A queda das máscaras construídas
O Despertar pela Frustração
A frustação como caminho de amadurecimento
está ligada à dor existencial que nos desperta para nossa
necessidade de crescimento e aprendizagem contínua. Esta dor pode ser tão
intensa que, naturalmente, tendemos a fugir de experiências que violentem nossa
paz interior.
Contudo, a paz só pode advir após momentos de
conflito interior, quando conseguimos compreender parte do que nos aconteceu! O
desconforto da vida não se refere apenas à falta material, mas muito mais pela
nossa inabilidade em lidar com o imprevisto, encontros e desencontros
involuntários e confrontos que parecem não ter sentido.
Vivemos como parte de um grande Tecido da vida, o qual não podemos descrever por completo, de tão imenso que é, mas
que todos nós podemos sentir. É na percepção dessa imensidão sentida que
começamos a vislumbrar que o desconforto não é um erro, mas uma sinalização! Essa
percepção nos conduz à hipótese de um Grande Plano, onde os livramentos e as
surpresas do destino deixam de ser meros acasos para se tornarem elementos de
uma jornada pedagógica e metafísica.
A existência de um Grande Plano, envolve uma
perspectiva metafísica, que também não podemos negar como dimensão de
nossa existência, tendo em vista os livramentos e as surpresas do destino
que nos são apresentadas, ao longo de nossas jornadas pessoais. Pode ser que os significados de coincidência, acaso ou milagres adquiram vieses interpretativos sujeitos a
crenças e valores do momento, além de seus significados históricos.
Da mesma forma nossa subjetividade,
igualmente inegável, também dependa de uma busca voluntária e individual por
significados e sentido, que não podemos adequar a mais ninguém. Somos únicos em
nossas próprias jornadas solitárias neste mundo!
A unidade ou ponto comum que une a todos nós
é a própria sensação de frustração que, nesta reflexão, tem um propósito em
nossas vidas, voltado para nossa evolução e transformação possível, no tempo em
que ainda estamos por aqui, vivos.
O Embuste da Cultura do Bem-Estar
A dor, enquanto estabelecida, não pode ser
superada, mas apenas vivida. As dores da vida são experiências de cada um de nós,
desde aquelas manifestadas em nossos corpos até aquelas que se formam em nossas
mentes. É natural fugirmos destes momentos, mesmo que saibamos que nem sempre
temos uma saída e que por muitas vezes se tornam o centro de nossa existência! Mas, uma
pergunta que fica seria: Por que somos levados a acreditar que existem pessoas
neste mundo que não passam por sofrimentos?
Existe uma cultura de bem-estar padrão, em
que as frustações podem ser minimizadas por nossas posses, nossa convivência
social, nosso status e nosso estilo de vida. Esta cultura mais ilude do que
esclarece nosso sentido de existência plena e, mais ainda, não é eficaz para neutralizar
nossas dores. Todos nós estamos imersos em realidades distintas e concretas e, por isto mesmo, estamos todos sujeitos a um destino que nos coloca como navegantes perdidos em um oceano
sem fim!
Existem frustações dolorosas consequentes
desta cultura que usa a dor para vender produtos, que a maioria de nós acredita poderem resolver questões existenciais, como se a mesma fosse puramente material. Neste
contexto, vivemos um grande embuste que, para justificar mazelas e violências
veladas ao ser humano, demanda estratégias para nosso aleijamento cognitivo! Isso ocorre ao substituirmos nossa capacidade de questionamento
existencial por uma busca incessante por soluções materiais que nunca tocam a
raiz de nossa dor.
A Violência da Ilusão e a Pobreza Existencial
Não cometemos atos criminosos quando nascemos
nem quando somos crianças. Nossos medos iniciais estão ligados ao que nos expõe
aos perigos da vida e, por assim dizer, somos inocentes. Não é preciso roubar
para cometer crimes! O simples fato de conduzirmos uma criança a acreditar em ilusões,
no limite de nossa ignorância e submissão a ideologias e ao utilitarismo dos
conhecimentos e informações do mundo moderno, já é uma violência criminosa!
Neste contexto, criminoso é todo aquele que,
sob a máscara da autoridade ou do mercado, difunde a mentira de um bem-estar
inalcançável através da negação do nosso drama existencial.
Talvez, o fato de estarmos habituados às dores superficiais
causadas pelo endeusamento do poder e da posse seja a face nua e crua do destino, que nos
fez nascer neste período da humanidade. Quem pode responder todos os questionamentos? Será que escolhemos nascer neste momento
específico da humanidade? Existe alguém com alguma condição material que consiga evitar o
imprevisível? Não é fato que, hoje, até os desastres naturais, as doenças e a violência
humana são objetos de interpretações produzidas por conveniência?
A questão aqui não é julgar as mazelas humanas nem
atribuir o senso de criminalidade normalizada a qualquer ser humano, mas
levantar um questionamento filosófico sobre a desnecessária cultura humana que
aumenta os sofrimentos e mantém a pobreza existencial ao longo de nossa
existência. Por que acreditamos em salvadores da pátria? Por que somos levados à
incredulidade e à falta de confiança em nosso próximo e, pior, em nós mesmos?
Nesta lógica de raciocínio, seriam atos criminosos
o engano e a manipulação dos sofrimentos reais, tanto no sentido do seu falso aplacamento quanto aos sofrimentos superficiais imputados para beneficiar o
mercado das ilusões. É como se faltasse criatividade humana para trabalhar com
as reais necessidades existenciais, trocando-as por satisfações e prazeres
sensoriais para camuflar aquilo que não é enfrentado de cara, ou seja a própria dor da vida.
Criminoso, neste contexto, seria todo aquele que
difunde a mentira do bem-estar a partir da negação de nosso drama existencial
humano, o qual contém seus momentos de prazer e desprazer, satisfação e
insatisfação, alegria e tristeza, saúde e doença, como partes necessárias para
nossas aprendizagens neste mundo. Mais criminoso ainda seria aquele que promete a
solução da vida, como se fosse deus, criando mais sofrimento e mais problemas,
e pior, vinculados às suas próprias soluções precificadas.
Coragem Honesta e o Compartilhamento do Drama
O que dá sentido e mais propósito para
qualquer um de nós, dentro desta reflexão, seria podermos ajudar outra
pessoa a passar por seus momentos mais difíceis, sem querer solucionar o que
não pode ser resolvido, mas com a compreensão da própria vivência e da importância do compartilhamento consciente dos dramas que envolvem a todos
nós, sem dar as costas ao sofrimento alheio, porque também já sofremos ou ainda sofreremos. Essa disposição para o compartilhamento e o
enfrentamento honesto da finitude não é apenas um ato ético, mas o portal para
uma investigação mais profunda sobre a nossa própria estrutura interna.
Muitas vezes, escolhemos anular nossa
individualidade e autenticidade por covardia, para não enfrentar o que
não pode ser evitado. O fato é que protelar a dor é algo impossível quando ela chega, mas poder evitar e provocar dores adicionais é uma questão de bom senso e humanidade.
Não dá para sabermos o que é mais certo ou
errado para o próximo, mas todos sabemos que nosso tempo é finito e que a vida
pode ser mais dramática ainda se vivermos até o fim, sem saber o que é enfrentar
os desafios impostos pelo destino, sem saber que o quanto mentimos para nós mesmos, nos escondendo da vida e ainda incentivando outras pessoas a fazerem o mesmo!
Nossa passagem por este mundo moderno inclui
certas oportunidades para nos tornarmos gente de verdade, mas que exigem
coragem para superarmos nossas batalhas e atribulações espirituais. A falta de coragem nos induz a buscar as zonas de conforto, como se fôssemos incapazes de soltar as amarras e partir para nossos destinos, por causa da ansiedade, da insegurança e da falta de esperança.
Com certeza, superar isto tudo é algo que nos
exige poder reflexivo, paciência, tolerância e honestidade para com nós mesmos.
Ao abandonarmos as zonas de conforto e as amarras do medo, permitimo-nos
finalmente questionar a lógica invisível que sustenta nossa caminhada.
A Arquitetura da Alma e a Conexão com o Plano Maior
Qual é o propósito do destino? Qual é o
tamanho de nossa existência? Quais são as partes da vida onde onde podemos tocá-la por nós mesmos? Para que serve a experiência da dor? Por que dependemos
de esperança?
Se a dor e a frustação são inevitáveis na
vida, deve haver um motivo! Ou não? A crença de que existem seres humanos ilesos aos
dramas humanos é um produto do mundo moderno e, caímos nessa crença, porque é
mais fácil de digerir, embora não gostemos de admitir. Nós mesmos criamos justificativas e
narrativas retóricas baseadas em conveniências.
Nosso medo natural de criança, amplifica-se ao longo de nosso contato com o mundo das ilusões, pois é isto que faz girar a economia do mundo. Dependemos dela e muitas vezes, nós mesmos causamos o terror na terra para viver nesta economia! A questão é que também existe espaço para aprendermos o que viemos aprender, além da violenta imposição das máscaras do ego, que usamos no front de batalha da sobrevivência. Mas, a partir do despojamento destas máscaras, o silêncio do ego dá lugar às nossas perguntas fundamentais! O mercado das ilusões tenta nos calar mas a vida não precisa ser assim, só porque o mundo diz que tem que ser!
Quando crianças, nós aprendemos algo muito importante que é o sentimento de gratidão e, mesmo que não soubéssemos significá-lo em palavras, esta aprendizagem essencial nos conectava com o Plano Maior da existência. É esta a fonte da esperança! Esta gratidão funciona como o antídoto para a ilusão, uma ferramenta para nos religarmos ao Plano Maior da existência.
Temos um poder para escolher aquilo que se alinha
à nossa essência, que nos abre a perspectiva de uma conexão com aquele Plano
Maior! Mas, possivelmente, este Grande Plano está ligado à nossa missão, a qual depende de nosso desenvolvimento autêntico como ser humano,
de corpo-espírito-mente, ao longo de nossas caminhadas.
Talvez, a ideia de que formamos um grande
tecido da vida seja uma tentativa menos enganosa de atribuir valor e dignidade aos
propósitos de uma vida que inclua honestamente, a cada dia, um pouco de frustação
e dor, não do ponto de vista do puro sofrimento sem sentido, mas em prol de uma
transformação significativa para nossa própria existência.
Conclusão
A jornada humana não é uma busca por um
bem-estar estéril e precificado, mas um processo de transubstanciação da dor em
significado. Ao aceitarmos a frustração como parte do "Tecido da
Vida", abdicamos da violência das máscaras do ego em favor de uma coragem
honesta e autêntica. O destino, com seus encontros e desencontros, deixa de ser
um algoz para tornar-se o mestre de nossa missão espiritual. Assim, a gratidão
surge como o ponto de transformação decisivo: ela é o antídoto que dissolve as ilusões
do mundo moderno e nos religa, definitivamente, à harmonia do Plano Maior.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
1. Como a frustração contribui para o
desenvolvimento humano?
A frustração é apresentada como um caminho
essencial de amadurecimento, pois está ligada à dor existencial
que desperta o indivíduo para a necessidade de crescimento e aprendizagem
contínua. Ela deixa de ser um erro para se tornar uma sinalização pedagógica
dentro da jornada humana.
2. O que o autor define como o "Tecido
da Vida"?
O Tecido da Vida é uma metáfora para a
imensidão da existência que não pode ser descrita por completo, mas pode ser
sentida por todos. Ele representa a ideia de que formamos uma unidade onde a
frustração e a dor não são sofrimentos sem sentido, mas elementos para uma transformação
significativa da existência.
3. Qual é a perspectiva do autor sobre o
"Grande Plano" e o destino?
O autor sugere a hipótese de um Grande
Plano de natureza metafísica, onde os livramentos, encontros e surpresas do
destino não são meros acasos, mas componentes de uma jornada pedagógica
desenhada para o desenvolvimento do ser.
4. Por que a "cultura de bem-estar
padrão" é considerada um embuste?
Essa cultura é criticada por tentar convencer
as pessoas de que as frustrações podem ser minimizadas por posses, status e
estilo de vida. O texto afirma que ela mais ilude do que esclarece, pois
não é eficaz para neutralizar as dores profundas e trata a existência como algo
puramente material.
5. O que caracteriza o "aleijamento
cognitivo" mencionado no texto?
O aleijamento cognitivo ocorre quando
a capacidade de questionamento existencial do ser humano é substituída por uma
busca incessante por soluções materiais superficiais. Isso impede que o
indivíduo toque a real raiz de sua dor, mantendo-o preso a violências veladas e
mazelas sociais.
6. Como o autor redefine o conceito de
"ato criminoso" em uma perspectiva existencial?
Para o autor, o crime vai além do código
penal; é um ato criminoso conduzir crianças a acreditarem em ilusões e
submetê-las ao utilitarismo e a ideologias do mundo moderno. Criminoso é
todo aquele que, sob máscaras de autoridade, difunde a mentira de um bem-estar
inalcançável, negando o drama existencial humano.
7. Qual é o papel da "Coragem
Honesta" na superação do sofrimento?
A coragem honesta envolve o enfrentamento de
desafios impostos pelo destino sem buscar refúgio em zonas de conforto
por medo ou insegurança. Ela exige poder reflexivo, paciência e honestidade
para soltar as amarras do ego e partir em busca da própria missão autêntica.
8. Por que o compartilhamento dos dramas
humanos é fundamental?
O compartilhamento consciente dos dramas dá
sentido à vida, pois permite ajudar o próximo sem tentar "solucionar"
o insolúvel, mas oferecendo compreensão. Esse ato ético funciona como um portal
para uma investigação profunda sobre a nossa própria estrutura interna.
9. De que forma a gratidão atua como um
"antídoto para a ilusão"?
A gratidão é uma das aprendizagens mais
essenciais e acessíveis, funcionando como a ferramenta principal para religar
o ser humano ao Plano Maior da existência. Ela independe das produções
humanas e é a fonte da esperança que dissolve as falsas promessas do mercado
das ilusões.
10. Qual é a síntese final sobre o propósito
da jornada humana?
A jornada humana é descrita como um processo
de transubstanciação da dor em significado. Ao aceitar a frustração e
abdicar das máscaras do ego, o ser humano transforma o destino de um algoz em
um mestre para o cumprimento de sua missão espiritual e desenvolvimento
autêntico de corpo, espírito e mente.
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