O tempo e o destino
Calando a mente
Quando parti pela primeira vez para o mundo,
me descreveram que somente uma música da época representava aquele momento para
quem ficou. Poderia ser uma breve despedida, mas também poderia ser definitiva.
Para onde eu iria, não havia como adivinhar o futuro; não haveria como me
encontrar quando alguém, porventura, sentisse minha falta. Mesmo depois, quando
retornei, apenas aquela música conseguia expressar a força do silêncio que nos
uniu enquanto estive ausente.
Existe uma sensação de saciedade no silêncio
da mente! Quando não é necessário tentar traduzir o infinito do momento
presente. Deixar a mente livre e solta não significa imobilidade existencial,
mas o contrário, significa vivenciar o fenômeno da vida. Sabemos que nosso
sangue continua levando o oxigênio para nosso corpo todo e por isso, mecanismos
mentais não voluntários continuam processando essa vivência, a qual pode ser
tão grande que mal podemos expressar em símbolos ou palavras. Assim como o
oxigênio chega aos dedos e aos órgãos, o silêncio deveria nutrir nossas
palavras e decisões simples, impedindo que elas se tornem apenas
"barulho".
Por isso, tentar escrever sobre essa
percepção do momento presente é o mesmo que tentar descrever o universo, algo
utópico e inalcançável. Mesmo assim, ter a consciência vagando neste vasto
universo é uma ação que precisa de atitude pessoal, de uma escolha por uma
direção. Esta escolha reside na nossa reação aos fenômenos, e não no controle
dos eventos em si, que se combina com um destino em contínuo fluxo.
Talvez a grandiosidade dos fenômenos
vivenciados naquela época jamais possa ser literalmente descrita, pois nunca
nos é dado saber como será nosso destino até acontecer. Sempre estamos reagindo
a estímulos externos, mas, ao mesmo tempo que agimos com a consciência, existe
o silêncio agindo também, tal como o sangue que circula em nosso corpo sem
percebermos.
Provavelmente, quando nos permitimos ouvir
este silêncio da mente, possamos respirar mais aliviados das pressões externas
e sorrir para nós mesmos, até rir de nossos hábitos atrelados aos nossos
ofícios e nossos planos para o amanhã. Por que nos irritamos no trânsito
congestionado ou por que nos permitimos nos irritar com as disfunções alheias?
Por outro lado, a mente silenciosa que habita em cada um de nós não só nos
permite encurtarmos distâncias ao som de uma música distante, como também pode
trabalhar em consonância com nossos destinos indecifráveis.
A fluidez em sintonia com o silêncio da mente
Não é o mundo que faz barulho em nossas
mentes, mas nossas mentes que se enchem de impressões, pensamentos e ações. A
forma como usamos estes processos é o que cria nossos hábitos diários e, assim,
molda nosso comportamento predominante – como ensinado pelos mestres da reflexão
– e isto acaba interferindo em nosso caráter e nos conduz ao nosso destino.
Será que nossas mentes podem ser conduzidas
conscientemente sobre este destino, além da certeza de nossa finitude terrena?
Seria possível enxergar antecipadamente o que iremos produzir, realizar ou
deixar como mensagem final para este mundo? Quanto tempo seria necessário para
aprendermos a expressar as aprendizagens vividas através dos fenômenos
perceptíveis por nossas mentes únicas, seja na forma ativa ou silenciosa?
Talvez, nunca saibamos como associar na
prática ou na realidade concreta o que existe em nossa mente e o que o mundo
externo nos apresenta a cada segundo. Não é o ser humano que cria os fenômenos
aqui discutidos, pois estamos refletindo sobre as tramas, acontecimentos e fatos que estariam ligados àquele destino já pré-concebido pelo Criador de
todas as coisas, que jamais caberia em um texto como este e, talvez, nem mesmo
em uma enciclopédia inteira. Entretanto, o destino é como um mapa, mas o fluxo é a nossa caminhada
sobre ele.
Quando surgir o momento, o que escolheremos?
Daremos fluidez ao barulho que nossas mentes criaram ao longo de nossas
experiências ou, simplesmente, propagaremos o silêncio? Talvez, se desejarmos
deixar aquilo que melhor possa expressar para o mundo externo – aquele
entendimento mais profundo, ligado ao nosso âmago e à nossa alma – seja mais provável que deixemos o nosso
silêncio.
Não será em vão, como uma boa parte das
pessoas possam acreditar, pois cada pessoa tem um silêncio próprio, uma
compreensão única, uma passagem livre e fluida pela vida moldada pelo destino
que só cabe a cada um de nós decifrar, enquanto o sangue fluir dentro de nós.
Sentir o fluxo é uma necessidade vital
Assim como precisamos parar um pouco para
respirar, em meio ao caos de nossas rotinas neste mundo moderno, algo tão
defendido por especialistas, filósofos e intérpretes da realidade midiática,
existe uma necessidade existencial menos difundida, menos valorizada pelo mundo
produtivista e do consumismo.
No contexto de um mundo materialista, a mente
barulhenta é a que busca preencher o vazio com o poder irreal do dinheiro,
enquanto a mente silenciosa reconhece o que é essencial. Surge aqui uma crítica
aos limites do poder do dinheiro, incapaz de controlar nosso destino. Basta
observarmos quando alguém muito rico se frustra ao não poder comprar um sopro a
mais, nem mesmo para conseguir dar um abraço final, sincero e amoroso a seus
filhos, ou mesmo para poder se redimir profundamente por algo vergonhoso que tenha
cometido no passado. Por isso, sentir o fluxo é uma necessidade vital!
Esta necessidade traduz nosso reencontro com
o momento presente, uma pausa sem o peso de preocupações com atividades
mundanas ou projetos pessoais e profissionais. Quando tentamos resumir
processos mentais complexos, como a reflexão, a meras receitas prontas, o único
resultado efetivo é o aumento do saldo bancário de quem vende essas ideias. A
própria criação dessas fórmulas é ditada pelos algoritmos: uma engrenagem
voltada a uma produtividade adoentada, que exige produção automatizada em
massa, repaginada em embalagens sempre mais chamativas.
Com efeito contrário do que se acredita, tais
receitas apenas geram mais consumismo e mais pressa por resultados milagrosos
imediatos, criando um ciclo interminável de mais ansiedade e mais dependência
de soluções rápidas e superficiais. Isto tem a ver com o nosso gradual
esgotamento mental, tão prejudicial ao nosso próprio bem-estar.
A natureza dos fenômenos que incidem sobre
nós, no presente, não podem ser previstos, e não serão iguais para todos nós.
Primeiro porque não fazem parte do passado, de forma que possam ser rastreados
ou consolidados em padrões estatísticos e em segundo, porque são interpretados
por nossas mentes únicas, cada qual com seu nível de abstração, intuição e
criatividade.
Outra questão é que, neste contexto, o
destino nos contempla com o inesperado, com o imprevisível, justamente porque
os fenômenos pelos quais precisamos vivenciar em nossas jornadas pessoais, só
se encaixam para nossa existência individual. Assim, precisamos dar mais
atenção ao fluxo da vida, reservado a cada um de nós. Ao considerar isto como
algo vital, podemos agir com mais consciência, no tempo limitado que nos é
demarcado pelo destino.
Apontamentos finais
Assim, mesmo que estas palavras escritas
possam ser interpretadas como pretensiosas, no sentido de tentar descrever
processos mentais complexos – mais apropriado para estudiosos da neurociência –
a ideia é apenas sinalizar um tipo de alerta para evitarmos que nossas
vivências sejam transformadas em produtos com algum tipo de valor de mercado. O próprio ato de
ler este texto é uma forma de arte e silenciamento. Não é para vender
experiências que viemos a este mundo, mas vivenciar mais profundamente a
existência plena, a qual não é marcada pelo mundo do barulho e da bagunça
mental.
Assim, esta reflexão se volta para o cuidado com
nossa essência humana, que pode ser melhor expressa em nível artístico,
cultural e educacional quando a fonte criativa está aberta para a verdadeira
grandeza dos fenômenos que nos cercam, mesmo em uma escala reduzida, e limitada
pela nossa incapacidade de colocar em um objeto ou símbolo, tudo o que nossa
mente silenciosa consegue traduzir para o nosso ser.
Há vivências e experiências que ninguém
conseguirá compreender da nossa forma, tão única e individual, nem sentir como
nós pois nossas mentes se tornam insondáveis quando conectada com a força e o
poder da fluidez do silêncio que trabalha em nossas vidas. Mas, quando acessamos nosso silêncio único,
nos tornamos como aquela música: uma presença que comunica o essencial, mesmo
quando as palavras faltam ou a presença física cessa.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1. O que o autor define como "silêncio
da mente"?
É uma sensação de saciedade onde não se sente
a necessidade de traduzir o infinito do momento presente em palavras. Ele
funciona como o oxigênio no sangue: uma força vital invisível que processa
nossa vivência e deveria nutrir nossas decisões para que não se tornem apenas
"barulho".
2. Qual é a relação entre "destino"
e "atitude pessoal"?
Embora o destino seja comparado a um mapa já
pré-concebido pelo Criador, a atitude pessoal é a nossa caminhada sobre ele.
Não controlamos os eventos em si, mas temos o poder de escolher a direção
através da nossa reação aos fenômenos que surgem.
3. Por que o autor critica o mercado de
produtos de meditação e bem-estar?
Porque esses produtos muitas vezes tentam
transformar processos mentais complexos em "receitas de bolo"
voltadas ao lucro. Essa abordagem é impulsionada por algoritmos de
produtividade que geram mais pressa e ansiedade, em vez de proporcionar o
verdadeiro silêncio mental.
4. O que significa dizer que "não é o
mundo que faz barulho"?
Significa que o barulho é gerado por nossas
próprias mentes, que se enchem de impressões, pensamentos e ações. A forma como
usamos esses processos cria hábitos que moldam nosso comportamento e caráter,
conduzindo-nos ao nosso destino.
5. Qual é o limite do poder do dinheiro
apresentado na reflexão?
O dinheiro é incapaz de comprar um
"sopro a mais" de vida ou garantir sentimentos genuínos, como um
abraço final sincero ou a redenção por atos passados. A mente silenciosa
reconhece que o dinheiro tem um poder irreal diante da finitude humana.
6. Como o autor descreve a natureza dos
fenômenos que vivenciamos?
Eles são imprevistos, individuais e não
seguem padrões estatísticos, pois são interpretados por mentes únicas com
diferentes níveis de intuição e criatividade. O destino nos contempla com o
inesperado, algo que só se encaixa na jornada pessoal de cada indivíduo.
7. Qual é a importância de "sentir o
fluxo" na vida cotidiana?
Sentir o fluxo é uma necessidade vital de
restauração e reencontro com o momento presente, longe do caos das rotinas e
das preocupações produtivistas do mundo moderno. É o que nos permite agir com
mais consciência no tempo limitado que temos.
8. Por que é difícil descrever a percepção do
momento presente?
Porque tentar descrever essa percepção é
comparável a tentar descrever o universo; é algo utópico e inalcançável através
de meros símbolos ou palavras.
9. Qual é a mensagem final do próprio ato de
ler o artigo?
O autor afirma que o próprio ato de ler o
texto é uma forma de arte e de silenciamento. O objetivo não é
"vender" uma experiência, mas alertar o leitor para vivenciar a
existência plena fora do mundo do barulho e da bagunça mental.
10. Como a nossa essência humana pode ser
melhor expressa?
Nossa essência é melhor expressa nos níveis
artístico, cultural e educacional. Quando acessamos nosso silêncio único,
tornamo-nos como uma música que comunica o essencial, mesmo quando as palavras
ou a presença física faltam.
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