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CONSTITUINDO A EXISTÊNCIA: ninguém é neutro


Mesa de xadrez antiga dividindo a cena entre peças formadas por raízes e folhas verdes, à esquerda, e peças metálicas com circuitos azuis brilhantes, à direita. Ao fundo, uma janela de madeira deixa entrar a luz dourada do entardecer.

Nossa incômoda presença

 

A parte e o todo

Certa vez, explicando as relações entre solo, planta e ambiente para demonstrar o funcionamento de um ecossistema modificado pelo homem — o agroecossistema —, consegui associar cada modificação no solo que afetava a planta e vice-versa. Da mesma forma, a modificação da planta e do solo alterava as condições no ambiente, em um ciclo contínuo de ida e volta.

Estas relações têm como protagonista o próprio ser humano.

Na sua interação com o meio e com os seus elementos, o homem interfere diretamente no tipo de cobertura do solo, na seleção de espécies e na escolha das épocas de cultivo. Ele combina, em seu espaço geográfico, as mudanças naturais dos ventos, a umidade do ar, o índice de luminosidade e as variações de temperatura.

Fazer movimentos dentro desta complexa rede de fatores inter-relacionados e interdependentes cria o conceito vivo de que cada parte afeta o todo, e o todo afeta cada parte.

 

O ecossistema da mente

Se isso fosse transmutado para cada um de nós — as partes — em um ecossistema da existência — o todo —, será que não constataríamos também inter-relações de ida e volta, onde cada parte constitui e, ao mesmo tempo, é constituída?

Será que cada pensamento individual que geramos seria totalmente inofensivo para uma coletividade?

Será que alguém consegue agir sem nenhuma intencionalidade neste mundo?

Se estamos mergulhados em uma realidade passageira, sujeita a tantos pensamentos externos, é possível que consigamos nos isolar totalmente do mundo, sem qualquer interferência em nossas mentes? O isolamento absoluto é uma ilusão mecânica.

Quais caminhos nossa essência aponta para uma interação benéfica com a própria humanidade? Como lidamos com as duas faces da moeda: o lado negro e o iluminado da nossa consciência? É possível algum controle sobre ela?

Talvez não exista um simples sim ou não para estas perguntas. Resta-nos, quem sabe, uma simples e honesta percepção: não sabemos e jamais saberemos tudo.

 

Assumindo nossa parte

Se, ao sermos colocados neste mundo, estamos fazendo parte de um todo existencial, mesmo sem querermos, significa que nascemos com uma função a cumprir.

Isto é animador e assustador ao mesmo tempo.

Por um lado, a necessidade do pertencimento é uma liga que nos obriga a ter relações com outras pessoas. Ninguém, em plena consciência, pode afirmar que chegou sozinho até onde está, sem a ajuda de nenhum ser humano. O isolamento absoluto é uma farsa teórica.

Este reconhecimento, contudo, tem o seu lado sombrio.

Nos encontros e desencontros de nossas jornadas, deparamo-nos com pessoas de todas as frequências mentais possíveis — desde aquelas com elevados pensamentos até aquelas afetadas por pensamentos baixos, que nos assustam e nos repelem.

Boa parte de nossos medos e ansiedades vem da crescente desconfiança nascida das máscaras sociais exigidas pelo mundo da competição e da escassez. Máscaras que, embora não gostemos de admitir, nós assumimos para conseguir sobreviver na arena do cotidiano.

 

As leis superiores do grande teatro

Mas o foco desta reflexão não está no porquê das máscaras, dos egos produtivistas e individualistas predominantes neste mundo do ganha e perde, na eterna disputa entre gatos e ratos.

Já somos suficientemente ambientados em nossa época histórica para compreender uma verdade mais profunda: existem leis naturais superiores a qualquer lei humana. Nem o melhor advogado deste mundo pode impedir uma lei natural de agir.

Neste contexto, mesmo que uma pessoa negue seu papel como ser existente constituinte de um todo existencial humano, talvez iludida pela soberba da autossuficiência e pela insanidade do jogo da vida, arcará com as consequências da própria presença por onde for.

São exatamente estas leis que deixamos de enxergar nas relações diárias, cegos pelo movimento frenético no grande teatro das máscaras. Quando o feito sempre é considerado melhor que o perfeito, significa que influenciamos o nosso meio e o grande tecido da vida a cada passo dado.

Assim como escolhemos qual semente plantar e colhemos suas consequências para o solo e o ambiente, quando assumimos quem somos, podemos escolher como vamos lidar com a mesma lei da semeadura para nossas vidas e para todos com quem nos relacionamos. Alguns definem isto como protagonismo ou consciência para escrever a própria história, mas, neste ensaio, significa apenas viver a própria vida com autoralidade.

 

Ninguém é neutro

Mesmo que incomodemos por não fazermos coro a um padrão de conveniência, ou mesmo querendo fazer parte de uma bolha de segurança, nunca somos chamados para integrar agrupamentos porque faremos alguma diferença para o todo, mas porque precisamos, simplesmente, ser quem somos — a única razão de termos vindo a este mundo como seres únicos.

A neutralização de quem somos é uma imbecilidade criada para tolher talentos natos, para mediocrizar e adestrar as pessoas para serem cativas da própria criação humana neste mundo. Algo que ninguém pode, em sã consciência, admitir como existência plena.

Fazer parte do todo implica interferir e mudar as relações, mesmo que sejamos mudos, cegos e surdos. Se até estes seres extraordinários nos passam uma mensagem existencial riquíssima, quanto mais quem tem o dom de falar, de escutar e de enxergar o mundo ao seu modo.

Melhor ainda é saber como as leis naturais estão à nossa disposição para usá-las de forma inteligente, para elevarmos nossa capacidade de compreensão e de escolha dos melhores caminhos possíveis para uma vida, de fato, constituinte do todo.

 

A vida plena em Xeque

Para quem gosta de analisar tudo como um jogo, nascemos em xeque e jamais chegamos ao xeque-mate nesta vida. Isto porque quem determina o fim do jogo não somos nós, mas o Criador de tudo.

Ousar limitar a vida de alguém, querendo controlá-la, é uma afronta direta ao Grande Compositor de nossos destinos.

Muitas vezes, somos nós mesmos que nos colocamos em xeque por não seguir e não respeitar as leis naturais — cuja compreensão não exige títulos acadêmicos, mas simplicidade.

 

Conclusão

Compreender a nossa existência exige reconhecer que o isolamento absoluto é uma ilusão. Como partes ativas de um todo interconectado, nossas ações, pensamentos e escolhas ressoam inevitavelmente na coletividade. Ao invés de nos sujeitarmos ao adestramento social e às máscaras de conveniência, somos convidados a viver com autoralidade e em conformidade com as leis naturais. Afinal, em um mundo onde ninguém é neutro, assumir nossa verdadeira essência é o único caminho para a emancipação e para uma vida plenamente constituinte do todo.

 

PERGUNTAS E RESPOSTAS

  1. Qual metáfora inicial o autor utiliza para exemplificar a interconexão entre as partes e o todo?

O autor utiliza a analogia do agroecossistema, demonstrando como cada modificação no solo afeta a planta e vice-versa, em um ciclo contínuo de influência mútua com o ambiente.

  1. O que o texto afirma sobre a possibilidade de um isolamento humano absoluto?

Afirma que o isolamento absoluto é uma "ilusão mecânica" e uma "farsa teórica", uma vez que dependemos e nos relacionamos inevitavelmente com outros seres humanos.

  1. Qual é a origem de boa parte dos medos e ansiedades no cotidiano moderno segundo o ensaio?

Surgem da desconfiança alimentada pelas máscaras sociais que assumimos para sobreviver no ambiente competitivo do dia a dia.

  1. O que são as "leis superiores" mencionadas pelo autor?

São leis naturais que se sobrepõem às leis humanas e atuam de forma soberana, fazendo com que cada indivíduo arque com as consequências de sua presença.

  1. Como a metáfora da semeadura é aplicada ao comportamento humano?

Assim como escolhemos a semente para o solo e colhemos seus resultados no ambiente, nossas escolhas e atitudes geram consequências diretas para nossa vida e para quem nos cerca.

  1. Por que o autor defende que "ninguém é neutro"?

Porque a nossa simples presença e existência afetam e alteram o tecido das relações sociais, mesmo que nos mantenhamos em silêncio.

  1. Como o texto define a "neutralização de quem somos"?

Define-a como uma imbecilidade criada para tolher talentos natos, mediocrizar as pessoas e adestrá-las como cativas da criação humana.

  1. O que representa a metáfora do jogo de xadrez no texto?

Representa que nascemos "em xeque" e jamais daremos o "xeque-mate" nesta vida, pois quem determina as regras e o fim da partida é o Criador, e não nós.

  1. Que atitude o autor considera uma afronta ao "Grande Compositor de nossos destinos"?

Tentar limitar ou controlar a vida e a existência de outra pessoa.

  1. Quem é o autor do texto e qual obra é recomendada ao leitor?

O texto é de autoria do Professor Marcio Ueda, autor do Blog Jornada da Escrita, que convida o leitor a conhecer seu livro "Jornada da Escrita: Insubordinação Mental, Autoralidade e a Decisão de Tornar-se Humano".

 

 

Assista a um vídeo anime explicativo deste texto, dentre outros, clicando AQUI

 

 

Este texto faz parte de uma caminhada orgânica de emancipação e insubordinação mental. Se você busca um refúgio de paz em meio à pressa artificial do mundo moderno e deseja se aprofundar nessas provocações cotidianas, convido você a conhecer o meu livro "Jornada da Escrita: Insubordinação Mental, Autoralidade e a Decisão de Tornar-se Humano". A obra foi publicada de forma independente e está disponível em formato físico no portal UICLAP. Permita-se uma pausa, puxe uma cadeira e clique aqui para adquirir o seu exemplar para continuarmos juntos essa jornada de resgate da nossa essência.

 
















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