Quando outra pessoa mais importa
O resgate de nossa humanidade
Certa
vez, em uma viagem de lua de mel, fui a um restaurante experimentar um prato
famoso e caro — uma lagosta —, que eu só fui conhecer depois de adulto, junto
com minha esposa. Naquele dia, enquanto aguardávamos o prato chegar,
aproximou-se de nós um menino muito pobre, com roupas em farrapos e todo sujo,
pedindo-nos algo para comer. Sem pensar muito, pedimos ao garçom para levar um
prato de alimento e servir o menino.
Para
nossa surpresa, fomos hostilizados pelos olhares dos atendentes e da gerência,
que demonstraram total reprovação ao que havíamos feito. Mantivemos a criança
na mesa até que ela terminasse e, logo depois, chegou o nosso pedido. Mas hoje,
relembrando o fato mais de trinta anos depois — dentre os quais nunca mais comi
lagosta —, veio uma pergunta: o que foi aquilo? A pior gafe de etiqueta foi
atender a uma criança com fome? Isso foi tão reprovável assim?
Ninguém
que não faça algo diferente em uma situação parecida saberá o que é aquele
sentimento contraditório em que surge uma decisão voluntária: cumprir a
etiqueta ou enxergar uma necessidade alheia ao nosso lado. A questão não é
saber o que cada um de nós decide — pois tudo tem um argumento lógico —, mas
sim aquilo que fica guardado na memória como sentimento bom ou ruim, lá no
fundo da alma.
A virtude é um fazer
Dizem
que a virtude falada ou contada por alguém é vazia. É como a sabedoria, que só
aparece na atitude e no fazer. Podemos entender que, quando alguém tem sempre
uma disposição para praticar o bem, independentemente do contexto,
provavelmente tem mais chances de expressar virtudes humanas. Mas será que ser
virtuoso é um valor nos dias de hoje? Será que não imputamos ingenuidade a quem
se presta a fazer o bem? Será que pessoas que praticam o bem não são exploradas
pelos parasitas interesseiros?
Talvez
o maior desgaste emocional real de nossos tempos atuais seja assistir ao jogo
do poder, do ganha e perde e da competitividade acirrada deste mundo — onde
pouco importam nossos valores ancestrais acumulados ao longo da jornada humana
nesta terra. Quanto mais quando fechamos os olhos, por resguardo ou por
conivência, especialmente em um mundo de aparências que transforma atos de
honestidade em motivo de piada, onde a corrupção é normalizada e onde nossos
sentimentos verdadeiros são trocados por uma mentira socialmente aceita.
Este
retrato, embora não gostemos de admitir, faz parte desta sociedade falida em
humanidade — o que não significa que só temos maldade ou falta de virtudes, mas
apenas muito medo de sermos malvistos. A depender do nicho de mercado, podemos
apenas expressar virtudes superficiais, em que, para tudo ficar bem nas mídias
sociais, basta imitar as celebridades, os políticos e os símbolos da aparência
com suas exibições espetaculares televisionadas.
Vivenciamos
um momento histórico de idolatria ao ego produtivista e à subserviência passiva
aos mandos e desmandos da tecnocracia meritocrática — o grande pilar do embuste
do sucesso e da felicidade global — que sustenta a falência das relações
humanas. Quando, ao mesmo tempo, chegamos a substituir a convivência humana
pela companhia de máquinas e processadores de informações e imagens, significa
que a extinção está próxima. Será por isso que a virtude humana não tem mais
espaço? Onde foi parar o sentido e o propósito de nossa verdadeira conexão com
o Grande Criador de tudo?
O primeiro exemplo de abnegação
Sempre
sinto a obrigação de testemunhar a providência Divina em minha vida. Um dos
grandes privilégios foi ter um bom exemplo em minha própria família de origem,
com minha querida mãe. Assim como muitas outras pessoas, quem nunca observou
como uma mãe se sacrifica por suas crianças? São seres que tiram o próprio
alimento para dar a elas, que não medem esforços e sacrifícios para garantir a
sobrevivência e a educação delas. Podem não ter posses, mas são ricas em amor e
detentoras de uma dose incopiável de abnegação voluntária.
Ninguém
é perfeito neste mundo, mas, talvez, quem mais se aproxime da expressão
cotidiana de virtudes humanas sejam as pessoas que se dedicam a outro ser
humano, sem reclamar, sem fugir das obrigações, sem querer nada em troca. Com
mais idade, só vamos compreender essa atitude quando nos tornamos pais ou mães.
Neste contexto, a virtude não é algo que se aprende lendo ou escrevendo, mas
vivenciando essa relação humana visceral e sanguínea tão próxima. Será que é
por isso que até a maternidade e a paternidade estão em crise em nossa
sociedade tecnológica? Será que alguém consegue sentir a virtude de uma
inteligência artificial em uma conversa por canais de diálogo automatizados?
Por que estamos nos distanciando disto? Como poderemos transmitir valores da
alma humana para fazer o bem, sem nunca tê-lo experimentado um dia? É lícito
que impeçamos as futuras gerações de, pelo menos, saber que existem virtudes
nesta vida?
Negar-se
a si mesmo e sacrificar o próprio bem-estar são atitudes totalmente contrárias
aos valores modernos. Há quem possa classificar a abnegação como uma
autossabotagem, algo que impedirá uma pessoa de alcançar os mais altos níveis
na escalada do sucesso, da fama e da riqueza. A pergunta que fica é: para que
escalar uma montanha, quando quem amamos e nos ama está ao nosso lado?
Neste
sentido, a abordagem da abnegação passa a ter reflexos na forma com que
conseguimos ou não nos desapegar de valores externos, de aparências e de
crenças da moda ou do período histórico presente. Este significado, embora
esteja sendo sufocado pelo egocentrismo e pelo individualismo exacerbado, ainda
persiste e ainda queima em nossos corações, pois é uma herança de nossas
antigas gerações, que sobreviveram à desumanização por nossa causa.
O chamado da abnegação aos algoritmos
Embora
seja uma teoria contrária às tendências comportamentais da atualidade, aquele
coração sofrido que grita dentro de nós, talvez, esteja querendo nos trazer de
volta aos momentos de reflexão sobre os valores que são dispensáveis. Uma
mensagem sobre a diferença entre o pertencimento social virtual e o
pertencimento à espécie humana concreta.
Quando
nos abnegamos das multidões e ficamos a sós, no silêncio de nossa solitude
voluntária e desacelerada, lendo um texto como este, o óbvio surge bem à nossa
frente: o fato de que não estamos precisando pertencer a um mundo por
conveniência, mas de fazer o que viemos fazer a este mundo. Expressar virtudes
herdadas e consagradas que, ao invés de eliminar o nosso próximo só para
garantirmos um espaço ao sol, exigem o oposto: permitir que este mundo seja
realmente mais humano e inclusivo, de fato.
Não
pelo discurso da virtude, mas pela abnegação consciente das próprias
necessidades egoísticas. Isso não nos tornará ingênuos, não é autossabotagem.
Há várias forças naturais em prol deste tipo de abnegação, e uma das leis a
favor das virtudes humanas chama-se Lei do Retorno. Simples assim para uma
mente descansada e lúcida; complexo demais para uma máquina cheia de bilhões de
informações estatisticamente organizadas e classificadas para gerar audiência e
desconexão com a realidade.
Deixemos
aqui algumas perguntas sem respostas: se um dia encontrarmos alguém com boas
intenções, para o bem, que conselho este alguém mereceria receber? Será que
devemos aprovar ou desaprovar? Confiar ou desconfiar? Será que conseguiremos
nos abnegar de nossa condição de politicamente certinhos e incentivar as boas
intenções? Ou seguiremos o caminho normalizado da indiferença e do cinismo?
Conclusão
No fim
das contas, a virtude não habita os discursos laudatórios das mídias sociais
nem as cartilhas burocráticas da civilidade cínica: ela só existe no fazer
concreto e no desprendimento real. Romper com a mentira socialmente aceita e
com a idolatria ao ego produtivista exige uma insubordinação espiritual diária
que encontra amparo nas heranças de sangue e afeto que nos trouxeram até aqui.
Seja dividindo um prato de lagosta com um menino faminto em um restaurante
hostil ou testemunhando a abnegação incopiável de uma mãe que se sacrifica por
seus filhos, o resgate de nossa humanidade depende da decisão inegociável de
enxergar a necessidade alheia. Se nos recusarmos a abandonar a blindagem do
politicamente correto para incentivar as boas intenções, o caminho da
indiferença nos converterá em meros processadores mecânicos de informações. É
na solitude voluntária e no silêncio que mantemos acesa a chama da abnegação
consciente, alinhando a nossa mente lúcida à Lei do Retorno e garantindo que as
próximas gerações ainda saibam o que significa ser gente de verdade.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1.
Qual é o episódio biográfico que serve de ponto de partida para a reflexão
sobre a abnegação?
O ensaio parte de uma memória marcante da lua de mel do autor, ocorrida há mais
de trinta anos. Em um restaurante, ao decidirem experimentar um prato caro e
famoso, ele e sua esposa foram abordados por um menino muito pobre e faminto.
Ao escolherem alimentá-lo na própria mesa, foram hostilizados pelos olhares de
reprovação da gerência e dos atendentes, gerando um conflito profundo entre as
regras de etiqueta social e a decência humana básica.
2.
Como o ensaio conceitua a diferença entre a etiqueta social e o resgate da
humanidade?
O texto demonstra que a etiqueta social muitas vezes funciona como uma máscara
de aparências que normaliza a indiferença diante do sofrimento alheio. O
resgate da humanidade ocorre justamente quando o indivíduo toma uma decisão
voluntária e consciente de romper com esses protocolos burocráticos para
enxergar e acolher a necessidade concreta de uma pessoa ao seu lado.
3. Por
que o autor afirma que a virtude é fundamentalmente um "fazer"?
Porque a virtude falada, teorizada ou meramente contada é vazia e estéril.
Assim como a sabedoria, a virtude humana só se concretiza e ganha existência
real através da atitude prática, do comportamento cotidiano e da disposição
inabalável de praticar o bem, independentemente do contexto ou da aprovação dos
nichos de mercado.
4.
Qual é o principal desgaste emocional da atualidade apontado no ensaio?
O maior desgaste consiste em assistir passivamente ao jogo do poder, do ganha e
perde e da competitividade acirrada do mundo contemporâneo. Essa dinâmica
mercantilista transforma atos de honestidade em motivo de piada, normaliza a
corrupção e substitui os sentimentos verdadeiros por mentiras socialmente
aceitas, sufocando os valores ancestrais acumulados pela espécie humana.
5. O
que são as chamadas "virtudes superficiais" criticadas na obra?
São comportamentos teatrais moldados para agradar às mídias sociais e garantir
aceitação pública. Em vez de nascerem de um desprendimento real, essas condutas
apenas imitam celebridades e políticos em exibições espetaculares
televisionadas, servindo ao protagonismo do ego e ao medo generalizado que as
pessoas têm de serem malvistas pela sociedade.
6. De
que maneira a tecnocracia meritocrática afeta as interações humanas
contemporâneas?
A tecnocracia meritocrática atua como o grande pilar de um embuste que promete
sucesso e felicidade globais baseados unicamente no ego produtivista e na
subserviência passiva. Esse modelo burocrático e individualista mercantiliza as
interações e sustenta a falência das relações afetuosas, substituindo a
convivência real pela companhia isoladora de máquinas e processadores de
informações.
7.
Quem é apresentado como o primeiro e mais puro exemplo prático de abnegação?
O primeiro e maior exemplo é a figura da mãe. O autor utiliza o sacrifício
materno — o ato visceral de tirar o próprio alimento para garantir a
sobrevivência, o amparo e a educação dos filhos — para provar que a abnegação
voluntária não se aprende em manuais ou teorias acadêmicas, mas sim na vivência
de uma relação sanguínea rica em amor e desapego.
8.
Como o texto rebate a visão moderna de que a abnegação seria uma forma de
"autossabotagem"?
O pensamento moderno focado no utilitarismo tende a classificar o sacrifício do
próprio bem-estar como um erro que impede o indivíduo de subir os degraus da
fama, da riqueza e do sucesso. O autor desconstrói essa lógica com uma
provocação cirúrgica, questionando qual seria o sentido de escalar uma montanha
de isolamento quando as pessoas que amamos e nos amam já estão ao nosso lado.
9. O
que representa o conceito de "chamado da abnegação aos algoritmos"?
Representa um convite ao recuo estratégico e ao silêncio. Significa abnegar-se
do barulho das multidões virtuais e recolher-se na solitude desacelerada para
diferenciar o pertencimento social virtual da nossa verdadeira conexão com a
espécie humana concreta e com o Grande Criador de tudo, permitindo que o mundo
seja mais inclusivo.
10.
Qual é a advertência e a provocação contidas nas perguntas sem respostas que
fecham o artigo?
O
desfecho questiona se a humanidade será capaz de abandonar a convenção do
comportamento politicamente correto para incentivar as boas intenções de quem
busca fazer o bem, ou se continuará a seguir o caminho normalizado do cinismo e
da indiferença. É um alerta ético sobre a responsabilidade de transmitir os
valores da alma às futuras gerações antes que percamos a capacidade de
experimentar a virtude real.
Para
visualizar essa reflexão de forma mais imersiva, convido você a assistir ao
vídeo AQUI
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deste ensaio? Este texto faz parte de uma caminhada orgânica de emancipação e
insubordinação mental. Se você busca um refúgio de paz em meio à pressa
artificial do mundo moderno e deseja se aprofundar nessas provocações
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© 2026 Marcio Ueda. Conteúdo original protegido pela Lei 9.610/98. Proibida a reprodução integral.
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