até denominam este processamento mecânico e esta memória fria como inteligência.

Neste contexto, o que podemos entender como matriz? Seria uma realidade automatizada, sujeita a uma rigidez lógica que não aceita meias respostas? Algo matemático que não consegue prever sequer o rumo de um verme? Algo que faz a estatística parecer uma profecia, como se a vida fosse algo linear e totalmente previsível? Viver dentro de uma ilusão programada significa viver a realidade nua e crua, de fato?

O nosso problema cognitivo é dificultado pela variação de realidades construídas, com várias matrizes simultâneas à nossa escolha. Mas isso não quer dizer que estejamos vivendo a vida como ela é: dinâmica, processual, imprevisível, analógica. Se nos pautarmos apenas no passado, abandonando a nossa capacidade humana de responder a estímulos novos e desconhecidos, bastaria escolher uma dessas falsas e programadas realidades.

Mas não seria exatamente isso o que causa o nosso aleijamento cognitivo atual? A aceitação passiva do adestramento do código?


Um plano inconcebível

Há dois mil anos, alguém poderia imaginar que existiria alguém escrevendo este texto exatamente para cada pessoa que estiver lendo este ensaio? Com nome, sobrenome, idade e gênero?

Essa previsão dependeria de saber quais combinações genéticas se fundiriam, em nossas árvores genealógicas, antes mesmo de acontecerem.

Isso só seria possível se existisse uma bola de cristal para prever quem seria a pessoa que nossos antepassados escolheriam para formar suas famílias. O mistério biológico esmaga a previsão estatística.

Portanto, diante da imprevisibilidade de nossa própria existência como ousamos estabelecer formatações para o comportamento humano, se nem sabemos como serão nossas novas gerações? Com certeza, qualquer tentativa de acerto de previsão ou profecia do futuro seria, apenas, mais uma ilusão ou mais uma versão de matriz baseada no incerto, um verdadeiro chute no escuro. Mas, não é exatamente assim, quando cada um de nós acordamos em um novo dia?

Uma coisa é saber que vivemos em uma matriz estável e cômoda, assim como no filme. O problema é quando precisamos lidar com as variáveis que nos empurram para uma percepção, muito pessoal, sobre o que entendemos ser verdadeiro ou não, realidade ou ilusão, vida real ou imaginação. Qual escolha costumamos fazer, com cada novo dia que recebemos do único conhecedor de nós mesmos – o Próprio Criador de Tudo?

 

Os perigos do provincianismo mental (a programação)

Quando percebemos que cada matriz exige uma função, um padrão rígido de comportamento, podemos ser levados a crer que estamos existindo em conformidade com uma realidade posta. Isso simplificaria muito a nossa concepção de vida.

Por exemplo: se nascemos em uma matriz específica, jamais deveríamos sair dela e tocar a vida como ela parece ser. É o que ocorre, muitas vezes, com quem jamais sai das proximidades de sua terra natal, o que faz a pessoa acreditar que o mundo existente está confinado em sua bolha local — seja uma cidade, um bairro ou um endereço — onde tudo o que é realizado segue um padrão conhecido.

A grande sedução do provincianismo é o fato conhecido de que, em terra de cego, quem tem um olho é rei.

Mas, quando esta matriz entra em conflito, o programa simplesmente para de rodar. O sistema só volta a funcionar quando nós mesmos intervimos, reprogramando a matriz por meio de nossas escolhas reais. Isso porque o programa da existência deve atender às demandas da própria vida e aos seus entrelaçamentos infinitos.

O nosso humor, por exemplo, é um fator multivariável que jamais poderemos adivinhar em nossos relacionamentos interpessoais. Da mesma forma, nunca saberemos o momento exato em que ocorrerá a mudança dos ventos que nos conduzirão aos nossos destinos. O imprevisto governa nossas vidas.

 

O conflito das máquinas

Suponhamos que nossas potencialidades fossem todas padronizadas para manter uma matriz em pleno funcionamento. Pensemos em uma sociedade cheia de conveniências e contratos sociais voltados unicamente para a manutenção de uma organização única, rígida e engessada.

Muitos daqueles que possuem uma visão monocular podem realmente acreditar que estão cumprindo o roteiro de forma impecável, ajustados a uma ordem mundial ideal pré-formatada. Eles se orgulham da engrenagem.

Orgulham-se sem perceber, contudo, que lhes falta uma visão mais completa e menos prepotente sobre a própria existência. A obediência cega ao código é o anestésico da alma.

Neste sentido, o conflito é visto como algo indesejado para o bom andamento da máquina – uma ironia programada.

Por outro lado, é justamente o conflito que nos obriga a intervir na realidade concreta. Essa intervenção nem sempre resulta na manutenção dos padrões antigos, mas na criação de uma nova solução, de uma nova estrutura organizacional que melhor atenda às nossas demandas reais.

Este seria o ápice da nossa engenharia social, no sentido de solucionar problemas complexos usando a nossa real criatividade a favor de nossos propósitos existenciais, e não da perpétua manutenção de uma matriz de ilusões. O erro no sistema é a fresta por onde entra a nossa humanidade.

O que realmente existe não é a matriz, mas sim o nosso "ser", capaz de construir uma realidade própria como parte de um processo contínuo de aprendizagem e autoconhecimento. Isso significa que temos oito bilhões de seres humanos em contínuo conflito.

Nenhuma lógica matemática ou probabilidade estatística seria capaz de imitar a nossa intrínseca capacidade de insubordinação mental — a única força real que nos possibilita sobreviver e prosperar diante do incontrolável.

 

Conclusão

A existência humana recusa o engessamento de algoritmos e estatísticas previsíveis. Embora realidades programadas ofereçam o conforto anestésico da obediência cega, é no imprevisto, no conflito e na insubordinação mental que nossa verdadeira humanidade se manifesta e reconstrói a realidade.

 

PERGUNTAS E RESPOSTAS

  1. O que é a "matriz" discutida no texto?

A matriz representa uma realidade automatizada e sujeita a uma rigidez lógica, que tenta tratar a vida dinâmica e analógica como algo linear e totalmente previsível.

  1. Qual é a causa do "aleijamento cognitivo" mencionado pelo autor?

O aleijamento cognitivo resulta da aceitação passiva do adestramento do código e da obediência cega a roteiros pré-formatados.

  1. Por que a previsão estatística falha diante da vida humana?

A estatística falha porque o mistério biológico e a imensidão de combinações genéticas e escolhas dos antepassados esmagam qualquer cálculo matemático.

  1. O que acontece quando a matriz entra em conflito?

Quando ocorre um conflito na matriz, o programa para de funcionar, exigindo a intervenção humana por meio de escolhas reais para reprogramar o sistema.

  1. Qual é o papel do imprevisto na vida humana?

O imprevisto governa a existência, pois fatores multivariáveis como o humor e a mudança dos ventos não podem ser previstos.

  1. Como o autor caracteriza as pessoas de "visão monocular"?

São aqueles que se orgulham de cumprir um roteiro pré-formatado, sem perceber que a obediência cega é o anestésico da alma.

  1. O conflito é visto apenas como algo negativo no ensaio?

Não; embora a máquina o considere indesejado, o conflito obriga o ser humano a intervir na realidade e criar novas soluções estruturais.

  1. O que significa a afirmação "o erro no sistema é a fresta por onde entra a nossa humanidade"?

Significa que as falhas e desvios da rotina programada são os momentos em que a sensibilidade e a criatividade humana se manifestam.

  1. A matriz possui uma existência física ou concreta independente?

Não, o texto afirma que o que realmente existe não é a matriz, mas o nosso "ser", que constrói a própria realidade em um processo contínuo de aprendizagem.

  1. Qual é a força principal para sobreviver e prosperar diante do incontrolável?

A insubordinação mental é apontada como a única força real capaz de permitir a sobrevivência e a prosperidade humana frente ao incontrolável.

 

 

 

 

 

 

Para visualizar essa reflexão de forma mais imersiva, convido você a assistir ao vídeo explicativo em formato de animação clicando aqui.


Este ensaio não foi escrito para as multidões virtuais, mas para quem, no silêncio da sua própria mesa, recusa o adestramento das falsas realidades postas pelo sistema. Se estas provocações cotidianas despertaram em sua mente o desejo de resgatar a autoralidade e a essência humana longe da pressa mecânica do mundo contemporâneo, o convite para aprofundarmos esta jornada está estendido.

O manifesto impresso e analógico deste ecossistema encontra-se eternizado no livro físico "Jornada da Escrita: Insubordinação Mental, Autoralidade e a Decisão de Tornar-se Humano".

Uma obra editada de forma independente, sem as amarras das conveniências comerciais, feita para servir de refúgio e prumo ético. Puxe uma cadeira, permita-se um tempo de pousio mental e encontre o seu exemplar disponível diretamente no portal da UICLAP através deste link direto.

Sigamos adiante. Devagar e sempre.
















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