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RIQUEZA: aquilo que se doa e se distribui e nunca acaba

RIQUEZA

Uma crítica ao materialismo exacerbado

Mercenarismo

Certa vez, assistindo a uma missa, ouvi um dos preletores falando de gestão do tempo, eficiência, organização e empreendedorismo. Foi como se alguém estivesse fazendo uma reunião de negócios, dentro de uma igreja. Um belo discurso, alinhado com uma concepção produtivista, não fosse o ambiente e a ocasião, ou seja, um local de conexão com Deus.

Uma das coisas mais comuns do marketing das religiões é a combinação de fé com prosperidade e ganhos materiais, como se o Criador de todas as coisas agisse por meritocracia. Precisamos discernir o que é do mundo daquilo que é de Deus!

Este exemplo é apenas uma parte da produção da cultura e de tudo o que consumimos, a qual parte de uma concepção que não tem nada de divino, mas algo puramente mundano, estabelecido por um modelo de vida mentiroso e falso, baseado na promoção da escassez, da ansiedade e da naturalização da insaciedade.

Os incautos — seja por ignorância voluntária ou não — acabam por reforçar esse sistema. Adotam acriticamente ideologias dominantes e perpetuam um modus operandi que sacrifica a dignidade humana no altar da conveniência e do lucro. Uma vez que isto envolve disputas por posse e poder, o desrespeito à dignidade humana é o resultado previsto mas, doentiamente, aceito.

 

A ilusão do preço

Da mesma forma, ao observarmos a conduta das bolhas sociais, percebemos que as pessoas se envergonham de trabalhar honestamente, em meio àqueles que optam pelo mercenarismo. A grande mentira do sistema no qual nos inserimos ao nascer, marcado por crenças e valores, no mínimo, discutíveis, é o enriquecimento material que parte de uma grande falácia: somos produtos com um preço definido.

Isto está associado a uma visão puramente materialista e produtivista, que constitui uma cultura que naturaliza a desumanização, pela qual passamos a crer em um sistema de mentiras que só valida um raciocínio raso sobre a existência, pois troca o sentido de uma vida plena por um sentido confinado, em especial, no que toca à capacidade que todos nós possuímos para pensar e refletir, que nos habilita ter nossa própria visão de mundo, voltada para o bem comum.

Qualquer propriedade material ou algo que consideremos como nosso, passa por um processo de significação social, como se fosse uma conquista pessoal, um direito, um motivo para viver, mas que na verdade deveriam ser apenas ferramentas da vida para realizarmos nossas missões.

O apego ao materialismo transforma a vida em um fardo cada vez mais pesado, ao longo de nossas vidas, a ponto de nos roubar a sanidade mental e o nosso bem-estar espiritual. Entretanto, esta insanidade está em nos orientarmos pela propaganda, pela imprensa e pelos meios midiáticos que apenas promovem o sistema mercenário de vida.

 

Imbecilidade humana

A maior insanidade de nosso tempo é assistir uma imensa camada da sociedade acreditando que a perpetuação da exploração do homem pelo homem não tem solução e que inverter o jogo do ganha e perde, do opressor e do oprimido está fora de cogitação. O ponto central desta reflexão se baseia na possibilidade de que todos podem possuir suas ferramentas para além da sofrível sobrevivência, sem precisar da subserviência sujeita ao que o sistema diz ser certo ou errado.

O mundo do materialismo coloca para baixo do tapete todo pensamento que eleve a consciência humana acima do argumento da posse e do poder. Sua fragilidade se concentra no fato de que qualquer ser humano sabe sobre suas reais necessidades, sabe o que é ser feliz, sabe se contentar com a simplicidade da vida.

Até quem escala os níveis do sucesso mundano sabe o quanto sacrifica sua própria riqueza humana, em troca de dinheiro e status. A deficiência cognitiva se concretiza quando aquilo que traz paz interior, noção de transitoriedade, energia vital no presente e real bem-estar junto ao próximo passa a ser incompreendido pelas pessoas, algo essencial para nossas jornadas neste espaço e tempo que nos foi concedido.

Quantos vivem acumulando coisas, exagerando no consumismo, incentivando brigas entre as bolhas sociais e compartilhando a ignorância sobre a completude da vida? Isto não é enriquecimento, ainda que um indivíduo se banhe em ouro ou seja a melhor marionete do sistema.

O empobrecimento de quem não mede esforços para se achar superior a outro ser humano é a falta de caráter, de dignidade e de humanidade, consequentes da falta de capacidade cognitiva que se reflete em um comportamento de desconfiança de tudo e de todos, na falta de empatia e sinceridade e, especialmente, na falta de esperança na riqueza da existência verdadeira!

 

Riqueza e pobreza

A crença de que nada pode mudar, neste contexto, é a própria contradição que nos coloca em conflito no contexto de nossas missões pessoais, as quais seguem uma combinação entre talento e propósito. A fonte da pobreza cognitiva está na crença de que não há espaço para uma vida suficientemente suprida para todos, embora a humanidade já tenha atingido um nível tecnológico suficiente para evitar as mazelas do sistema vigente.

Enquanto a maioria da humanidade luta, de fato, para o simples sobreviver, existem pequenos grupos humanos que não possuem a coragem ética e o senso de humanidade necessários para escaparem do jogo da vaidade, da ganância e do egoísmo. É impossível negar que nossa participação neste jogo é uma escolha feita por cada um de nós! Mas, ao transcendermos esse jogo de vaidades, passamos a enxergar as verdadeiras fortunas que nos cercam.

Embora esse jogo pareça inevitável, a saída reside em uma mudança de perspectiva sobre o que realmente acumulamos. A riqueza, neste contexto, é tudo aquilo que trazemos conosco e que esteja ligado a uma fonte inesgotável, que serve a todas as pessoas. O que é mais importante para cada um de nós, além de vivenciar as mazelas deste mundo?

Passamos pelos ciclos da luta pela sobrevivência, pela conquista de um lugar ao sol e pelo processo de amadurecimento. Estes ciclos ocupam boa parte de nossas vidas e há coisas que só o tempo pode nos trazer como, por exemplo, as oportunidades para encontrar a sabedoria e as virtudes ao longo de nossas jornadas individuais.

Chegamos a este mundo sem manual e partimos sem aviso. Esse intervalo — o tempo de existência — é tão precioso que não deveria ser gasto apenas na defensiva contra quem tenta nos escravizar ou diminuir. Aceitar nossas origens e necessidades é, acima de tudo, um ato de gratidão. Afinal, nenhuma riqueza material compra um minuto sequer de vida quando o tempo se esgota. Para quem ainda respira, cada segundo é a riqueza mais subestimada que possuímos. Para aqueles que o fim da jornada terrena ainda não chegou, os segundos, minutos, horas, dias e anos são a primeira riqueza, a qual, costumeiramente, não se dá o devido valor.

 

Somos ricos sem saber

Poder ver alguém que gostamos todos os dias é uma riqueza e, por sabermos que um dia a separação será inevitável, o valor só aumenta! Se podemos sorrir, mesmo que de vez em quando, sabemos que enquanto vivermos, este poder jamais acabará! Se tivermos a sorte de encontrarmos o amor, sabemos que é infinito e perdurará por toda a vida e nunca se esgotará! Se adquirirmos conhecimentos e distribuí-los, nosso saber só aumentará! Se formos humildes para aprender, as fontes de sabedoria jamais se esgotarão enquanto vivermos! Se quisermos ver o sol nascer e sentir a vida fluir em nosso ser por alguns minutos, teremos sua presença todos os dias que lembrarmos dele! Se conseguimos construir relações interpessoais saudáveis, um lugar que sempre gostaríamos de ficar, onde nossos talentos são úteis para as pessoas, encontramos uma inestimável fonte de alegrias nesta vida!

Essas riquezas não podem ser compradas nem vendidas e representam alguns exemplos do que podemos possuir sem precisar competir com ninguém, roubar ninguém, desrespeitar ninguém, mesmo durante nossas batalhas pela sobrevivência. Entretanto, cuidar daquilo que é de valor é uma responsabilidade de todos nós e isto exige compromisso! Se não elevarmos nossos pensamentos para atingir esta capacidade cognitiva sobre a vida, sobra apenas o mundo das ilusões sem sentido, que não precisa de coragem, de caráter nem de ética, ou seja, que não precisa de gente de verdade!

 

Conclusão

Em suma, a verdadeira fortuna reside na coragem de transcender as ilusões do materialismo para abraçar a abundância do ser. Ao assumirmos o compromisso ético de valorizar o tempo, o conhecimento e os afetos, compreendemos finalmente que a riqueza real não é aquela que se acumula de forma egoísta, mas aquela que se distribui generosamente — e que, por essa mesma razão, jamais se esgota.


PERGUNTAS E RESPOSTAS

1. Qual é a crítica do autor em relação ao "mercenarismo" em ambientes religiosos?

O autor critica a transformação de espaços de conexão espiritual em locais de "reunião de negócios", onde se prega uma concepção produtivista. Ele alerta que o marketing das religiões frequentemente associa a fé à prosperidade material, como se o Criador agisse por meritocracia, ignorando a necessidade de discernir o que é mundano daquilo que é divino.

2. O que o texto define como a "grande mentira" do sistema atual?

A grande mentira é a falácia de que os seres humanos são produtos com um preço definido. Essa visão materialista e produtivista naturaliza a desumanização e limita o sentido de uma vida plena, trocando-o por um raciocínio raso focado apenas na posse.

3. Qual deve ser a real função das propriedades materiais na vida de uma pessoa?

As propriedades materiais não devem ser vistas como um fim em si mesmas, um direito ou o único motivo para viver. Na verdade, elas deveriam ser consideradas apenas como ferramentas para que possamos realizar nossas missões pessoais nesta vida.

4. O que o autor descreve como a "maior insanidade" do nosso tempo?

A maior insanidade é a crença de uma grande camada da sociedade de que a exploração do homem pelo homem não tem solução. O texto defende que é possível inverter o jogo do "ganha e perde" para que todos possuam meios de viver além da simples sobrevivência e da subserviência.

5. Como se caracteriza a "deficiência cognitiva" mencionada no artigo?

Ela ocorre quando as pessoas deixam de compreender o que realmente traz paz interior, energia vital e bem-estar junto ao próximo. Em vez disso, focam em acumular coisas e incentivar brigas entre "bolhas sociais", ignorando a completude da vida.

6. O que o texto afirma sobre a tecnologia e as mazelas sociais?

O artigo sustenta que a humanidade já atingiu um nível tecnológico suficiente para garantir que todos tenham suas necessidades supridas. A persistência da pobreza é vista como uma contradição gerada pela crença de que os recursos são insuficientes para todos.

7. Qual é a "primeira riqueza" à qual as pessoas costumam não dar o devido valor?

A primeira riqueza é o tempo de existência (segundos, minutos e anos). O texto enfatiza que cada segundo é a riqueza mais subestimada que possuímos enquanto ainda respiramos.

8. É possível comprar mais tempo de vida com riqueza material?

Não. O autor é enfático ao afirmar que nenhuma riqueza material é capaz de comprar um minuto sequer de vida quando o tempo de uma pessoa se esgota.

9. Quais são alguns exemplos de riquezas que aumentam quando são compartilhadas?

O texto cita o conhecimento, que aumenta ao ser distribuído, e o amor sincero, que é infinito e nunca se esgota. Além disso, o sorriso, a humildade para aprender e as relações interpessoais saudáveis são fontes de alegria que não podem ser compradas nem vendidas.

10. Qual é a conclusão do autor sobre a "verdadeira fortuna"?

A verdadeira fortuna reside na coragem de transcender as ilusões materiais para abraçar a abundância do ser. Ela não consiste no que se acumula egoisticamente, mas naquilo que se distribui generosamente, pois essas são as riquezas que jamais se esgotam.

 

Veja mais

Assista a um vídeo anime explicativo deste texto, dentre outros, clicando AQUI

 

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